Introdução
Conta-se uma antiga história sobre quatro homens cegos que foram
convidados a descrever um elefante. O primeiro tocou a tromba e concluiu que o
animal era semelhante a uma serpente. O segundo apalpou uma das pernas e
afirmou que se parecia com uma coluna. O terceiro tocou a lateral do corpo e
declarou que era como uma parede. O quarto segurou a cauda e insistiu que o
elefante era parecido com uma corda.
Cada um estava parcialmente certo, mas nenhum possuía uma
compreensão completa da realidade. A limitação não estava no objeto observado,
mas na perspectiva de quem o observava.
De certa forma, algo semelhante aconteceu com as expectativas
messiânicas do judaísmo no período intertestamentário. Os diversos grupos
religiosos examinavam as mesmas Escrituras, criam nas mesmas promessas divinas
e aguardavam o mesmo Messias. Contudo, cada um enfatizava aspectos diferentes
da revelação bíblica.
Alguns esperavam um rei davídico que restauraria a soberania
nacional. Outros aguardavam um sacerdote purificador que renovaria o culto.
Havia aqueles que ansiavam por um mestre da Lei e outros que aguardavam uma
figura celestial associada ao juízo final e ao Reino de Deus.
Quando os Evangelhos se abrem com o anúncio do nascimento de Jesus,
a esperança pela chegada do Messias já ocupava um lugar central na fé judaica.
Entretanto, o judaísmo do primeiro século não possuía uma compreensão única
sobre quem seria esse Libertador prometido.
O longo período que separa Malaquias de João Batista foi marcado
por profundas transformações políticas, culturais e religiosas que
influenciaram a forma como os judeus interpretavam as Escrituras e aguardavam o
cumprimento das promessas divinas.
O chamado período intertestamentário, frequentemente descrito como
os “quatrocentos anos de silêncio”, foi tudo menos silencioso do ponto de vista
histórico. Israel experimentou sucessivas dominações estrangeiras, passando do
controle persa para o grego e, posteriormente, para o romano. Cada uma dessas
fases contribuiu para moldar a esperança messiânica do povo.
As profecias de Isaías, Jeremias, Ezequiel, Daniel e dos demais
profetas continuavam sendo lidas, estudadas e interpretadas. Contudo,
diferentes grupos religiosos enfatizavam aspectos distintos dessas promessas,
produzindo expectativas variadas acerca do futuro Libertador. Alguns aguardavam
um rei poderoso; outros, um sacerdote purificador; outros ainda, uma figura
celestial que inauguraria a era final da história.
Compreender essas diferentes expectativas é essencial para entender
não apenas o contexto do Novo Testamento, mas também as reações que Jesus
despertou durante Seu ministério.
O Contexto Histórico da Esperança Messiânica
A expectativa messiânica ganhou intensidade especialmente após as
crises enfrentadas pelo povo judeu durante o período helenístico. A tentativa
de impor a cultura grega à sociedade judaica gerou tensões profundas,
culminando na revolta dos Macabeus no século II a.C.
A resistência bem-sucedida contra Antíoco IV Epifânio fortaleceu
entre muitos judeus a esperança de que Deus levantaria novamente um libertador
para derrotar os inimigos da aliança. Ao mesmo tempo, a literatura apocalíptica
passou a exercer influência crescente, apresentando visões de juízo,
restauração e triunfo final do Reino de Deus.
Sob o domínio romano, essa esperança tornou-se ainda mais intensa.
A presença de tropas estrangeiras em Jerusalém, a cobrança de impostos e a
perda da autonomia política alimentavam o desejo por um novo Davi que
restaurasse a soberania de Israel.
Todavia, nem todos concordavam sobre a natureza dessa restauração.
Os Fariseus: O Messias da Fidelidade à Lei
Entre os fariseus, a esperança messiânica estava associada à
renovação espiritual da nação. Surgidos como defensores da identidade judaica
diante das influências estrangeiras, valorizavam profundamente a Lei de Moisés
e as tradições interpretativas desenvolvidas ao longo das gerações.
Esperavam um Messias descendente de Davi, justo e piedoso, que
conduzisse Israel de volta à plena obediência à Torá. Para eles, a verdadeira
restauração nacional dependeria, antes de tudo, da restauração espiritual do
povo.
Os fariseus também acreditavam na ressurreição dos mortos, na
existência dos anjos e no juízo futuro. Por isso, sua esperança messiânica
possuía forte dimensão escatológica, vinculando a chegada do Messias à
manifestação definitiva do Reino de Deus.
A libertação de Israel não seria apenas política; deveria ser
também moral e espiritual (KURTZ, 1857; SANDERS, 1992; GUEDES, 2019).
Os Saduceus: A Estabilidade Antes da Esperança
Os saduceus representavam principalmente a aristocracia sacerdotal
ligada ao Templo de Jerusalém. Sua posição privilegiada dentro da sociedade
judaica fazia com que valorizassem a estabilidade política e religiosa acima de
movimentos populares ou expectativas revolucionárias.
Diferentemente dos fariseus, aceitavam apenas a autoridade da Lei
escrita e rejeitavam doutrinas como a ressurreição dos mortos e muitas crenças
apocalípticas difundidas entre o povo.
