quinta-feira, 30 de abril de 2026

Eclesiastes: Leitura Devocional – A estabilidade da criação e a instabilidade da vida humana (1.4-7)

  

“Nascemos em um hospital e morremos em um hospital; e, entre um e outro, tentamos evitar ir ao hospital.”

Texto bíblico

“Geração vai e geração vem; mas a terra permanece para sempre.
Levanta-se o sol, e põe-se o sol, e volta ao seu lugar, onde nasce de novo.
O vento vai para o sul e faz o seu giro para o norte; volve-se e revolve-se, na sua carreira, e retorna aos seus circuitos.
Todos os rios correm para o mar, e o mar não se enche; ao lugar para onde correm os rios, para lá tornam eles a correr.”
— Eclesiastes 1.4-7

A estabilidade da natureza e a nossa instabilidade

Depois de perguntar: “Que proveito tem o homem de todo o seu trabalho, com que se afadiga debaixo do sol?” (Ec 1.3), o Pregador não responde diretamente. Em vez disso, ele conduz seus ouvintes a observar a criação: as gerações passam, a terra permanece; o sol nasce e se põe; o vento percorre seus circuitos; os rios correm continuamente para o mar.

O contraste é claro: a criação permanece em seus ciclos, enquanto o ser humano passa rapidamente. Tremper Longman III observa que Ec 1.1-11 funciona como o prólogo do livro, apresentando a perspectiva inicial de Qohelet e sua inquietação diante da aparente ausência de ganho duradouro na vida “debaixo do sol” (LONGMAN III, 1998). Assim, Ec 1.4-7 não é apenas uma descrição poética da natureza; é um espelho diante do qual o ser humano percebe sua brevidade, fragilidade e finitude.

Gerações passam; a terra permanece

“Geração vai e geração vem; mas a terra permanece para sempre” (Ec 1.4).

A maioria dos nossos bisavós já se foi; muitos de nossos avós também. Nossos pais estão envelhecendo, e nós igualmente passaremos. A terra, porém, permanece. Essa permanência da criação anuncia a transitoriedade da vida humana.

Cada objeto no mundo material, por sua persistência, prega-nos a brevidade da nossa existência. Em certo sentido, caminhamos sobre os monumentos daqueles que vieram antes de nós. A própria terra é o grande túmulo da humanidade.

Diante disso, algumas perguntas se impõem:

  • O que estamos plantando neste mundo?
  • Quais valores norteiam a nossa vida?
  • Qual esperança sustenta o nosso coração?

A Bíblia nos ensina que haverá uma nova terra, sem espinhos e abrolhos, sem pecado, sem dor e sem morte. O mundo não caminha para o abandono, mas para a restauração determinada por Deus.

O sol segue seu curso; o homem não domina o seu destino

“Levanta-se o sol, e põe-se o sol, e volta ao seu lugar, onde nasce de novo” (Ec 1.5).

O sol não rompe a linha de seu curso no céu. Dia após dia, ele nasce e se põe. Do mesmo modo, por mais habilidade, ciência e poder que o ser humano alegue possuir, ele não consegue livrar-se de sua triste herança: pecado, fraqueza e morte.

Nascemos, vivemos e morremos. A questão decisiva é: como estamos vivendo?

A Escritura nos ensina que até na velhice podemos produzir frutos. A idade avançada não precisa ser apenas o anúncio do fim; pode ser também tempo de testemunho, sabedoria, frutificação e esperança.

O vento gira; Deus governa a história

“O vento vai para o sul e faz o seu giro para o norte; volve-se e revolve-se, na sua carreira, e retorna aos seus circuitos” (Ec 1.6).

À primeira vista, o vento parece selvagem, irregular e imprevisível. Entretanto, ele também está sob o controle das leis estabelecidas pelo Criador. As tempestades mais furiosas cumprem seus ciclos em obediência às condições impostas por Deus à criação.

Assim também a história humana pode parecer apenas uma sucessão desordenada de acontecimentos, sem plano, sem direção e sem sentido. Mas há um Governador Supremo sobre todas as coisas.

