segunda-feira, 21 de novembro de 2022

Natividade – O filho do carpinteiro

 


 “Não é este o filho do carpinteiro?” (Mt 13.55)

“Não é este o carpinteiro?” (Mc 6.3)

    "E, carregando a sua cruz, saiu para o lugar chamado Lugar da Caveira, que em hebraico é     Gólgota, onde o crucificaram..." (João 19.17,18)

        "levando ele mesmo em seu corpo os nossos pecados sobre o madeiro" (1 Pe 2.24)

            Após um período de tempo exercendo seu ministério na região da Judeia, Jesus retornado à cidade onde havia crescido – Nazaré da Galileia. Entrando na Sinagoga começou a ensinar com uma autoridade e conhecimento inigualável, de maneira que produziu inicialmente uma admiração muito grande. Seus milagres corroboravam a autoridade com que ensinava a Torah.

Mas rapidamente a admiração transforma-se em inveja e rancor preconceituoso. Um murmúrio começou a percorrer o ambiente: “como é possível isto”, ele não passa de filho de um carpinteiro, e nós conhecemos sua mãe e irmãos e irmãs, pois a muitos anos moram aqui. De onde vem sua autoridade? Quem foram seus mestres para que ensine as Escrituras desta maneira tão maravilhosa? Como diria o caipira brasileiro: “tem caroço nesse angu”. A tensão vai aumentando e Jesus percebe que vai haver tumulto e violência, então fala para eles: "Um profeta é prestigiado em toda parte, menos na sua própria terra, e entre seu próprio povo!" E se retira da cidade. O evangelista faz um adendo ao registro evangélico: “E por isso Jesus só fez ali uns poucos grandes milagres, por causa da falta de fé que eles tinham”.

“Não é este o filho do carpinteiro?”

O Filho de Deus veio à terra na plenitude dos tempos e se revestiu da plenitude de nossa humanidade. Ele não cresceu no palácio real e nem mesmo no templo e nem mesmo na capital Jerusalém, mas na casa de um humilde carpinteiro em uma obscura cidade Nazaré, localizada na região da Galileia desprezada pela elite politica, econômica e religiosa da Judeia. 

É identificado imediatamente pelos moradores de Nazaré como " o filho do carpinteiro ". Sendo Ele aqueles que pelo poder de Sua palavra trouxe a à existência todas as coisas, livre e voluntariamente cresce aprendendo com José o oficio de carpintaria, o qual até completar seus trinta anos exerceu esse oficio. O Rei dos reis e Senhor dos senhores se submeteu ao trabalho braçal de um carpinteiro na casa para auxiliar no sustento de sua mãe e irmãos. Quanta humildade!

Sendo carpinteiro o Senhor Jesus lidava diariamente com toda sorte de madeira. É possível imaginarmos que enquanto prepara as madeiras para as mais diversas construções Jesus parou e pensou naquele dia em que Ele haveria de carregar um madeiro pesado em seus próprios ombros em direção ao Gólgota. Ali pendurado na cruz, Ele seria escarnecido e ridicularizado por Suas criaturas? E que naquela cruz nas três horas de escuridão Ele sentiria todo o terrível peso do pecado humano – meu e seu.

O Seu oficio de carpinteiro era um lembrete diário da razão pela qual esvaziou-se de toda Sua glória e se fez carne e habitou entre nós. Em sua última viagem para Jerusalém, saindo da Galileia, Jesus por três momentos avisa seus discípulos do que haveria de acontecer com Ele quando lá chegassem, e repreende Pedro duramente quando esse tenta desvia-lo do Calvário cruento – “arreda-te Satanás, pois não cogitas das coisas de Deus (Pai), mas dos homens”.

 Mas sereno e resolutamente não diminui o ritmo de sua derradeira viagem, permitindo apenas uma única pausa para refrigério na pequena vila de Betânia, no aconchego dos amados amigos Lazaro, Marta e Maria. Ali em sua última semana Jesus será ungido com o perfume derramado sobre ele, como preparação para enfrentar toda sorte de humilhação, dor e sofrimento que poderia ser infligido a uma pessoa. Sim, Ele poderia ter voltado para o céu a qualquer momento, mas Ele veio ao mundo para fazer a vontade Daquele que O enviou e para realizar Sua obra (João 4.34).

