O escritor do Apocalipse opta por utilizar o contraste como recurso literário para transmitir sua mensagem. Desta forma, tornam-se instrumentos teológicos e pastorais, realçando a realidade espiritual por trás da História, enfatizando a vitória de Cristo e exortando os leitores a uma decisão clara de fé e esperança.
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Tema |
Contraste |
Referência Bíblica |
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Noiva vs Prostituta |
A noiva pura e fiel ao
Cordeiro vs a prostituta corrupta e enganadora |
Ap 19:7-8; Ap 17:1-6 |
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Destino dos adoradores |
Os que adoram
a besta: tormento eterno vs os que adoram a Deus: reinado eterno |
Ap 14:9-11;
Ap 22:3-5 |
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Besta vs Cordeiro |
A besta: poder maligno
vs o Cordeiro: sacrifício e vitória |
Ap 13:1-8; Ap 5:6-10 |
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Milagres |
Falsos
milagres do falso profeta vs milagres autênticos das duas testemunhas |
Ap 13:13-14;
Ap 11:3-6 |
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Cidades |
Nova Jerusalém vs
Babilônia |
Ap 21:2-3; Ap 18:2, 21 |
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Jesus vs Besta |
Jesus: “é,
era e será” vs a besta: “foi, não é, virá do Abismo” |
Ap 1:8; Ap
17:8 |
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Vida vs Morte |
Segunda morte vs coroa
da vida |
Ap 20:14; Ap 2:10 |
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Marcas nas frontes |
Marca da
besta vs nomes do Cordeiro e do Pai |
Ap 13:16-17;
Ap 14:1 |
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Música e Luz |
Babilônia: sem harpas,
sem luz vs Redimidos: harpas no céu; Nova Jerusalém: Cordeiro é o Luzeiro |
Ap 18:22-23; Ap 15:2;
Ap 21:23 |
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Vozes |
Babilônia:
nunca ouvirá noiva e noivo vs Nova Jerusalém: noiva entoando cântico eterno |
Ap 18:23; Ap
19:6-7 |
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Covardes vs Vencedores |
Covardes: lago de fogo
vs Vencedores: água da vida |
Ap 21:8; Ap 21:6-7 |
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Serviço vs Acusação |
Servos de
Deus: servem dia e noite vs Diabo: acusa dia e noite |
Ap 7:15; Ap
12:10 |
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Feridas |
Cordeiro: como morto,
mas vivo vs Besta: ferida mortal, mas enganosa |
Ap 5:6; Ap 13:3 |
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Descanso |
Os que não
têm descanso vs os que descansam de seus labores |
Ap 14:11; Ap
14:13 |
Por que o Apocalipse usa tantos contrastes?
O escritor tem como propósito intensificar a mensagem central:
revelar a vitória definitiva de Cristo sobre o mal e fortalecer a fé dos
crentes em meio às perseguições. Essa técnica literária não é apenas estética,
mas pedagógica e pastoral, ajudando os leitores a perceberem claramente a
diferença entre o caminho da fidelidade e o da rebeldia.
É preciso termos em mente que o livro do Apocalipse é estruturado a
partir de oposições intensas e deliberadas. Luz e trevas, Cristo e o Dragão, a
Noiva e a Prostituta, a Nova Jerusalém e Babilônia, o selo de Deus e a marca da
besta — desta forma, esses contrastes deixam de ser meros recursos retóricos e
passam a se constituir em elementos integrantes do gênero apocalíptico (cf.
Daniel 7–12). Revelam, ainda, a intenção pastoral do autor, pois o livro não é
escrito para místicos ou evoluídos espirituais, mas para pessoas comuns que
estavam depositando sua confiança e esperança na mensagem de Cristo como
Salvador e Senhor.
Lembrando também que o contexto histórico, no final do primeiro
século, era de acentuada e crescente perseguição contra os cristãos. De maneira
que a linguagem de contraste cumpre uma função pedagógico-hermenêutica:
O que se vê (opressão, poder imperial, martírio)
não
corresponde ao que é (o Cordeiro reina, o trono está ocupado).
Desta forma, o escritor revela uma realidade invisível por meio de
imagens contrastivas, ensinando que a História possui dois níveis simultâneos:
o aparente (a realidade que se vê)
e o escatológico
(a realidade que se espera).
Um exemplo é o capítulo 5 — o Cordeiro que foi morto
(realidade histórica-presente) é o Leão vitorioso e que reina (realidade
escatológica-futuro). Assim sendo, por trás do visível, há uma dimensão
escatológica que já está inaugurada em Cristo e que se consumará no futuro.
Os contrastes que se utilizam nessa estrutura — juízo e redenção,
conflito e descanso, perseguição e glória — ajudam o leitor cristão a
interpretar corretamente a sua própria dinâmica de vida. Desta forma, o
Apocalipse ensina que viver entre a primeira e a segunda vinda de
Cristo é habitar nessa fronteira: já pertencemos ao Reino, mas ainda
enfrentamos oposição; já cantamos o cântico da vitória, mas ainda
caminhamos pelo vale.
O Salmo 23 traz essa mesma tensão com notável clareza poética. O
salmista fala, no presente, de descanso, provisão e cuidado — pastos
verdejantes e águas tranquilas — e, ao mesmo tempo, reconhece que o caminho do
justo inclui a travessia do vale da sombra da morte. Não há contradição, mas
coexistência.
Por esta perspectiva, o Salmo 23 funciona como uma partitura
pastoral da grande sinfonia apocalíptica: ambos revelam que, por trás da
realidade visível, há uma dimensão invisível de cuidado e vitória em Cristo.
Essa verdade paradoxal nos ensina a perseverar. Quando tudo parece
se repetir — dores, lutas, perdas — o Apocalipse nos lembra que a esperança
também se repete, se aprofunda e se fortalece. Essa simetria do livro é um
convite permanente, em todos os tempos e circunstâncias, à confiança: o mesmo
Cristo que caminha com a igreja hoje é aquele que virá para consumar todas as
coisas. E essa certeza sustenta a fé até o fim.
Nos próximos artigos desta série sobre os contrastes no livro do
Apocalipse, aprofundaremos a análise de cada um, destacando o tema central, o
conteúdo em sua estrutura literária e indicando implicações práticas para a
vida cristã.
Utilização livre desde que citando a fonte
Guedes, Ivan Pereira
Mestre em Ciências da Religião.
me.ivanguedes@gmail.com
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Referências Bibliográficas
AUNE, David E. Revelation. Nashville Thomas
Nelson 1997. [Word Biblical Commentary].
BAUCKHAM, Richard. A Teologia do Livro de Apocalipse. São Paulo: HarperCollins
Brasil, 2022.
BEALE, G. K. Brado de Vitória: Uma
interpretação do Apocalipse. São Paulo: Cultura Cristã, 2017.
CAMPBELL, W. Gordon. Reading
Revelation: A Thematic Approach. Eugene Cascade Books, 2021.
OSBORNE, Grant R. Apocalipse:
Comentário Exegético. São Paulo: Vida Nova, 2014.
SCHREINER, Thomas R. Revelation. Grand Rapids Baker Academic,
2018 [Baker Exegetical Commentary on the New Testament].
TONSTAD, Sigve K. Revelation.
Grand Rapids Baker Academic, 2019. [Paideia Commentaries on the New Testament].
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