Nosso nascimento, nosso tempo de vida — breve ou longo — e nossa morte estão dentro da moldura da vontade e do propósito de Deus. Ninguém nasce, vive ou morre aleatoriamente. Há um propósito.

A verdadeira vida está em descobrir esse propósito em Deus. Jesus declarou: “Eu sou o caminho, e a verdade, e a vida; ninguém vem ao Pai senão por mim” (Jo 14.6).

Os rios correm para o mar; a vida precisa permanecer no leito de Deus

“Todos os rios correm para o mar, e o mar não se enche; ao lugar para onde correm os rios, para lá tornam eles a correr” (Ec 1.7).

O rio é uma ilustração poderosa da vida humana. Quando permanece dentro de seu leito, carrega vida e fertilidade por onde passa. Mas, quando transborda suas margens, espalha destruição.

Assim também acontece com a vida humana. Quando vivida dentro dos canais da verdade e da justiça de Deus, ela produz bênção, maturidade e serviço. Mas, quando abandona esses limites, espalha tristeza, confusão e morte.

Derek Kidner observa que Eclesiastes continua falando com força a cada geração porque encara as perguntas difíceis da experiência humana e nos conduz, ao final, a perceber que Deus nunca esteve ausente da realidade examinada pelo Pregador (KIDNER, 2023). Essa é uma das grandes contribuições do livro: ele não nos permite fugir da realidade, mas também não nos deixa sem Deus diante dela.

Para reflexão

A estabilidade da criação revela a instabilidade da vida humana.

As gerações passam. O sol continua seu curso. O vento percorre seus circuitos. Os rios correm para o mar. E nós? Como estamos vivendo diante de Deus?

A pergunta de Ec 1.3 continua ecoando: “Que proveito tem o homem de todo o seu trabalho?”. A resposta não está em negar a brevidade da vida, mas em vivê-la diante de Deus, com temor, sabedoria e esperança.

Não fomos criados para uma existência aleatória, vazia e sem direção. Fomos criados para Deus. Somente nele encontramos o caminho, a verdade e a vida.

Vamos orar!

Senhor Deus eterno,

Ensina-nos a contar os nossos dias, para que alcancemos coração sábio.

Ajuda-nos a perceber a brevidade da nossa vida sem desespero, e a estabilidade da tua criação sem ilusão.

Que vivamos dentro dos limites da tua verdade, guiados por tua Palavra e sustentados por tua graça.

Que o nosso trabalho, os nossos dias e os nossos caminhos sejam vividos para o louvor da tua glória.

Em nome de Jesus. Amém!

 

Utilização livre desde que citando a fonte.

Guedes, Ivan Pereira
Mestre em Ciências da Religião
me.ivanguedes@gmail.com

Outro blog:
Historiologia Protestante
http://historiologiaprotestante.blogspot.com.br/

Contribua para a manutenção deste blog.

 

Referências bibliográficas

KIDNER, Derek. The Message of Ecclesiastes. Revised Edition. Downers Grove: IVP Academic, 2023. Série: The Bible Speaks Today.

LONGMAN III, Tremper. The Book of Ecclesiastes. Grand Rapids: Eerdmans, 1998. Série: The New International Commentary on the Old Testament.

Artigos relacionados

Eclesiastes - Introdução ao Livro
https://reflexaoipg.blogspot.com/2022/12/eclesiastes-introducao-ao-livro.html

Eclesiastes: Leitura Devocional (1.1-2)
https://reflexaoipg.blogspot.com/2023/11/eclesiastes-leitura-devocional-11-2.html

Eclesiastes: Leitura Devocional – Que proveito tem a pessoa de todo o seu trabalho? (1.3)
https://reflexaoipg.blogspot.com/2025/05/depois-de-iniciar-suas-palavras.html

Provérbios: Introdução Geral
https://reflexaoipg.blogspot.com/2021/02/proverbios-introducao-geral.html

