segunda-feira, 4 de agosto de 2025

Comentário Devocional: Salmos 119.17-24 Letra Guímel (ג)

 

 


Estamos na terceira estrofe do Salmo 119 – que se inicia com a letra Guimel do alfabeto hebraico e abrange os versos 17 a 24.

O salmista começa sua nova estrofe poética, no verso 17, rogando a Deus que o trate com base no amor e generosidade Dele, e não nos méritos próprios do salmista: “Trata generosamente teu servo.”

Eu não rogo por nenhum mérito — apenas pela graça livre e rica misericórdia do Senhor. Para que eu possa viver — com segurança e provisão — e manter a tua palavra.   
Pois eu não desejo a Tua bondade (bênção) para satisfazer meus próprios desejos, mas para gastá-la em Teu serviço.

No verso 18 temos um pedido maravilhoso do salmista: “Abre os meus olhos.”

Ilumina minha mente com o Teu Espírito Santo, dissipando toda ignorância e erro. Para que eu possa ver — ver o quê? As coisas maravilhosas da tua lei.
Essas maravilhas são grandes e profundas expressões da sabedoria e bondade divinas, os mistérios de Cristo, a graça de Deus para a humanidade e o estado eterno — que não podem ser compreendidos pelos olhos físicos, mas apenas pelos olhos da fé.

No verso 19 ele declara que está apenas de passagem nesta terra, sente-se um forasteiro neste mundo. Um viajante que precisa dos mandamentos dEle para se orientar e não ficar perdido neste mundo tenebroso      
É preciso gastar um minuto a mais neste verso, pois muitas vezes perdemos completamente a consciência de que somos apenas FORASTEIROS NESTE MUNDO — estamos de passagem — viajando rumo ao nosso lar definitivo nos Céus.

O salmista tinha isso muito claro em sua mente e em seu coração — e ele sabia que, somente permanecendo firme no Caminho da Palavra de Deus, chegaria seguro ao seu verdadeiro lar.

Forasteiro sou no mundo

Neste mundo de ilusão

Para o céu vou caminhando

Onde os fiéis entrarão

(“Brilho Celeste” - Hinário Novo Cântico nº 114)

 

Verso 20 – Um dos melhores testes do caráter de alguém está nos seus anseios mais profundos e sinceros. O salmista anseia pela Palavra de Deus — por conhecê-la e sintonizar sua vida com o propósito divino.

Quais são os nossos anseios e o que move nosso coração é o que define nossa vida.

Verso 21 – O mal não prevalecerá e os maus prestarão contas a Deus.

“Tu condenas os orgulhosos, rebeldes e malditos, que transgridem deliberadamente os teus mandamentos.” A lista é longa — Caim, Faraó, Hamã, Nabucodonosor, Herodes... Deus os vê de longe.
Hoje em dia, os orgulhosos são chamados de felizes. Mas serão assim contados quando estiverem sob o juízo de Deus? “Quando o dia do Senhor vier sobre eles para abatê-los e queimá-los no forno da Sua ira...”

Verso 22 – “Livra-me do opróbrio e do desprezo, pois tenho observado os teus testemunhos.” Jesus disse aos seus discípulos, para animá-los: “No mundo tereis aflições (opróbrio e desprezo), mas tende bom ânimoEu venci!” NINGUÉM foi mais humilhado e desprezado do que Jesus — mas Ele voltará em Poder e Glória, e todo joelho se dobrará diante da Sua majestade, glória e soberania.

