sábado, 19 de agosto de 2023

Jonas: O Chamado de Jonas 1:1-3 [O Deus de toda graça e misericórdia]

A centralidade teológica do chamado profético
Ao abordar o livro de Jonas, é necessário, inicialmente, deslocar a atenção do elemento extraordinário do “grande peixe”, a fim de permitir que o texto seja compreendido em sua ênfase teológica principal: a iniciativa soberana de Deus em chamar e enviar um profeta para proclamar uma mensagem de arrependimento. Sob essa perspectiva, a narrativa revela-se uma profunda exposição da graça e da misericórdia divinas. O livro demonstra que, após a queda da humanidade em Adão e Eva, todos os seres humanos passaram a compartilhar da mesma condição moral representada pelos habitantes de Nínive. Assim como aquela cidade era marcada pela violência, corrupção e perversidade, também toda a humanidade, por natureza, encontra-se alienada de Deus e sujeita ao seu justo juízo. Entretanto, a mensagem bíblica enfatiza que o mesmo Deus que julga é também aquele que toma a iniciativa de salvar, enviando sua Palavra como instrumento eficaz de arrependimento e redenção.
A iniciativa soberana de Deus e a responsabilidade humana
A expressão “Agora, a palavra do Senhor veio a Jonas, filho de Amitai” revela o caráter urgente e soberano do chamado divino. A missão profética não se origina na vontade humana, mas na decisão de Deus, que chama indivíduos específicos para o cumprimento de seus propósitos. O envio de Jonas à grande cidade de Nínive tinha como finalidade proclamar uma mensagem de confrontação, cujo objetivo era produzir arrependimento genuíno. Esse arrependimento não se limita a um sentimento superficial de remorso, mas implica uma transformação profunda da mente e da conduta. A afirmação divina de que “a sua maldade subiu até mim” evidencia a santidade absoluta de Deus e a seriedade do pecado humano diante dele.
A desobediência como fuga deliberada da vontade divina
Em contraste com a ordem recebida, Jonas escolhe deliberadamente fugir da presença do Senhor, dirigindo-se em direção oposta àquela que lhe havia sido designada. Sua descida a Jope e seu embarque rumo a Társis simbolizam não apenas um deslocamento geográfico, mas, sobretudo, um afastamento espiritual. Essa atitude revela a natureza consciente da desobediência humana, que frequentemente se manifesta como resistência à vontade divina quando esta confronta interesses pessoais ou limitações espirituais. Biblicamente, essa fuga representa o conflito fundamental entre obediência e rebelião, duas realidades mutuamente excludentes. Conforme o ensino de Jesus Cristo, o amor verdadeiro por Deus é evidenciado pela obediência à sua vontade, estabelecendo, assim, uma relação inseparável entre devoção e submissão.
O exclusivismo religioso e a distorção da graça
Jonas, como profeta de Israel, representa simbolicamente o próprio povo da aliança, que havia experimentado a graça divina, mas que, por vezes, demonstrava relutância em aceitar que essa mesma graça pudesse alcançar outros povos, raças e etnias. Essa postura revela o perigo do exclusivismo religioso e da presunção espiritual, nos quais o ser humano assume indevidamente o direito de determinar quem é digno da salvação. Nesse sentido, o livro de Jonas antecipa o caráter universal da missão divina, posteriormente desenvolvido de forma mais explícita no testemunho apostólico registrado em Atos dos Apóstolos, onde a mensagem do evangelho é proclamada a todos os povos, sem distinção.
A atualidade do chamado divino e suas implicações espirituais
A fuga de Jonas constitui, portanto, uma advertência permanente acerca das consequências da desobediência e, simultaneamente, uma poderosa afirmação da persistência da graça divina.
Deus não apenas chama, mas também age soberanamente para cumprir seus propósitos redentores, mesmo diante da resistência humana.
O texto é um convite a reconhecermos nossa própria responsabilidade diante do chamado divino, lembrando que a proclamação da mensagem de salvação não é opcional, mas parte integrante da vocação do povo de Deus. Assim, o livro de Jonas apresenta Deus como o Senhor da missão e da graça, cuja misericórdia ultrapassa fronteiras étnicas, culturais e espirituais, convocando todos à obediência e ao arrependimento.
 