Quando finalmente chegou o momento em que Ele deveria sofrer e morrer na Cruz, lemos as palavras indescritíveis: "E carregando a Sua Cruz [madeiro], ele saiu para o lugar chamado lugar da Caveira, que em hebraico é Gólgota, onde eles o crucificaram [pregaram no madeiro]”. Ele, que havia trabalhado diariamente com madeira por muitos anos, carregou sua própria cruz de madeira, percorrendo o longo e terrível caminho até o local onde foi crucificado. Mas isso não é tudo: ali na cruz, por mais de três horas de escuridão, Jesus também carregou nossos pecados em seu corpo naquele madeiro. Ao fazer isso, Cristo resolveu definitivamente o problema que eu e você jamais poderíamos resolver – a questão dos nossos pecados.  Cristo naquele madeiro morreu a nossa morte, para pudéssemos receber a Sua vida.  Portanto, a Jesus Cristo seja todo louvor e adoração hoje e por todos os séculos. Amém e Amém!

 

Utilização livre desde que citando a fonte
Guedes, Ivan Pereira
Mestre em Ciências da Religião.
me.ivanguedes@gmail.com
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quarta-feira, 16 de novembro de 2022

Natividade no livro de Isaías (7.14) - João Calvino

            O Natal não inicia-se nas narrativas evangélicas de Mateus e Lucas, mas os evangelistas apenas descrevem o cumprimento de mais de dois mil anos de profecias bíblicas, que se inicia no capítulo três de Gênesis, mais especificamente no verso 15,chamado de o “Pro [Primeiro] Evangelho”, onde se encontra o primeiro anuncio do Salvador – “Este te ferirá a cabeça [serpente], e tu [descendente da mulher] lhe ferirás o calcanhar [cruz]”.

Nenhum aspecto da vida e ministério de Jesus Cristo foi aleatório, acidental e/ou incidental. No momento do seu nascimento, todo o escopo e foco do Antigo Testamento vieram à tona, como tão bem sintetiza o apostolo Paulo: “Vindo, porém, a plenitude dos tempos, Deus enviou seu Filho, nascido de mulher, nascido sob a lei” (Gl. 4.4).

Mais de 300 profecias foram cumpridas na vida de Jesus, incluindo profecias de que ele viria, profecias sobre quem ele seria, bem como, circunstâncias em torno de seu nascimento e o que ele faria durante sua vida. Um bom mineiro diria: “é profecias demais da conta sô”. E Jesus tinha plena consciência disso, veja o que Ele disse pouco minutos antes de Sua ascensão: “Eis o que eu lhes disse quando ainda estava com vocês: era necessário que se cumprisse tudo o que está escrito a meu respeito na Lei de Moisés, nos Profetas e nos Salmos” (Lucas 24.44).

            O livro do Profeta Isaías é considerado por grandes comentaristas bíblicos como o “Evangelho do Antigo Testamento”, pois ele vivendo 700 anos antes dos acontecimentos narrados pelos evangelistas já anunciava muitos detalhes do nascimento, ministério, morte e ressurreição de Jesus Cristo.

            Vamos aproveitar para examinarmos um dos textos mais lindos e citados de Isaías, neste período natalino, pelo prisma dos grandes comentaristas bíblicos do inicio da era cristã até os dias atuais. Junto com eles vamos celebrar o nascimento de Jesus Cristo o Salvador.

I S A Í A S  7.14

Por isso o Senhor mesmo lhes dará um sinal: a virgem ficará grávida e dará à luz um filho, e o chamará Emanuel.

[Nova Versão Internacional]

Por isso, Deus vai dar um sinal - quer vocês queiram, quer não. Uma virgem terá um filho! E ela; chamará o nenê de Emanuel (que significa "Deus está conosco").

[Bíblia na Linguagem de Hoje]

Portanto o Senhor mesmo vos dará um sinal: eis que uma virgem conceberá, e dará à luz um filho, e será o seu nome Emanuel.

[Almeida Revisada]

Comentário de Calvino sobre a Bíblia – Isaías 7.14

Portanto, o próprio Senhor vos dará um sinal. Acaz já havia recusado o sinal que o Senhor lhe ofereceu, quando o Profeta protestou contra sua rebelião e ingratidão; no entanto, o Profeta declara que isso não impedirá Deus de dar o sinal que havia prometido e designado para os judeus. Mas que sinal?