E um dos anciãos me falou, dizendo: Estes que estão vestidos de vestes brancas, quem são, e de onde vieram?  
E eu disse-lhe: Senhor, tu sabes. E ele disse-me: Estes são os que vieram da grande tribulação, lavaram as suas vestes e as branquearam no sangue do Cordeiro.
Por isso estão diante do trono de Deus, e o servem de dia e de noite no seu templo; e aquele que está assentado sobre o trono os cobrirá com a sua sombra.  
Nunca mais terão fome, nunca mais terão sede; nem sol, nem calor algum cairá sobre eles.   
Porque o Cordeiro que está no meio do trono os apascentará e lhes servirá de guia para as fontes vivas das águas; e Deus limpará de seus olhos toda lágrima. (Apocalipse capto 7.13-17)

 

Utilização livre desde que citando a fonte
Guedes, Ivan Pereira
Mestre em Ciências da Religião.
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Referências Bibliográficas

ARNOLD, Bill T.; BEYER, Bryan E. Descobrindo o Antigo Testamento. São Paulo: Cultura Cristã, 2001.

BAXTER, J. Sidlow. Examinai as Escrituras. v. 3. São Paulo: Vida Nova, 1993.

BRIDGES, Charles. An Exposition Of PSALM 119. grace-ebooks.com (eBook).

BULLOCK, C. Hassell. An Introduction to the Old Testament Poetic Books. Chicago: Moody Press, 1988.

CALVINO, João. O livro dos Salmos. Tradução de Valter Graciano Martins. São Paulo: Edições Parakletos, 2002.

CHOURAQUI, André. A Bíblia – Louvores II (Salmos). v. 2. Tradução de Paulo Neves. Rio de Janeiro: Imago, 1998. (Coleção Bereshit).

HARMAN, Allan M.  Comentários do Antigo Testamento - Salmos. Tradução Valter Graciano Martins. São Paulo: Cultura Cristã, 2011.

KIDNER, Derek. Salmos 73-150 – introdução e comentáriov. 14. São Paulo: Sociedade Vida Nova e Mundo Cristão, 1981. [Série Cultura Cristã].

MANTON, Thomas. An Exposition of Psalm 119. Monergism (eBook).

 

Sou Forasteiro Neste Mundo – Salmos 119

🌄 Sou Forasteiro Neste Mundo

Salmos 119.17–24 – Letra Guímel

1. Para que você tem pedido a graça de Deus?

"Trata generosamente teu servo..." (v.17)

2. Você está enxergando com olhos espirituais?

"Abre os meus olhos..." (v.18)

3. Você tem vivido como um forasteiro na terra?

"Sou forasteiro na terra..." (v.19)

4. O que os seus anseios revelam sobre você?

"Minha alma se consome de desejo..." (v.20)

Filemom: Uma Reflexão Pastoral sobre a Graça, Reconciliação e Serviço Cristão

 


“Paulo, prisioneiro de Cristo Jesus, e Timóteo, o irmão, a Filemom, o amado e nosso cooperador” (Fm 1.1).

"Παῦλος δέσμιος Χριστοῦ Ἰησοῦ καὶ Τιμόθεος ὁ ἀδελφὸς Φιλήμονι τῷ ἀγαπητῷ καὶ συνεργῷ ἡμῶν"

✍️ Introdução

A carta de Paulo a Filemom, apesar de sua brevidade — composta por apenas um capítulo com 25 versículos — carrega um impacto espiritual profundo. Escrita enquanto Paulo estava aprisionado, essa correspondência não é uma peça meramente histórica, mas uma expressão vívida da graça e do amor ágape em ação. O apóstolo deseja promover a reconciliação entre Filemom, um cristão influente, e Onésimo, um ex-escravo fugitivo, num contexto de leis romanas implacáveis.

🕊️ Contextualização Histórica e Intenção Teológica

  • A carta revela a intenção pastoral de Paulo: promover o Evangelho através da reconciliação de dois irmãos em Cristo.
  • Onésimo, fugitivo e sujeito a duras penalidades legais, é introduzido por Paulo como um irmão restaurado.
  • Paulo não endossa o sistema escravagista romano, tampouco romantiza a fuga de Onésimo — seu foco transcende os debates políticos e sociais da época.