Cântico dos Cânticos – Introdução
http://reflexaoipg.blogspot.com/2016/02/cantico-dos-canticos-introducao.html

Os Livros Poéticos e de Sabedoria - Canonicidade e Posição no Cânon Hebraico/Cristão
http://reflexaoipg.blogspot.com.br/2016/02/os-livros-poeticos-e-de-sabedoria_9.html

Livros Poéticos e Sabedoria - Tempo da Autoria
http://reflexaoipg.blogspot.com/2016/06/livros-poeticos-e-sabedoria-tempo-da.html

Quadro Comparativo dos Cânones do Antigo Testamento
http://reflexaoipg.blogspot.com.br/2016/02/quadro-comparativo-dos-canones-do.html

 

terça-feira, 28 de abril de 2026

Teologia — Verbete: Interpretação

 

Ícone

O conteúdo gerado por IA pode estar incorreto.

Se a iluminação é a obra do Espírito Santo que auxilia os crentes a compreender e aplicar as Escrituras, a interpretação é o método refletido e responsável que devemos seguir. Essa tarefa pressupõe que Deus se revelou, que as Escrituras foram inspiradas, que sua mensagem é verdadeira e confiável, e que o Espírito Santo atua para tornar eficaz a Palavra no entendimento e na vida do crente [GUEDES, 2026a; GUEDES, 2026b; GUEDES, 2026c; GUEDES, 2026d].

Ela envolve três elementos fundamentais:

 aproximar-se das Escrituras com humildade, conscientes dos pressupostos, tradições e influências culturais, permitindo que o texto nos molde;

  compreender o que o autor pretendia comunicar;

  discernir o significado atual, isto é, sua aplicação à vida contemporânea.

No primeiro passo, reconhecemos como cultura, tradição e contato prévio influenciam nossa leitura. No segundo, o foco recai sobre o sentido gramático-histórico da passagem, examinando palavras em seu contexto, estrutura literária, tom e gênero. Soma-se a isso a comparação de Escritura com Escritura e, de modo mais amplo, com o ensino bíblico como um todo [BERKHOF, 1990; KAISER; SILVA, 2007].

Assim, mediante esse processo e pela ação iluminadora do Espírito, a igreja alcança compreensão mais clara do significado e da relevância permanente das Escrituras. A iluminação, portanto, não dispensa o esforço hermenêutico responsável, mas o acompanha, orientando o intérprete para uma leitura reverente, fiel e obediente [GUEDES, 2026d; HODGE, 1999].

Contudo, isso é apenas parte da tarefa. Moisés não escreveu Deuteronômio, nem Paulo a Carta aos Filipenses, apenas para serem entendidos intelectualmente. Seus textos visam salvar, orientar e conduzir os crentes à vontade de Deus. Em síntese, exigem resposta: permitir que a Bíblia fale a mim, confrontando, instruindo e corrigindo meus padrões de vida.

Em seguida, devo permitir que as Escrituras — voz de Deus — falem à comunidade e ao contexto em que vivo. O senhorio de Cristo estende-se a todo o universo, e sua Palavra é o meio pelo qual manifesta graça e exerce governo real sobre nós. Por isso, interpretar corretamente a Bíblia não é apenas explicar um texto antigo, mas submeter-se à Palavra viva de Deus, para que ela molde a fé, a prática e o testemunho da igreja no mundo [ELWELL, 1993; FERGUSON; WRIGHT; PACKER, 1996; GRUDEM, 1999].

 

Utilização livre desde que citando a fonte

Guedes, Ivan Pereira

Mestre em Ciências da Religião.

me.ivanguedes@gmail.com

Outro Blog

Historiologia Protestante

http://historiologiaprotestante.blogspot.com.br/

Se este artigo lhe foi útil

contribua para sua continuidade 

 

Referências bibliográficas

BERKHOF, Louis. Teologia sistemática. São Paulo: Editora Cultura Cristã, 1990.

ELWELL, Walter A. (Org.). Dicionário de teologia evangélica. São Paulo: Vida Nova, 1993.