Eis que uma virgem conceberá. Esta passagem é obscura; mas a culpa recai em parte sobre os judeus, que, por muita objeção, trabalharam, tanto quanto estavam ao seu alcance, para perverter a verdadeira exposição. Eles são duramente pressionados por esta passagem; pois contém uma previsão ilustre sobre o Messias, que aqui é chamado Emanuel; e, portanto, eles trabalharam, por todos os meios possíveis, para desvirtuar o significado do Profeta para outro sentido. Alguns alegam que a pessoa aqui mencionada é Ezequias; e outros, que é filho de Isaías.

Aqueles que aplicam esta passagem a Ezequias são excessivamente insolentes; pois ele deve ter sido um homem adulto quando Jerusalém foi sitiada. Assim, eles mostram que são grosseiramente ignorantes da história. Mas é uma justa recompensa de sua malícia, que Deus os cegou de maneira a serem privados de todo julgamento. Isso acontece nos dias atuais com os papistas, que muitas vezes se expõem ao ridículo por sua louca ânsia de perverter as Escrituras.

Quanto aos que pensam que era o filho de Isaías, é uma conjectura totalmente frívola; pois não lemos que um libertador seria levantado da semente de Isaías, que deveria ser chamado Emanuel; pois este título é ilustre demais para ser aplicado a qualquer homem.

Outros pensam, ou, pelo menos, (não querendo lutar com os judeus mais do que o necessário) admitem que o Profeta falou de alguma criança que nasceu naquela época, por quem, como por uma imagem obscura, Cristo foi prenunciado. Mas eles não apresentam argumentos fortes e não mostram quem era aquela criança, nem apresentam quaisquer provas. Agora, é certo, como já dissemos que esse nome Emanuel não poderia ser aplicado literalmente a um mero homem; e, portanto, não há dúvida de que o Profeta se referiu a Cristo.

Mas todos os escritores, tanto gregos quanto latinos, se sentem à vontade em lidar com essa passagem; pois, como se não houvesse dificuldade, eles meramente afirmam que Cristo é aqui prometido pela Virgem Maria. Agora, não há pouca dificuldade na objeção que os judeus fazem contra nós, que Cristo é aqui mencionado sem motivo suficiente; pois assim argumentam e exigem que o escopo da passagem seja examinado: “Jerusalém foi sitiada. O Profeta estava prestes a dar um sinal de libertação. Por que ele deveria prometer ao Messias, que nasceria quinhentos anos depois? ” Por esse argumento, eles pensam que obtiveram a vitória, porque a promessa a respeito de Cristo não tinha nada a ver com assegurar a Acaz a libertação de Jerusalém. E então eles se gabam como se tivessem ganho o dia, principalmente porque dificilmente alguém lhes responde. Essa é a razão pela qual eu disse que os comentaristas ficaram muito à vontade nesse assunto; pois não é de pouca importância mostrar por que o Redentor é mencionado aqui.

Agora, o assunto está assim. Tendo o rei Acaz rejeitado o sinal que Deus lhe havia oferecido, o Profeta o lembra do fundamento da aliança, que nem mesmo os ímpios se aventuraram a rejeitar abertamente. O Messias deve nascer; e isso era esperado por todos, porque a salvação de toda a nação dependia disso. O Profeta, portanto, depois de ter expressado sua indignação contra o rei, novamente argumenta desta maneira: “Ao rejeitar a promessa, você tentaria anular o decreto de Deus; mas permanecerá inviolável, e tua traição e ingratidão não impedirão que Deus seja continuamente o Libertador de seu povo; pois ele finalmente levantará seu Messias”.

Para tornar essas coisas mais claras, devemos atender ao costume dos Profetas, que, ao estabelecer promessas especiais, estabelecem como fundamento que Deus enviará um Redentor. Sobre esse fundamento geral, Deus em todos os lugares constrói todas as promessas especiais que ele faz ao seu povo; e certamente todo aquele que espera ajuda e assistência dele deve estar convencido de seu amor paterno. E como ele poderia ser reconciliado conosco senão por meio de Cristo, em quem ele livremente adotou os eleitos e continua a perdoá-los até o fim? Daí vem aquele ditado de Paulo, que todas as promessas de Deus em Cristo são Sim e Amém (2 Coríntios 1:20).