💡 Propósito Espiritual e Legado Canônico

O cerne da epístola está na manifestação do Evangelho em sua forma mais pura:

  • Graça e perdão como expressões práticas do amor de Cristo.
  • Reconciliação como um testemunho coletivo que impacta:
    • Filemom
    • Onésimo
    • Suas famílias
    • A igreja local
    • A posteridade — inclusive nós, séculos depois

Essa carta é preservada no Cânon das Escrituras como instrumento do Espírito Santo para edificação da Igreja ao longo da história.

📜 Análise de Filemom 1.1

1. "Paulo, prisioneiro de Cristo Jesus"

  • Paulo destaca sua prisão como consequência direta da fidelidade ao Evangelho.
  • A perseguição à fé permanece constante em todas as eras; os servos de Deus sempre encontram resistência.
  • Citação relevante: “Portanto, qualquer que quiser ser amigo do mundo constitui-se inimigo de Deus” (Tg 4.4).

2. "Timóteo, nosso irmão"

  • Companheiro de missão e discipulado fiel desde jovem.
  • Sua presença reforça o conteúdo da carta, possivelmente conhecido de Filemom.
  • Exemplo de dedicação pastoral registrado também nas epístolas a Timóteo, escritas por Paulo.

3. "A Filemom, nosso amado e cooperador"

  • Filemom é elogiado como:
    • Amado — expressão de afeto e reconhecimento por sua conduta amorosa.
    • Cooperador — mesmo sendo um homem de posses, não se omitiu no trabalho missionário.

🐦 Ilustração Pastoral: O Beija-flor

  • Ainda que pequeno, o beija-flor representa o poder de Deus operando através do menor dos servos.
  • Líderes como Lutero, Calvino e Simonton foram instrumentos do Espírito para mudar histórias e nações.
  • Deus usa vasos de barro para manifestar Sua glória.

🙏 Aplicações Devocionais

O apelo final do autor nos chama à reflexão prática e espiritual:

  • Colocar-se à disposição do Reino de Deus.
  • Servir com tudo o que somos e temos.
  • Permitir que o Espírito Santo nos molde e nos use.

Oração

Senhor, quem somos nós? Apenas vasos de barro...
Mas o Senhor, que é o Oleiro eterno,
Se necessário, quebra-nos e faze-nos vasos novos,
Para Te servirmos e louvarmos.
Em nome de Jesus Cristo. Amém.

 🧠 Questões para Reflexão Teológica

  • Tenho vivido o perdão e a reconciliação como Paulo desejava para Filemom e Onésimo?
  • Existem relações em minha vida que precisam ser restauradas à luz do Evangelho?
  • Que áreas da minha vida resistem à rendição total a Cristo?
  • Como posso intensificar meu serviço ao Reino com o que sou e o que possuo?
  • Com qual personagem (Paulo, Filemom, Onésimo) minha jornada atual mais se assemelha?

 

Utilização livre desde que citando a fonte
Guedes, Ivan Pereira
Mestre em Ciências da Religião.
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Referências Bibliográficas

BARCLAY, William. El Nuevo Testamento comentado. Buenos Aires (Argentina), Asociación Editorial la Aurora, 1974.

BROWN, Raymond. Introdução ao Novo Testamento. São Paulo: Paulinas, 2004 (Coleção Bíblia e história Série Maior).

BERKHOF, Louis. New Testament Introduction. Eerdmans, 1915, Scanned and Edited Mike Randall.

CARDOSO, José Roberto C. 1 Tessalonicenses: Epístola e Peça Retórica, Fides Reformata, v.7, São Paulo, 2000, pp. 28-29.

GARDNER, Paul (Editor). Quem é quem na Bíblia Sagrada. Tradução Josué Ribeiro. São Paulo: Vida, 1999.

HALE, Broadus David. Introdução ao estudo do Novo Testamento. Trad. Cláudio Vital de Souza. Rio de Janeiro: JUERP, 1983.

HAWTHORNE, G. F., MARTIN, R. P., & REID, D. G. Dictionary of Paul and his letters. Downers Grove, IL: InterVarsity Press, 1993. [p. 706].