FERGUSON, Sinclair B.; WRIGHT, David F.; PACKER, J. I. (Orgs.). Novo dicionário de teologia. São Paulo: Vida Nova, 1996.

GRUDEM, Wayne. Teologia sistemática. São Paulo: Vida Nova, 1999.

GUEDES, Ivan Pereira. Teologia-Verbete: Revelação. Reflexão Bíblica, 2 fev. 2026. Disponível em: https://reflexaoipg.blogspot.com/2026/02/teologia-verbete-revelacao.html. Acesso em: 28 abr. 2026.

GUEDES, Ivan Pereira. Teologia-Verbete: Inspiração. Reflexão Bíblica, 3 fev. 2026. Disponível em: https://reflexaoipg.blogspot.com/2026/02/teologia-verbete-inspiracao.html. Acesso em: 28 abr. 2026.

GUEDES, Ivan Pereira. Teologia - Verbete: Inerrância Bíblica. Reflexão Bíblica, 4 abr. 2026. Disponível em: https://reflexaoipg.blogspot.com/2026/04/teologia-verbete-inerrancia-biblica.html. Acesso em: 28 abr. 2026.

GUEDES, Ivan Pereira. Teologia - Verbete: Iluminação. Reflexão Bíblica, 9 abr. 2026. Disponível em: https://reflexaoipg.blogspot.com/2026/04/teologia-verbete-iluminacao.html. Acesso em: 28 abr. 2026.

HODGE, Charles. Teologia sistemática. São Paulo: Editora Hagnos, 1999.

KAISER JR., Walter C.; SILVA, Moisés. Introduction to Biblical Hermeneutics: The Search for Meaning. 2. ed. Grand Rapids: Zondervan, 2007.

WARFIELD, Benjamin B. A inspiração e autoridade da Bíblia. São Paulo: Editora Cultura Cristã, 2005.

 

Evangelho Segundo João — “Eu Sou”: a identidade divina de Jesus [introdução à série]

 

Entre as muitas marcas literárias e teológicas do Evangelho segundo João, poucas são tão densas quanto a expressão “Eu Sou”. Por meio dela, Jesus revela sua identidade divina, situa sua missão no horizonte da revelação veterotestamentária e conduz o leitor ao reconhecimento de que, nele, o Deus da aliança se fez plenamente conhecido. Em João, Jesus não apenas anuncia a vida; ele é a vida. Não apenas aponta para a luz; ele é a luz. Não apenas ensina o caminho; ele é o caminho. Não apenas promete a ressurreição; ele é a ressurreição e a vida.

Essa característica se harmoniza com o modo peculiar pelo qual João constrói sua narrativa. Diferente dos Sinóticos, o quarto Evangelho apresenta discursos mais longos, linguagem mais conceitual e diálogos que frequentemente se desenvolvem em exposições teológicas mais amplas. Como já observamos em estudo anterior, João não contradiz os Sinóticos, mas os complementa, oferecendo uma perspectiva própria, mais íntima e teologicamente densa da pessoa e da obra de Cristo [GUEDES, 2022b].

Essa linguagem, contudo, não surge no vazio. Antes de aparecer no Evangelho segundo João, a fórmula “Eu Sou” já estava carregada de profundas ressonâncias veterotestamentárias. O pano de fundo mais evidente encontra-se em Êxodo 3, quando Deus se revela a Moisés no episódio da sarça ardente. Diante da missão de libertar Israel do Egito, Moisés pergunta pelo nome daquele que o envia. A resposta divina é majestosa: “Eu Sou o que Sou”. E Deus acrescenta: “Assim dirás aos filhos de Israel: Eu Sou me enviou a vós”.

Essa autorrevelação não apresenta Deus como uma ideia abstrata, distante ou impessoal. O Deus que se revela como “Eu Sou” é o Deus vivo, presente, fiel à sua aliança e comprometido com a redenção do seu povo. Ele é aquele que vê a aflição de Israel, ouve o seu clamor, conhece o seu sofrimento e desce para livrá-lo. Portanto, o nome revelado a Moisés comunica tanto a majestade da autoexistência divina quanto a proximidade da presença salvadora de Deus.