Sempre que, portanto, Deus ajudou seu povo antigo, ele ao mesmo tempo os reconciliou consigo mesmo por meio de Cristo; e, portanto, sempre que fome, pestilência e guerra são mencionadas, a fim de manter uma esperança de libertação, ele coloca o Messias diante de seus olhos. Sendo isso extremamente claro, os judeus não têm o direito de fazer barulho, como se o Profeta tivesse feito uma transição fora de época para um assunto muito remoto. Pois de que dependia a libertação de Jerusalém, senão da manifestação de Cristo? Este foi, de fato, o único fundamento sobre o qual sempre descansou a salvação da Igreja.

Mais apropriadamente, portanto, Isaías disse: “É verdade que você não acredita nas promessas de Deus, mas Deus as cumprirá; pois ele finalmente enviará seu Cristo, por quem ele determina preservar esta cidade. Embora você seja indigno, Deus terá consideração por sua própria honra. O rei Acaz é, portanto, privado daquele sinal que anteriormente rejeitou e perde o benefício do qual provou ser indigno; mas ainda assim a promessa inviolável de Deus ainda é oferecida a ele. Isso é claramente sugerido pela partícula לכן, ( lachen ,) portanto; isto é, porque você desdenha aquele sinal particular que Deus ofereceu a você, הוא, (hu) Ele, isto é, o próprio Deus, que foi tão gracioso a ponto de oferecê-lo livremente a ti, aquele a quem tu mais cansas não deixará de oferecer um sinal . Quando digo que a vinda de Cristo é prometida a Acaz, não quero dizer que Deus o inclua entre o povo escolhido, a quem designou seu Filho para ser o Autor da salvação; mas porque o discurso é dirigido a todo o corpo do povo.

Dara um sinal a você. A palavra לכם, (lachem) para você, é interpretado por alguns como significando para seus filhos; mas isso é forçado. No que diz respeito às pessoas abordadas, o Profeta deixa o rei perverso e olha para a nação, na medida em que foi adotada por Deus. Ele, portanto, dará, não a ti um rei perverso, e àqueles que são como ti, mas a ti a quem ele adotou; pois a aliança que ele fez com Abraão continua firme e inviolável. E o Senhor sempre tem algum remanescente a quem pertence a vantagem da aliança; embora os governantes e governadores de seu povo possam ser hipócritas.

Eis que uma virgem conceberá. A palavra Eis é usada enfaticamente, para denotar a grandeza do evento; pois esta é a maneira pela qual o Espírito geralmente fala de grandes e notáveis ​​eventos, a fim de elevar a mente dos homens. O Profeta, portanto, ordena que seus ouvintes estejam atentos e considerem esta extraordinária obra de Deus; como se ele tivesse dito: “Não seja preguiçoso, mas considere esta graça singular de Deus, que deveria ter chamado sua atenção, mas está escondida de você por causa de sua estupidez”.

Embora a palavra עלמה, (gnalmah) uma virgem, é derivado de עלם, (gnalam) que significa para ocultar, porque a vergonha e modéstia das virgens não permite que apareçam em público; no entanto, como os judeus discutem muito sobre essa palavra e afirmam que ela não significa virgem, porque Salomão a usou para denotar uma jovem que estava noiva, é desnecessário discutir sobre a palavra. Embora devamos admitir o que eles dizem que עלמה (gnalmah) às vezes denota uma jovem, e que o nome se refere como eles o fariam, à idade (embora seja frequentemente usado nas Escrituras quando o assunto se refere a uma virgem ), a natureza do caso refuta suficientemente todos suas calúnias. Pois que coisa maravilhosa o Profeta disse, se ele falou de uma jovem que concebeu por meio de relações sexuais com um homem? Certamente teria sido absurdo apresentar isso como um sinal ou um milagre. Suponhamos que denota uma jovem que deve engravidar no curso normal da natureza; todo mundo vê que teria sido tolo e desprezível para o Profeta, depois de dizer que estava prestes a falar de algo estranho e incomum, acrescentar: Uma jovem mulher deve conceber. É, portanto, bastante claro que ele fala de uma virgem que deveria conceber, não pelo curso normal da natureza, mas pela graciosa influência do Espírito Santo. E este é o mistério que Paulo descreve em termos grandiosos, que Deus foi manifestado na carne (1 Timóteo 3.16).