HENDRIKSEN, William. Comentário do Novo Testamento - 1 e 2 Tessalonicenses, Colossenses e Filemom. São Paulo: Tradutores Ezia C. Mullins, Hope Gordon Silva, Valter G. Martins. São Paulo: Cultura Cristã, 2007.

TENNEY, Merrill C. (Org.). Enciclopédia da Bíblia, v. 2. Tradução da Equipe de colaboradores da Cultura Cristã. São Paulo: Cultura Cristã, 2008.

 


quinta-feira, 31 de julho de 2025

Gênesis: A Vida de Jacó & José – Linha do Tempo Integrada e Devocional

 


 

Capítulo

Jacó

José

25.19–34

Nascimento de Jacó e Esaú.

30.22–24

Jacó tem filhos com Raquel, incluindo José.

Nascimento de José.

33

Jacó reconcilia-se com Esaú.

35

Deus renova a Aliança com Jacó.

37

Jacó envia José aos irmãos. José é vendido.

Início da trajetória de José no Egito.

39

José prospera na casa de Potifar, mas é preso injustamente.

40–41

José interpreta sonhos e torna-se governador do Egito.

42–45

Jacó lida com a escassez e os irmãos voltam ao Egito.

José reencontra os irmãos e revela sua identidade.

46–47

Jacó vai ao Egito com sua família.

José prepara a recepção e administra a terra.

48

Jacó abençoa os filhos de José.

José apresenta Efraim e Manassés a Jacó.

49–50

Jacó profetiza sobre seus filhos e falece.

José sepulta Jacó e reafirma a promessa divina.


🔍 Observações Espirituais

  • A vida de Jacó é marcada por encontros com Deus, reconciliações e amadurecimento espiritual.
  • José é exemplo de fidelidade e confiança mesmo em circunstâncias injustas.
  • Ambos mostram como a Aliança de Deus atravessa gerações e molda os corações dos seus escolhidos.
  • Gênesis termina com a expectativa do cumprimento da promessa: o retorno a Canaã.

📘 Devocional: Reflexões e Aplicações

Reflexões sobre Jacó

[ ] Como os encontros de Jacó com Deus moldaram sua jornada espiritual?

[ ] Quais lições podemos aprender com a reconciliação entre Jacó e Esaú?

[ ] Como a renovação da Aliança com Jacó reflete a fidelidade de Deus?

Reflexões sobre José

[ ] Como José manteve sua fidelidade em meio às adversidades?

[ ] Quais princípios podemos aplicar da liderança de José no Egito?

[ ] Como a história de José nos ensina sobre perdão e restauração?

Versículos-Chave

  • Gênesis 28.15 – "Estou com você e cuidarei de você onde quer que vá."
  • Gênesis 50.20 – "Vocês planejaram o mal contra mim, mas Deus o tornou em bem."

Aplicações Práticas

[ ] Confie na soberania de Deus mesmo em tempos difíceis.

[ ] Busque reconciliação e paz em seus relacionamentos.

[ ] Lidere com integridade e sabedoria, seguindo o exemplo de José.

 

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Guedes, Ivan Pereira
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segunda-feira, 14 de julho de 2025

Reflexão - Uma Pessoa que se Considerava Boa


O dia amanheceu ensolarado, o que o despertou cheio de ânimo. Verificou seu guarda-roupa e escolheu o que considerou ser a roupa mais adequada para aquele dia, que prometia ser de calor intenso.

Enquanto tomava seu café matinal, examinou a agenda de compromissos para o dia, que incluía algumas atividades importantes. Mentalmente, enquanto saboreava o desjejum, foi alinhando diversos pontos que deveriam ser abordados em seus encontros de negócios.

