A doutrina dos anjos ocupa lugar significativo na revelação bíblica. Longe de serem simples símbolos religiosos ou figuras literárias, os anjos aparecem nas Escrituras como seres reais, criados por Deus e participantes ativos da história da redenção. A Bíblia os apresenta como integrantes do mundo invisível criado, subordinados inteiramente ao governo divino.
O apóstolo Paulo afirma em Colossenses 1:16:
“Nele foram criadas todas as coisas, nos céus e sobre a terra, as visíveis e as invisíveis, sejam tronos, sejam dominações, sejam principados, sejam potestades; tudo foi criado por meio dele e para ele.”
Essa declaração do apóstolo possui grande relevância na questão da angelologia. Primeiramente, o mundo invisível não existe de maneira independente e/ou autônoma, assim como em momento algum rivaliza com Deus. Os anjos são seres criados, assim como os seres humanos e a própria criação, e encontram em Cristo sua origem, propósito e sustentação.
O teólogo Moses Stuart, em um precioso estudo clássico sobre angelologia, observou que a Escritura fala dos seres angelicais com a mesma naturalidade e objetividade com que descreve outras realidades criadas. A Bíblia não se ocupa em provar a existência dos anjos; ela simplesmente a pressupõe. Do Gênesis ao Apocalipse, sua presença aparece integrada ao desenvolvimento da história bíblica.
Biblicamente os seres angelicais são uma realidade
A presença e atividade deles permeia amplamente a narrativa das Escrituras. Em Gênesis 18, mensageiros celestiais visitam Abraão e anunciam o nascimento de Isaque. Em Daniel 6, Deus envia um anjo para fechar a boca dos leões. Nos Evangelhos, os anjos surgem em momentos decisivos: anunciam o nascimento do Messias (Lucas 1:26–38), servem a Cristo após a tentação (Mateus 4:11), fortalecem-no no Getsêmani (Lucas 22:43) e proclamam sua ressurreição (Mateus 28:2–7).
É importante destacar que esses episódios não são apresentados como metáforas religiosas nem como linguagem meramente simbólica. Em seu estudo, Stuart argumenta que a consistência dos relatos angelicais em diferentes autores, épocas e contextos torna difícil reduzi-los a simples personificações literárias. O testemunho bíblico, em sua multiformidade, aponta para a realidade de seres pessoais.
Diversos intérpretes cristãos ao longo da história caminharam nessa mesma direção. João Calvino observou que Deus utiliza os anjos como ministros de sua providência, não porque necessite deles, mas porque deseja revelar aos seus filhos algo da riqueza de seu governo sobre a criação. A existência angelical, em hipótese alguma, minimiza a soberania divina; ao contrário, torna ainda mais admirável a forma como Deus age e governa sua criação.
A Escritura mantém equilíbrio notável ao tratar da questão angelical. Ela reconhece a atuação real dos anjos, mas evita curiosidade excessiva. O foco bíblico não está em satisfazer especulações sobre o mundo invisível, mas em conduzir o ser humano ao conhecimento de Deus. Os anjos aparecem quando essa presença serve ao propósito da revelação divina.
É extremamente oportuna essa observação nos dias atuais. Alguns reduzem os anjos a símbolos psicológicos ou construções religiosas; outros desenvolvem fascínio excessivo por hierarquias, nomes secretos e especulações que ultrapassam o que foi revelado. A genuína interpretação bíblica evita ambos os extremos.
Desta forma, ao reconhecermos a realidade dos anjos, somos fortalecidos em nossa confiança na soberania e providência divina. Também enfatiza que o universo não está limitado ao que os olhos podem perceber. Há uma dimensão invisível igualmente criada e sustentada por Deus. Contudo, os anjos não ocupam o centro da narrativa bíblica. Cristo ocupa.
Nos próximos módulos estaremos tratando sobre como a própria linguagem das Escrituras descreve o invisível, quais nomes são atribuídos aos anjos e de que maneira a Bíblia revela sua natureza e atuação.
Para Pensar
Se o mundo invisível é tão real quanto o visível, talvez nossa limitação não esteja na ausência de realidade, mas na limitação de nossa percepção. A Bíblia nos lembra que Deus governa dimensões que os olhos não alcançam.
Questões
(As respostas estão ocultas no final do texto.)
-
Os anjos são apresentados nas Escrituras como seres reais criados por Deus.
- (A) Verdadeiro
- (B) Falso
-
Segundo Colossenses 1:16, os seres invisíveis existem independentemente de Cristo.
- (A) Verdadeiro
- (B) Falso
-
A Bíblia apresenta os anjos como ministros subordinados ao governo divino.
- (A) Falso
- (B) Verdadeiro
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A Escritura evita transformar a doutrina dos anjos em objeto de especulação excessiva.
- (A) Verdadeiro
- (B) Falso
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Os anjos ocupam o centro da narrativa bíblica.
- (A) Verdadeiro
- (B) Falso
Utilização livre desde que citando a fonte
Guedes, Ivan Pereira
Mestre em Ciências da Religião.
me.ivanguedes@gmail.com
Outro Blog
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Bibliografia Básica
- STUART, Moses. Essay on the Angelology of the Scriptures. In: Bibliotheca Sacra, v. 1, n. 1, 1844, p. 75–102.
- CALVINO, João. Institutas da Religião Cristã. São Paulo: Cultura Cristã, 2006. Livro I, caps. 14–15.
- TURRETIN, Francis. Institutes of Elenctic Theology. Phillipsburg: P&R Publishing, 1992.
- BERKHOF, Louis. Systematic Theology. Grand Rapids: Eerdmans, 1996.
- HODGE, Charles. Systematic Theology. Peabody: Hendrickson, 2003.
- BAVINCK, Herman. Reformed Dogmatics. Grand Rapids: Baker Academic, 2004.
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