E deve chamar. O verbo hebraico está no gênero feminino, Ela chamará; pois quanto aos que o leem no gênero masculino, não sei em que [base] acharam a opinião deles. As cópias que usamos certamente não diferem. Se você aplicá-lo à mãe, certamente expressa algo diferente do costume comum. Sabemos que ao pai é sempre atribuído o direito de dar nome ao filho; pois é um sinal do poder e autoridade dos pais sobre os filhos; e a mesma autoridade não pertence às mulheres. Mas aqui é transmitido à mãe; e, portanto, segue-se que ele é concebido pela mãe de maneira a não ter pai na terra; caso contrário, o Profeta perverteria o costume comum das Escrituras, que atribui esse cargo apenas aos homens. No entanto, deve-se observar que o nome não foi dado a Cristo por sugestão de sua mãe e, nesse caso, não teria peso; mas o Profeta quer dizer que, ao publicar o nome, a virgem ocupará o lugar de um arauto, porque não haverá pai terreno para desempenhar esse ofício.

Emanuel. Este nome foi inquestionavelmente concedido a Cristo por causa do fato real; pois o Filho unigênito de Deus se vestiu de nossa carne e se uniu a nós participando de nossa natureza. Ele é, portanto, chamado de Deus conosco, ou unido a nós; que não pode se aplicar a um homem que não é Deus. Os judeus em seus sofismas nos dizem que esse nome foi dado a Ezequias; porque pela mão de Ezequias Deus livrou o seu povo; e acrescentam: “Aquele que é servo de Deus representa sua pessoa”. Mas nem Moisés nem Josué, que foram os libertadores da nação, foram assim denominados; e, portanto, este Emanuel é preferido a Moisés e Josué, e todos os outros; pois por este nome ele supera todos os que já existiram antes e todos os que virão depois dele; e é um título expressivo de alguma excelência extraordinária e autoridade que ele possui acima dos outros. Portanto, é evidente que denota não apenas o poder de Deus, como ele geralmente exibe por seu servo, mas uma união de pessoas, pela qual Cristo se tornou Deus-homem. Portanto, também é evidente que Isaías aqui não relata nenhum evento comum, mas aponta aquele mistério incomparável que os judeus trabalham em vão para ocultar.

João Calvino[1]

 

Utilização livre desde que citando a fonte
Guedes, Ivan Pereira
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Referência Bibliográfica
CALVINO, João. Comentário Bíblico João Calvino: Antigo Testamento parte 1 [Gênesis Exôdo Levítico Números Deuteronômio Josué Salmos Isaías]. Tradução Valdenilson Araujo.  Formato: eBook Kindle.
CALVIN, John. Commentary on the book of the prophet Isaiah. Translated from the original latin by the Rev. William Pringle. Volume First. Christian Classics Ethereal Library, Grand Rapids, MI. http://www.ccel.org

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Natal: Entre o Natal e a Páscoa há uma Cruz
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[1] João Calvino tem sido reconhecido com um dos maiores expositor bíblico à partir da Reforma Protestante até os dias de hoje. Muitos de seus comentários bíblicos podem ser encontrados em português e para todos aqueles que desejam usufruir de excelentes comentários bíblicos, com exegese e hermenêutica confiável torna-se indispensável lê-los.  


domingo, 13 de novembro de 2022

Evangelho João – Peculiaridades em Relação aos Sinóticos


 

            O quarto Evangelho trás alguns aspectos que lhe são específicos: no aspecto geográfico e cronológico, no conteúdo narrativo, na seleção dos ensinamentos e no perfil de Cristo. Ele preenche perfeitamente o mosaico formado pelas outras três narrativas. Trata-se de uma diversidade de forma e não de substância, onde o evangelista apresenta perspectivas próprias, assim como uma abordagem teológica distinta em relação aos outros três companheiros literários.

O fato de ter sido escrito muito tempo depois dos outros três deu ao quarto escritor a oportunidade de preencher diversas lacunas e de apresentar Jesus e seu ministério por uma perspectiva mais pessoal e intima. Um exemplo são as narrativas da paixão em que o quarto evangelista dedica praticamente metade de sua narrativa e levando seus leitores para compartilhar da intimidade de Jesus e seus discípulos na semana derradeira antes da cruz.

            Em nenhum momento o quarto evangelho contradiz os sinóticos, mas tão somente os complementam. Isso é possível pelo fato de que o quarto evangelista tinha conhecimento das narrativas anteriores, se não as três ao menos uma delas.