Perguntas Para Reflexão
Pergunta 1. Quem toma a iniciativa na salvação e no chamado do homem?
Resposta: É Deus quem toma a iniciativa soberana de chamar, revelando sua Palavra e enviando seus servos segundo sua própria vontade e graça.
Referência bíblica: Veio a palavra do Senhor a Jonas, filho de Amitai, dizendo: Levanta-te, vai à grande cidade de Nínive.” (Jonas 1.1–2) “Não fostes vós que me escolhestes a mim; pelo contrário, eu vos escolhi a vós.” — João 15.16
Pergunta 2. Por que todos os homens necessitam da mensagem de arrependimento?
Resposta: Porque todos os homens são pecadores por natureza, estão debaixo do justo juízo de Deus e somente por sua graça podem ser conduzidos ao arrependimento e à vida.
Referência bíblica: “Porque a sua maldade subiu até mim.” (Jonas 1.2) “Pois todos pecaram e carecem da glória de Deus.” — Romanos 3.23
Pergunta 3. O que a fuga de Jonas nos ensina sobre o coração humano?
Resposta: Ensina que o homem, mesmo conhecendo a Deus, é inclinado à desobediência, revelando a corrupção do pecado e sua necessidade contínua da graça divina.
Referência bíblica: Jonas se levantou para fugir da presença do Senhor, para Társis.” (Jonas 1.3)
Enganoso é o coração, mais do que todas as coisas.” — Jeremias 17.9
Pergunta 4. Qual é o dever daqueles que foram chamados pela graça de Deus?
Resposta: Seu dever é obedecer à vontade de Deus, proclamando sua Palavra e vivendo em fidelidade, para a glória do seu nome.
Referência bíblica: Levanta-te e vai.” (Jonas 1.2) “Ide por todo o mundo e pregai o evangelho.” — Marcos 16.15
Pergunta 5. O que aprendemos sobre o caráter de Deus neste texto?
Resposta: Aprendemos que Deus é santo, justo e misericordioso, pois julga o pecado, mas também envia sua Palavra para salvar pecadores.
Referência bíblica: Vai à grande cidade de Nínive e clama contra ela.” (Jonas 1.2) “A salvação pertence ao Senhor.” (Jonas 2.9)

Utilização livre desde que citando a fonte
Guedes, Ivan Pereira
Mestre em Ciências da Religião.
me.ivanguedes@gmail.com
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Referências Bibliográficas
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CALVINO, João. Commentary on Jonah, Micah, Nahum. Trad. John Owen. Grand Rapids: Christian Classics Ethereal Library, 2004. Disponível em: https://www.ccel.org/ccel/calvin/calcom05 (ccel.org in Bing). 
KELLER, Timothy. El profeta pródigo: Jonás y el misterio de la misericordia de Dios. Nashville: B&H Publishing Group, 2019.
MORGAN, G. Campbell. The Minor Prophets. Westwood, 1960.
NOGALSKI, James D. The Book of the Twelve: Hosea–Jonah. Georgia: Smyth & Helwys Publishing, 2011. [The Smyth & Helwys Bible commentary, v. 18].
PHILLIPS, Richard D. Estudos bíblicos expositivos em Jonas e Miqueias. São Paulo: Editora Cultura Cristã, 2021.
SMITH, Gary V.; KLOUDA, Sheri L.; HILL, Andrew E.; LONGMAN III, Tremper; AUSTEL, Hermann J. Commentary on the Minor Prophets. In: BAKER PUBLISHING GROUP. The Baker Illustrated Bible Commentary. Grand Rapids: Baker Publishing Group, 2019.


 

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