Consequentemente, demonstravam pouco entusiasmo por expectativas
messiânicas. Um líder carismático que mobilizasse multidões poderia ameaçar
tanto sua posição quanto o delicado equilíbrio político mantido com Roma.
Embora reconhecessem as promessas bíblicas, sua esperança
messiânica era consideravelmente menos desenvolvida do que aquela encontrada
entre os demais grupos judaicos (KURTZ, 1860; SANDERS, 1992; GUEDES, 2016).
Os Essênios: A Esperança dos Filhos da Luz
Os essênios adotaram um caminho distinto. Convencidos de que o
sacerdócio de Jerusalém havia se corrompido, retiraram-se para comunidades
separadas, buscando uma vida marcada pela pureza ritual e pela dedicação às
Escrituras.
Os Manuscritos do Mar Morto revelam uma expectativa messiânica
singular. Muitos textos sugerem a espera por dois messias: um sacerdotal e
outro real. O primeiro restauraria o culto verdadeiro; o segundo governaria o
povo de Deus.
Além disso, a espiritualidade essênia era profundamente
apocalíptica. A história era vista como uma batalha entre os “filhos da luz” e
os “filhos das trevas”, culminando em uma intervenção decisiva de Deus.
Para os essênios, o Messias estava intimamente ligado ao juízo
vindouro e à purificação final do povo da aliança (VERMES, 1983; KURTZ, 1857).
Os Zelotes: O Messias Guerreiro
Nenhum grupo associou tão fortemente a esperança messiânica à
libertação política quanto os zelotes.
Movidos pelo nacionalismo e inspirados pela memória dos heróis
macabeus, acreditavam que Deus levantaria um líder capaz de expulsar os romanos
e restaurar a independência de Israel.
Sua leitura das promessas davídicas enfatizava o aspecto militar e
político do Reino de Deus. O Messias seria um rei guerreiro, escolhido por Deus
para derrotar os opressores e devolver a soberania à nação.
Essa expectativa encontrava eco em amplos setores da população,
especialmente entre aqueles que sofriam sob o peso da ocupação romana.
A esperança zelote não era apenas religiosa; era também
profundamente patriótica e revolucionária (VERMES, 1983; KURTZ, 1860; GUEDES,
2016).
Outras Correntes de Esperança Messiânica
Além desses grupos organizados, diversos escritos judaicos do
período apresentam expectativas messiânicas variadas. Algumas obras descrevem
um rei davídico restaurador; outras falam de uma figura celestial associada ao
“Filho do Homem” de Daniel 7; outras enfatizam o papel do Messias como juiz
escatológico.
Essa diversidade demonstra que o judaísmo do primeiro século estava
longe de ser monolítico. Existia uma expectativa comum de que Deus interviria
na história, mas não havia consenso sobre como isso ocorreria nem sobre quem
seria o agente dessa intervenção.
O Messias esperado assumia diferentes formas conforme a tradição
religiosa, a experiência histórica e as necessidades percebidas por cada grupo.
Conclusão
Ao chegar o primeiro século, a esperança messiânica encontrava-se
mais viva do que nunca. Fariseus, saduceus, essênios, zelotes e outros setores
da sociedade judaica aguardavam o cumprimento das promessas divinas, mas cada
um o fazia a partir de perspectivas distintas.
Como os homens cegos da antiga ilustração, todos tocavam aspectos
verdadeiros das promessas messiânicas, mas nenhum possuía uma visão completa do
quadro. Uns enfatizavam o Rei; outros, o Sacerdote; outros ainda, o Libertador
ou o Juiz escatológico.
Essa diversidade de expectativas ajuda a compreender por que o
ministério de Jesus provocou reações tão diferentes. Quando o Messias
finalmente apareceu, muitos tiveram dificuldade em reconhecê-lo precisamente
porque Ele não se encaixava perfeitamente em nenhuma das categorias previamente
estabelecidas.
A história do Novo Testamento mostrará que o Messias prometido era
maior do que todas as expectativas humanas. Nele convergiam todas as promessas,
imagens e esperanças cultivadas ao longo dos séculos.
Essa questão será o tema de nosso próximo estudo: como os
diversos grupos judaicos reagiram quando o Messias esperado entrou em cena.
Utilização livre desde que citando a fonte
Guedes, Ivan Pereira
Mestre em Ciências da Religião.
me.ivanguedes@gmail.com
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Historiologia Protestante
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Bibliografia
KURTZ, Johann Heinrich. Manual of Sacred History: A Guide to the
Understanding of the Divine Plan of Salvation According to Its Historical
Development. Philadelphia: Lindsay & Blakiston, 1857.
KURTZ, Johann Heinrich. History of the Christian Church to the
Reformation. Edinburgh: T. & T. Clark, 1860.
SANDERS, E. P. Judaism: Practice and Belief, 63 BCE–66 CE. London:
SCM Press, 1992.
VERMES, Geza. Jesus and the World of Judaism. London: SCM Press,
1983.
GUEDES, Ivan. Os Fariseus
https://reflexaoipg.blogspot.com/2019/04/contexto-religioso-da-palestina-judaica.html
GUEDES, Ivan. Os Saduceus
https://reflexaoipg.blogspot.com/2016/02/verbete-os-saduceus.html
GUEDES, Ivan. Os Zelotes
https://reflexaoipg.blogspot.com/2016/01/zelotes-movimento-radical-judaico.html

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