Quadro Geográfico e Cronológico

O evangelista João inicia sua narrativa na região da Galileia registrando alguns milagres como as bodas na vila de Caná, assim como uma multiplicação dos pães e os peixes nas proximidades de Cafarnaum.  No entanto, é na Judeia e em Jerusalém que veremos Jesus atuando mais intensamente, como a cura do paralítico à beira do tanque de Betesda, do cego de nascença, bem como a ressurreição de Lázaro. Também os discursos de Cristo são pronunciados nos átrios do Templo ou no Cenáculo.

Em vez disso, nos Sinóticos o ministério de Cristo se desenvolve na região da Galileia e tendo a cidade de Cafarnaum como o foco radial da atividade de Jesus.

Quanto à cronologia da atividade pública do Senhor, os três primeiros relatam apenas uma única Páscoa em que Jesus sobe a Jerusalém e ali se desenvolve os acontecimentos derradeiros com sua morte na cruz e sua ressurreição. Enquanto na narrativa joanina temos referência de pelo menos três festas pascais (2.23; 6.4; 12.1), o que implica três anos de ministério. Por outro lado, segundo Mateus, Jesus começa seu ministério depois da prisão de João Batista (Mt 4, 2). Na narrativa joanina Jesus inicia seu ministério concomitantemente com os últimos dias do ministério do Batista (Jo 3,2).

Conteúdo narrativo

Dos vinte e nove milagres narrado pelos Sinóticos, apenas dois aparecem no quarto Evangelho, a multiplicação dos pães e dos peixes, e a caminhada de Jesus sobre as águas no Lago da Galileia, entretanto registra outros cinco milagres não citados pelos sinóticos: 2.1-11 (Caná); 4.46-54 (filho do oficial do rei); 5.1-9 (paralitico no poço de Betesda); 9.1-7 (cego de nascença); 11.33-34 (ressurreição de Lázaro).

A maior parte de perícopes dos três primeiros evangelhos não tem paralelo no quarto, ainda que elas sejam tão importantes quanto a Transfiguração e a Instituição da Ceia. Por outro lado, quando ele descreve o mesmo relato o faz de uma perspectiva distinta. Por exemplo, a instituição da Ceia em que os sinóticos trazem apenas o pequeno recorte do momento em que Jesus a institui oficialmente como símbolo de sua morte e ressurreição, enquanto que João nos fornece toda a cena e os acontecimentos que transcorreram durante toda aquela noite, antes, durante e depois da refeição da Páscoa.

Perícopes curtas são abundantes nos sinóticos sendo agrupadas de forma livre e os interlocutores são os mais diversos possíveis. Jesus dirige-se aos fariseus, saduceus, escribas e às multidões da Galileia, usando uma linguagem popular vivida e repleta de imagens comuns da região. No quarto evangelho os discursos são mais longos e em linguagem mais abstrata e conceitual; os diálogos frequentemente são transformados em monólogos onde Jesus expõe as verdades espirituais do Seu Evangelho.

Quanto aos interlocutores, ao contrário dos Sinóticos, no quarto Evangelho muitas vezes encontramos um personagem específico, ou um pequeno grupo. Como por exemplo, quando Jesus fala do nascimento e/ou nova criação com Nicodemos, ou da água viva com a mulher samaritana e do Pão da Vida na sinagoga de Cafarnaum.

Temas e a Figura de Jesus

            Neste quarto evangelho o tema do Reino de Deus é referido apenas no dialogo de Jesus com Nicodemos um chefe de Sinagoga (3.3-4), enquanto nos sinóticos, especialmente em Mateus, a menção é recorrente. No dialogo de Jesus com Pilatos a expressão refere-se ao Reino de Cristo o que neste caso há uma familiaridade com os relatos paralelos, mas o material joanino nos oferece mais denso e rico material (cf. Jo 18.33-38; Mt 27.11 e paralelos).  Nos primeiros evangelhos encontramos diversas referências há vários mandamentos que identifica se ajusta perfeitamente ao contexto judaico e que posteriormente refletira nas comunidades judaico-cristãs que versam sobre pureza ritual, observância do jejum e do sábado, das esmolas e como fazê-lo. Encontramos também numerosos preceitos referentes à oração, a confiança, pobreza, castidade, obediência, etc. João não minimiza o valor intrínseco dos mandamentos, mas enfatiza que todos eles estão sintetizados no amor, pois quem ama a Cristo são aqueles que verdadeiramente guardam os seus mandamentos.  (cf. Jo 14.15-21; 15.10-14). Paralelamente ao amor, outro ponto fundamental que permeia a narrativa joanina é a fé, estabelecendo desta forma os dois pilares da vida cristã.