Esse pano de fundo se amplia especialmente nos profetas, sobretudo em Isaías. Em diversas passagens, o Senhor declara sua singularidade com expressões que ecoam a fórmula “Eu Sou”. Ele é o primeiro e o último; antes dele nenhum deus se formou, e depois dele nenhum haverá. Ele é aquele que anuncia o fim desde o princípio, sustenta o seu povo e realiza soberanamente os seus propósitos. Assim, no Antigo Testamento, a expressão se associa à identidade exclusiva do Senhor, à sua fidelidade à aliança, ao seu domínio sobre a história e à sua capacidade de salvar.

É precisamente nesse horizonte que as palavras de Jesus devem ser ouvidas no Evangelho segundo João. Quando Jesus diz “Eu Sou”, ele não está apenas usando uma forma comum de identificação pessoal. Em muitos contextos, sua declaração carrega uma força teológica muito maior. Ela insere sua pessoa no espaço da revelação divina. Jesus fala e age como aquele em quem o Deus de Israel se torna conhecido de maneira plena, definitiva e encarnada.

O próprio prólogo do Evangelho prepara o leitor para essa compreensão: “No princípio era o Verbo, e o Verbo estava com Deus, e o Verbo era Deus”. João não começa sua narrativa em Belém, no ministério de João Batista ou no início das atividades públicas de Jesus. Ele recua para antes da criação. Como já desenvolvido em artigo sobre a preexistência de Cristo, João localiza Jesus no princípio e o apresenta como aquele que transcende o tempo e o espaço, antes de todos os acontecimentos da história humana [GUEDES, 2022a].

Dessa forma, as declarações “Eu Sou” não introduzem uma cristologia estranha ao Evangelho. Elas desdobram, ao longo da narrativa, aquilo que o prólogo já afirmou de maneira concentrada. O Verbo que estava com Deus e era Deus agora fala dentro da história. O Criador entra no mundo criado. Aquele por meio de quem todas as coisas foram feitas caminha entre os homens, conversa com pecadores, confronta religiosos, cura enfermos, ressuscita mortos e, em cada gesto, revela a glória do Pai.

Isso se torna particularmente claro em João 8.58, quando Jesus declara: “Antes que Abraão existisse, Eu Sou”. A frase não apenas afirma a preexistência de Cristo; ela reivindica uma identidade que ultrapassa as categorias humanas ordinárias. A reação dos seus ouvintes confirma a gravidade da declaração: eles pegam pedras para apedrejá-lo. O conflito nasce porque entendem que Jesus não está simplesmente dizendo ser anterior a Abraão, mas apropriando-se de uma linguagem associada à autorrevelação do próprio Deus.

Por isso, a apropriação da expressão “Eu Sou” por Jesus deve ser lida como parte essencial da cristologia joanina. Jesus não é apenas o mensageiro de Deus, mas o Filho que revela o Pai. Ele não é apenas aquele que fala em nome de Deus, mas aquele em quem a glória de Deus se manifesta. Ele não é apenas o enviado que aponta para a salvação, mas aquele em cuja pessoa a salvação prometida se cumpre. Esse é um dos eixos centrais da cristologia joanina: Jesus é o Filho que revela plenamente o Pai, compartilha sua natureza divina e torna conhecido o Deus invisível [GUEDES, 2017b].

O evangelista João utiliza essa fórmula como um marcador narrativo cuidadosamente distribuído ao longo do seu relato. Algumas declarações aparecem acompanhadas de imagens concretas: “Eu sou o pão da vida”, “Eu sou a luz do mundo”, “Eu sou a porta”, “Eu sou o bom pastor”, “Eu sou a ressurreição e a vida”, “Eu sou o caminho, e a verdade, e a vida”, “Eu sou a videira verdadeira”. Em cada uma delas, Jesus revela um aspecto de sua pessoa e de sua missão. Ele satisfaz a fome do mundo, ilumina as trevas, abre o acesso à salvação, guarda suas ovelhas, vence a morte, conduz ao Pai e comunica vida aos que permanecem nele.