Apesar de ter diversas pessoas à sua disposição, sabia muito bem que algumas coisas deveriam sempre ser tratadas por ele. Lembrava-se constantemente de um ditado dito por seu velho pai: “Os olhos do dono engordam o rebanho.”
Ele mesmo conhecia histórias tristes de amigos e conhecidos que deixaram seus bens nas mãos de outrem e acabaram enganados e roubados. Trabalhou muito para conquistar tudo o que tinha e não pretendia deixar tudo se perder facilmente.
Gostava de acordar cedo e aproveitar o tempo da refeição matinal para se inteirar dos últimos acontecimentos do dia, ouvindo seus diversos serviçais, que os coletavam enquanto realizavam suas atividades cotidianas.

Foi então que tomou conhecimento de um rabino que estava em evidência nos últimos dias e que passaria pelas proximidades de onde morava. Diziam que ele atraía multidões e que suas palavras eram cheias de sabedoria.
Apesar de ainda jovem, interessava-se profundamente por assuntos religiosos. Crescera, como todo judeu, aprendendo sobre a Torá, e sabia de memória muitos trechos dela, incluindo os chamados Dez Mandamentos.
Como um bom cidadão judeu, frequentava com regularidade as reuniões na sinagoga mais próxima. Tinha afeição e admiração pelos diversos rabinos que ali passavam e explicavam os textos sagrados. Ouvia-os com avidez e com o desejo sincero de ajustar sua vida às normativas divinas. Considerava-se uma pessoa boa e cumpridora de suas obrigações religiosas, familiares e sociais.
Então, chamando um de seus serviçais, pediu que descobrisse qual caminho aquele famoso rabino utilizaria e em que momento do dia ele passaria pelas proximidades. Uma curiosidade crescente começou a ocupar sua mente.

Precisava conversar com aquele homem sábio. Quem sabe poderiam trocar experiências, afinal, ele não era um neófito no que dizia respeito à Torá e ao judaísmo.
Após algumas horas, o serviçal retornou informando que, segundo suas pesquisas, o famoso rabino estaria se aproximando entre a 9ª hora (15 horas) e a 11ª hora (17 horas).
Excelente, pensou ele. Haveria tempo para se organizar, resolver algumas questões e sair para encontrar-se com essa pessoa. Ordenou ao serviçal que ficasse atento e o avisasse quando o eminente rabino estivesse próximo.

Já era a 10ª hora do dia quando o serviçal entrou apressado e ofegante, avisando que o rabino estava se aproximando da região.
Rapidamente, ele cingiu-se de sua vestimenta pública, colocou dois de seus anéis preferidos, além de dois cordões de ouro — usados apenas em ocasiões muito especiais, especialmente em recepções de autoridades. Afinal, queria causar uma boa impressão. Então saiu, acompanhado pelo serviçal.

A uma distância razoável, percebeu a movimentação de um grupo de pessoas. Pelo ritmo, deduziu que acompanhavam a caminhada de alguém importante. O serviçal então lhe disse:
— É o rabino, acompanhado de seus discípulos e de algumas pessoas da vila que desejam vê-lo e ouvi-lo.

Aguardou mais alguns instantes e, em seguida, começou a caminhar em sua direção.

Enquanto se aproximava, não percebeu nada de especial na roupa ou na aparência daquele homem que o identificasse como um famoso rabino. Pareceu-lhe alguém comum, até mesmo extremamente humilde. Seria, de fato, esse o rabino tão comentado? Teria ele algo a aprender com essa pessoa?

Posicionou-se próximo ao grupo em movimento e, com educação e reverência, saudou o mestre. Em seguida, proferiu uma pergunta mais retórica que inquisidora:
— Bom Mestre, que farei para herdar a vida eterna?

O som da pergunta teve o efeito imediato de interromper a caminhada. Um breve silêncio se formou.
Todos os olhares agora se voltaram ao Mestre, centro das atenções.
Como reagiria? Qual seria sua resposta?

Então Jesus olhou para aquele jovem e lhe respondeu com uma pergunta:
— Por que me chamas bom?