João oferece aos seus leitores uma nova perspectiva da figura de Jesus em relação aos demais evangelistas, o que não significa que seja outra pessoa, mas simplesmente que ele é descrito por ângulos diferentes assim como sua forma de ensinar. Suas palavras são revestidas de certo mistério, seus monólogos mais longos, sua forma de ensinar é mais conceitual, seus temas adquire uma dimensão maior, sua aceitação da Cruz mais sereno e sua divindade fica mais evidenciada.  

Essas semelhanças e diferenças, e outras que podem ser encontradas tem estabelecido uma rede de criticas que geram aceitação ou rejeição da autenticidade dos relatos evangélicos.

A chamada crítica racionalista produzida a partir do Iluminismo gerado nas entranhas da Idade Média questionou e depois evoluiu para uma total negação a todos os relatos do sobrenatural e a possibilidade de milagres, esvaziando as narrativas evangélicas da vivacidade e beleza que apresenta-nos a figura humana e divina do Salvador. É por esta razão que particularmente este quarto evangelho, bem como os demais escritos evangélicos tem sido esmiuçados e desacreditados. As palavras de Ambrósio (340-397 D.C.) ainda ressoam como que pronunciados nos dias atuais: “nenhum homem jamais contemplou a majestade de Deus com tão sublime conhecimento de sua sabedoria, nem Ele deu a conhecer com palavras tão elevadas como as deste apóstolo[1].

Todos aqueles críticos que enaltecem quaisquer características deste evangelho, mas negam seu valor histórico corroem os fundamentos desta literatura, bem como de toda a Escritura bíblica.

 

Utilização livre desde que citando a fonte
Guedes, Ivan Pereira
Mestre em Ciências da Religião.
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NT - Evangelho de João: Autoria

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NT – Evidências Literárias do Desenvolvimento do Cânon

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Referências Bíblicas

BARCLAY, William. El Nuevo Testamento, v. 5. Buenos Aires: La Aurora, 1974.

BONNET, Luis y SCHROEDER, Alfredo. Comentário del Nuevo Testamento. Buenos Aires: La Aurora, 1974. [v. 5].

CARSON, D. A. Introdução ao Novo Testamento. São Paulo: Ed. Vida Nova, 2001.

GARCIA-MORENO, Antonio. El Evangelio Segun San Juan – introduccion y exgesis. Badajoz-Pamplona, 1996.

HENDRIKSEN, William. Comentário do Novo Testamento – João. São Paulo: Ed. Cultura Cristã, 2004. [v.1,].

HULL, W. E. Comentário bíblico Broadman, v. 9. Rio de Janeiro: JUERP, 1983.

MCARTHUR, John. Comentário Macarthur del Nuevo Testamento – Juan. Epanha: Kregel, 2011.

MICHAELS, J. Ramsey. Novo Comentário Bíblico Contemporâneo – João. São Paulo: Vida, 1994.

PACK, Frank. O Evangelho Segundo João. São Paulo: Vida Cristã, 1983.

TENNEY, Merrill C. O Novo Testamento – sua origem e análise. 2ª ed. São Paulo: Vida Nova, 1972.

 

 

 

 



[1] Citado por G.Chastand, p.347. [l'apótre lean et le /Ve Evangile, París 1888].

sábado, 5 de novembro de 2022

VERBETE VT: Torah (תּוֹרָה)

 

Tornou-se popular usar o termo “Lei” para traduzir a palavra hebraica “Torah” (תּוֹרָה), seguindo a tradução Septuaginta (LXX) grega, o que na verdade tornou-se uma forma reducionista do seu significado mais amplo e rico.

