O título deste artigo expressa a unidade orgânica das Escrituras em
torno da pessoa e da obra de Cristo. Não se trata apenas de uma tematização
devocional ou homilética, mas de uma questão profundamente enraizada na própria
estrutura teológica da revelação bíblica. Desde Gênesis até Apocalipse, a
Escritura testemunha o propósito redentor de Deus, consumado em Cristo Jesus.
O Rev. Martyn Lloyd-Jones, ao introduzir sua série sobre Gênesis,
parte desse pressuposto hermenêutico fundamental: a Bíblia possui unidade
interna porque procede de um único Autor divino. Assim, ela não pode ser
reduzida a uma colcha de retalhos narrativos desconexos e/ou autônomos. A
declaração de Lloyd-Jones — “A Bíblia é um livro sobre Deus e sobre o homem, e
sobre a relação entre os dois” — expressa a mensagem central da revelação
escritural: criação, queda, redenção e consumação. A relação rompida pelo
pecado em Gênesis 3 encontra sua restauração na obra mediadora de Cristo
(LLOYD-JONES, 2009).
Essa perspectiva encontra forte ressonância em João Calvino.Em sua
obra magma as Institutas da Religião Cristã, Calvino insiste que toda a
Escritura converge para Cristo como seu cumprimento e substância. Em sua exposição
teológica a revelação veterotestamentária não é um sistema religioso distinto
do evangelho, mas sua fundamentação histórica e tipológica. o fio condutor
escarlate da aliança atravessa toda a história bíblica. Assim, desde as
promessas feitas aos patriarcas, os sacrifícios levíticos, a monarquia davídica
e a expectativa profética somente encontram pleno sentindo em Cristo. Em
linguagem calviniana, Cristo é a “alma” da Escritura, porque nela Deus revela
Seu propósito eterno de reconciliação (CALVINO, 2006).
No mesmo fluxo teológico, autores reformados contemporâneos
continuam sustentando essa leitura cristocêntrica da revelação. Edmund Clowney,
por exemplo, enfatizou que toda a história bíblica deve ser lida à luz da
“história da redenção”, vendo Cristo como o cumprimento progressivo das
promessas divinas. Essa ênfase na pregação reformada moderna ajudou a recuperar
uma leitura bíblica que evita tanto o moralismo quanto interpretações
fragmentadas do texto sagrado (CLOWNEY, 2003).
Semelhantemente, o pregador reformado Tim Keller ensinava que
“Jesus é o verdadeiro e melhor” cumprimento de todos os temas das Escrituras.
Em suas exposições, Keller frequentemente procurava deixar claro como
personagens, instituições e eventos do Antigo Testamento encontram seu
significado pleno em Cristo. Para ele, a Bíblia não é um manual de moralidade,
mas um condutor permanente para ensinar ao leitor sobre o evangelho da graça
(KELLER, 2015).
Exegeticamente essa leitura cristocêntrica possui fundamento nas
próprias palavras de Jesus. Em Evangelho de Lucas 24:27, o Cristo ressurreto,
caminhando para Emaús, “expunha-lhes o que a seu respeito constava em todas
as Escrituras”. O verbo grego diermēneuō (“interpretar”, “explicar
plenamente”) sugere que Cristo é a chave hermenêutica do Antigo Testamento. Sem
o foco cristocêntrico, o Primeiro Testamento deixa de revelar plenamente seu
propósito.
O mesmo princípio aparece em Evangelho de João 5:39, quando Jesus
declara: “São elas [Escrituras] mesmas que testificam de mim”. De
maneira que, a leitura cristocêntrica não é uma imposição artificial da
teologia posterior, mas uma orientação derivada do próprio Cristo.
Charles Spurgeon manteve essa convicção no campo da pregação. Sua
célebre frase — “Pregue Cristo, sempre Cristo” — expressava o fato de que o
púlpito perde sua autoridade espiritual quando abandona a centralidade da
mensagem cristocêntrica. Para ele, toda exposição bíblica deve conduzir o
ouvinte ao Redentor. Ele costumava afirmar que, de qualquer texto das
Escrituras, havia “um caminho para Cristo”. Isso não significava alegorizar
arbitrariamente o texto, mas reconhecer que toda a Escritura revelada aponta
para a necessidade da redenção e para o cumprimento messiânico em Jesus
(SPURGEON, 2013).
Essa perspectiva e sua abordagem preservam a continuidade da
revelação entre Antigo e Novo Testamento. Ao deslocar Cristo do centro, a
Bíblia corre o risco de ser fragmentada em moralismos, exemplos éticos isolados
ou mera história religiosa. Contudo, quando lida corretamente à luz do
evangelho, percebe-se que cada seção das Escrituras está entrelaçada com a
grande narrativa da redenção. A narrativa de Gênesis sobre os acontecimentos no
Éden antecipa a necessidade do segundo Adão; o cordeiro pascal aponta para o
Cordeiro de Deus; o sacerdócio levítico prenuncia o sumo sacerdote perfeito; o
trono de Davi prepara o reinado messiânico eterno.
Há ainda uma dimensão pastoral profundamente relevante nessa
perspectiva. Lloyd-Jones conclui corretamente que “Deus não deixou o homem
entregue a si mesmo, mas proveu salvação em Seu Filho”. A Escritura não é
apenas revelação de juízo, mas sobretudo anúncio da graça redentora. O centro
da Bíblia não é o esforço do ser humano tentando alcançar Deus, mas a graça de
Deus que se move ao encontro do homem por meio de Cristo. O Messias virá é a
mensagem veterotestamentária; Ele veio é a mensagem neotestamentária; e voltará
é a grande expectativa da conclusão da história humana. Essa verdade protege a
igreja tanto do legalismo quanto do moralismo vazio, pois o coração da fé
cristã não é um código ético, mas uma Pessoa.
Desta forma, a tradição reformada sustentou e continua sustentando
uma hermenêutica cristocêntrica, porque reconhece que Cristo é o eixo da
história da redenção. Ler a Bíblia corretamente é lê-la à luz da obra do
Mediador prometido, encarnado, crucificado, ressurreto e exaltado. Assim, cada
texto bíblico deve ser compreendido dentro do grande movimento da aliança
divina, cujo clímax está em Cristo Jesus, “porque dele,
por meio dele e para ele são todas as coisas” (Rm 11:36). Essa convicção
reafirma que a centralidade de Cristo não é apenas um princípio hermenêutico,
mas o fundamento da fé e da esperança da igreja.
Utilização livre desde que citando a fonte
Guedes, Ivan Pereira
Mestre em Ciências da Religião.
me.ivanguedes@gmail.com
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Referências
Bibliográficas
CALVINO, João. As Institutas da Religião Cristã. São Paulo:
Cultura Cristã, 2006.
CLOWNEY, Edmund P. Pregando Cristo em Toda a Escritura. São
José dos Campos: Fiel, 2003.
KELLER, Timothy. Jesus the King: Understanding the Life and
Death of the Son of God. New York: Penguin Books, 2015.
LLOYD-JONES, D. Martyn. From Fear to Faith: Rejoice in the Lord.
Wheaton: Crossway Books, 2009.
SPURGEON, Charles Haddon. Cristo é Tudo em Todos. São José
dos Campos: Fiel, 2013.
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