Outras declarações aparecem de forma absoluta, sem predicado explícito. São momentos de especial solenidade. Jesus diz à mulher samaritana: “Eu o sou, eu que falo contigo”. Afirma aos seus opositores: “Se não crerdes que Eu Sou, morrereis nos vossos pecados”. Declara antes dos acontecimentos finais: “Desde já vos digo, antes que aconteça, para que, quando acontecer, creiais que Eu Sou”. E, no jardim, quando os soldados vêm prendê-lo, responde: “Sou eu”; e aqueles que o buscavam recuam e caem por terra. João constrói, assim, uma rede de declarações que orienta o leitor a reconhecer em Jesus mais do que um mestre, profeta ou operador de sinais.

Essas expressões funcionam como janelas abertas para a identidade de Cristo. Cada uma delas retoma temas do Antigo Testamento, responde a necessidades humanas concretas e avança a narrativa em direção à cruz e à ressurreição. Não são frases isoladas para ornamentar a memória devocional da igreja, embora também alimentem profundamente a piedade cristã. Elas são peças estruturais do Evangelho. Por meio delas, João organiza a revelação progressiva de Jesus diante dos discípulos, das multidões, dos líderes religiosos e, finalmente, do próprio leitor.

Nesse sentido, a série que iniciamos não pretende apenas comentar expressões conhecidas do Evangelho de João. Nosso propósito é acompanhar o movimento da própria narrativa joanina. Primeiro, examinaremos o pano de fundo veterotestamentário da expressão “Eu Sou”, observando como ela se relaciona com a revelação do nome divino, com a aliança e com a redenção. Depois, veremos como Jesus se apropria dessa linguagem para revelar sua identidade divina e sua missão messiânica. Em seguida, analisaremos as principais declarações “Eu Sou” no Evangelho segundo João, considerando seu contexto narrativo, suas raízes bíblicas e sua contribuição para a cristologia do quarto Evangelho.

Esse caminho também dialoga com o propósito declarado do próprio evangelista. João afirma que os sinais foram registrados “para que creiais que Jesus é o Cristo, o Filho de Deus, e para que, crendo, tenhais vida em seu nome”. Em estudo anterior sobre a ocasião e o propósito do quarto Evangelho, observamos que João escreve para confrontar o incrédulo com a verdade acerca de Cristo e, ao mesmo tempo, fortalecer a fé daqueles que já creem [GUEDES, 2017a]. As declarações “Eu Sou” servem exatamente a esse propósito: elas revelam quem Jesus é e convocam o leitor à fé.

Ao final, esperamos perceber que a pergunta central de João continua diante de cada leitor: quem é Jesus? O Evangelho não foi escrito apenas para informar, mas para conduzir à fé. As declarações “Eu Sou” revelam que a vida prometida por Deus não se encontra em uma ideia, em uma instituição ou em uma mera tradição religiosa, mas na pessoa do Filho.

Portanto, quando Jesus diz “Eu Sou”, João nos convida a ouvir mais do que uma frase. Convida-nos a contemplar a glória daquele que estava no princípio com Deus, que se fez carne, que habitou entre nós e que, em sua própria pessoa, revela o Deus que salva.

 

Utilização livre desde que citando a fonte

Guedes, Ivan Pereira

Mestre em Ciências da Religião.

me.ivanguedes@gmail.com

Outro Blog

Historiologia Protestante

http://historiologiaprotestante.blogspot.com.br/

Se este artigo lhe foi útil

contribua para sua continuidade 

 

Próximo artigo da série

Evangelho Segundo João — “Eu Sou” no Antigo Testamento: o Deus que se revela e redime

Referências bibliográficas

GUEDES, Ivan Pereira. Evangelho Segundo João: Ocasião e Propósito. Reflexão Bíblica, 1 fev. 2017. Disponível em: https://reflexaoipg.blogspot.com/2017/02/evangelho-segundo-joao-ocasiao-e.html. Acesso em: 28 abr. 2026.