O termo hebraico deriva-se da raiz hebraica homônima “y-r-h”. Esta raiz significa “ensinar” ou “atirar (uma flecha)”, uma referência àquilo que “atinge o alvo”. Os israelitas-judeus desde muito cedo passou a utilizar o termo “Torá” para referir-se ao conjunto dos cinco primeiros livros da Bíblia Hebraica: Gênesis, Êxodo, Levítico, Números e Deuteronômio, em período posteriormente acabaram por englobarem todas as literaturas veterotestamentária. Esses livros também são chamados de “Os Cinco Livros de Moisés” ou “Pentateuco” [penta (cinco) teuchoi (livros)]. No início do primeiro milênio da era comum, à medida que novas formas de se confeccionar folhas mais finas de pergaminhos foram desenvolvidas esses cincos livros passaram a ser reunidos em um único Rolo (que facilitava a leitura e a preservação destas literaturas).

As tradições judaica e cristã veem os livros de Gênesis a Deuteronômio nesta ordem como uma única unidade literária. A unanimidade da tradição e a colocação inicial desses cinco livros refletem seu lugar significativo na vida religiosa. No judaísmo, a Torá tornou-se o coração da fé e da vida cotidiana dos judeus aonde quer que eles fossem viver. Esta relevância pode ser visto na forma com que esses livros são reverenciados: o Rolo da Torah é guardado em uma arca ou armário estrategicamente à frente da Sinagoga (lembrando a posição dos púlpitos evangélicos), e quando a arca é aberta, a congregação fica de pé; além disso, apenas o texto da Torá é lido em sua totalidade no transcorrer do ano judaico; isso não ocorre com as demais partes do cânon hebraico.

Um autêntico Rolo de Torá é uma obra prima de arte. Compreende 62 a 84 folhas de pergaminho curado, curtido, raspado e preparado para cumprir exatamente as especificações estabelecidas, contendo precisamente 79.847 palavras e 304.805 letras. Um Rolo leva de seis a doze meses para ser completado. Cada letra é rigorosamente escrita à tinta com uma pena sob as estritas orientações caligráficas. A maioria dos Rolos de Torá tem cerca de 60 cm de altura e pesa pelo menos 10 quilos, mas há também alguns Rolos menores e mais leves, pois utilizam letras mais compactas.

Escrever um Rolo de Torá é um dever de todo judeu adulto do sexo masculino. Entretanto, a maioria não tem tempo nem paciência e devoção nem o conhecimento das inúmeras regras (uma centena) de leis judaicas, envolvidas na escrita de um Rolo da Torah. Diante destas limitações os judeus mais abastados contratam um Escriba para escrever um Rolo completo, mas como o custo é alto formam-se grupos que dividem o valor para a elaboração de um novo Rolo.

Para que esta leitura pública da Torah seja realizada, precisam estar presentes no mínimo dez homens (o mesmo critério exigido para a formação de uma Sinagoga); sua leitura anual é feita em cinquenta e quatro porções. Há cada Sábado lê-se uma porção diferente, relembrando anualmente a história bíblica do povo judeu desde a criação do mundo até a morte de Moisés e a entrada na “Terra Prometida”. Desta forma todos os judeus leem o mesmo texto, no mesmo dia.

As cinco partes que constituem a Torah são nomeadas de acordo com a primeira palavra de seu texto, e são assim chamadas:

            בראשית, Bereshit – No princípio ou Gênesis.

            שמות, Shemot – Os nomes ou Êxodo.

            ויקרא, Vaicrá – E chamou ou Levítico.

            במדבר, Bamidbar– No deserto ou Números.

            דברים, Devarim – Palavras ou Deuteronômio.

A Torah tem uma influência ampla e profunda nas literaturas neotestamentária conforme pode ser visto nas estatísticas da vigésima oitava edição do Nestle-Aland Novum Testamentum Graecae (NA28) como base de comparação: Gênesis cerca de 236 citações ou alusões, tendo o livro de Atos  como o maior usuário); Êxodo cerca de 239 citações, alusões; Levítico cerca de 87 citações, alusões; Números cerca de 89 citações, alusões; e Deuteronômio com 205 citações, alusões, perfazendo em torno de 856 referências das literaturas da Torah no cânon neotestamentário. O total geral, então, é de 856 usos do Pentateuco no NT. Compare isso com os mais de 600 usos de Isaías somente no NT, ou os 300 ou mais usos dos Salmos. Claramente, Gênesis, Êxodo e Deuteronômio foram especialmente importantes para os escritores do NT, mas um dos versos mais citado direta e frequentemente vem de Levítico 19.18 o mandamento do amor, citado por Jesus quando questionado sobre o maior dos mandamentos.

 

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Guedes, Ivan Pereira

Mestre em Ciências da Religião.

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