Em seguida, completou:
— Ninguém é bom, senão um: Deus.

O jovem inquiridor certamente não compreendeu completamente aquela resposta, mas manteve-se em silêncio.
Ainda olhando nos olhos do rapaz, Jesus perguntou:
— Você conhece os mandamentos?

Referia-se às duas Tábuas da Lei. E começou a citá-los:
— Não matarás; Não adulterarás; Não furtarás; Não darás falso testemunho; Honra teu pai e tua mãe; Amarás o teu próximo como a ti mesmo.

A resposta do jovem veio rápida, demonstrando um certo alívio:
— Sim, Mestre. Não apenas os conheço, como tenho procurado praticá-los desde minha adolescência.

Em outras palavras, ele estava dizendo: desde que assumi as rédeas da minha vida, tenho buscado seguir cada um desses mandamentos.

O olhar de Jesus se reveste de profunda ternura por aquele rapaz. Ele percebe a genuinidade de seus esforços em observar os preceitos da Lei. Há nele uma certa maturidade, apesar da juventude. Tem se esforçado por viver de modo honesto e justo.

Mas ainda lhe falta uma coisa — a mais importante de todas.
A próxima pergunta de Jesus trará à tona a lacuna silenciosa que atravessa todo o projeto de vida daquele jovem entusiasta.

Jesus sabe, desde antes, o que Sua pergunta vai provocar: desconforto, reflexão, talvez tristeza. Mas Ele precisa fazê-la.
Precisa conduzi-lo a um ponto de pausa, onde — enfim — possa sondar com mais profundidade o próprio coração e a alma.

Então Jesus declara: “Falta-lhe uma coisa”, e respirando profundamente continua “vai vende tudo o que você tem (herdado ou acumulado ao longo dos anos) e dê todo o dinheiro arrecadado aos pobres, e você terá um tesouro no céu. E respirando profundamente novamente completa: “Então, venha e siga-me”.

Um silêncio absoluto se fez sentir.
Os olhares agora se voltam para o rapaz, que está completamente atônito diante das palavras pronunciadas por Jesus.

Ele está pronto para muitas coisas.
Talvez ampliar os dias de jejum; aumentar suas contribuições ao Templo; financiar a produção de cópias da Torá — que eram caríssimas; ou até mesmo destinar uma quantia generosa para ajudar os mais carentes.

Mas o que Jesus pede vai além.
Não se trata de fazer mais, e sim de abrir mão — de tudo.
De deixar de controlar o que possui para se tornar plenamente disponível ao Reino.

Mas quando Jesus disse: “Vende tudo o que tens e dá aos pobres”, todo o seu castelo religioso desmoronou.
A estrutura que havia construído ao redor da própria vida foi demolida por aquelas palavras... “vende tudo e dá...”.

O rapaz não estava preparado para isso.
Ninguém jamais lhe dissera tal coisa! Soava como um absurdo. Era radical demais, acima do que ele considerava razoável.
Todo seu entusiasmo inicial, toda a disposição que o movera até Jesus... simplesmente desapareceram.

Foi como se, num ringue, recebesse um gancho de direita certeiro no queixo.
Implacável, foi ao chão — completamente sem forças para reagir.
Não tinha resposta, não tinha argumento.

Só lhe restou uma alternativa: “afastou-se triste...”.

O evangelista Marcos explica o motivo: “pois possuía muitos bens”.

Quando Jesus citou os mandamentos ao jovem, propositalmente deixou de mencionar o primeiro: “Não terás outros deuses diante de mim”.
Jesus sabia que o deus daquele rapaz era a sua riqueza.

E a pergunta que se torna necessária diante dessa narrativa é:
QUAL É O MEU DEUS?

 

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Guedes, Ivan Pereira
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Observação

Está narrativa é tão relevante que três dos quatro evangelistas, contendo pequenas variações, a inserem em suas narrativas evangélicas: Marcos 10:18, Lucas 18:19 e Mateus 19:17.

 

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