GUEDES, Ivan Pereira. A Cristologia no Evangelho Segundo João. Reflexão Bíblica, 29 jul. 2017. Disponível em: https://reflexaoipg.blogspot.com/2017/07/a-cristologia-no-evangelho-segundo-joao.html. Acesso em: 28 abr. 2026.

GUEDES, Ivan Pereira. EVANGELHO DE JOÃO: Jesus sempre existiu. Reflexão Bíblica, 18 ago. 2022. Disponível em: https://reflexaoipg.blogspot.com/2022/08/evangelho-de-joao-jesus-sempre-existiu.html. Acesso em: 28 abr. 2026.

GUEDES, Ivan Pereira. Evangelho João – Peculiaridades em Relação aos Sinóticos. Reflexão Bíblica, 13 nov. 2022. Disponível em: https://reflexaoipg.blogspot.com/2022/11/evangelho-joao-peculiaridades-em.html. Acesso em: 28 abr. 2026.

quinta-feira, 23 de abril de 2026

Graça & Paz — Pequenas Reflexões em Provérbios [1:1]

יִשְׂרָאֵל

מֶלֶךְ

בֶן־דָּוִד

שְׁלֹמֹה

מִשְׁלֵי

Israel

rei de

filho de Davi

Salomão

Provérbios de

“Estas são as palavras de sabedoria que o Senhor inspirou a Salomão, filho de Davi, rei de Israel — um homem que buscou compreender o coração de Deus para ensinar o povo a viver com discernimento e justiça.” [Paráfrase]

Comentário devocional:
Toda sabedoria verdadeira tem uma fonte. O livro de Provérbios não começa com ideias soltas nem com reflexões humanas desconectadas de Deus; ele começa apontando para uma origem, uma história e um propósito. Salomão foi levantado pelo Senhor para registrar verdades que atravessam gerações, mostrando que a Palavra não nasceu do acaso, mas do propósito divino.

Esse primeiro verso nos lembra que Deus usa pessoas, contextos e histórias reais para comunicar Sua vontade. A menção a Salomão, filho de Davi, rei de Israel, não é mero detalhe histórico; é a confirmação de que a sabedoria bíblica foi dada dentro da ação soberana de Deus na história. A Palavra é santa, intencional e digna de reverência.

Ler as Escrituras, portanto, não é apenas adquirir informação, mas colocar-se diante de uma revelação que vem do Senhor. Quem reconhece a origem divina da sabedoria aprende a se aproximar da Bíblia com temor, humildade e obediência.

Reflexão

Tenho me aproximado da Palavra de Deus apenas para obter conhecimento, ou com reverência, humildade e disposição para obedecer ao que o Senhor quer falar comigo?

 

Utilização livre desde que citando a fonte

Guedes, Ivan Pereira

Mestre em Ciências da Religião.

me.ivanguedes@gmail.com

Outro Blog

Historiologia Protestante

http://historiologiaprotestante.blogspot.com.br/

Se este artigo lhe foi útil

contribua para sua continuidade 

 

Artigos Relacionados

Provérbios: Introdução Geral

https://reflexaoipg.blogspot.com/2021/02/proverbios-introducao-geral.html?spref=tw

Provérbios: Termos Relevantes, Contrastes e Temas
https://reflexaoipg.blogspot.com/2021/03/proverbios-termos-relevantes-contrastes.html?spref=tw  
Livros Poéticos e Sabedoria - Conclusão da Introdução        
http://reflexaoipg.blogspot.com/2016/06/livros-poeticos-e-sabedoria-conclusao.html?spref=tw
Livros Poéticos e Sabedoria - Tempo da Autoria        
http://reflexaoipg.blogspot.com/2016/06/livros-poeticos-e-sabedoria-tempo-da.html?spref=twA