quinta-feira, 14 de fevereiro de 2019

Viajando no livro de Atos: Aguardando e Recordando em Jerusalém (1.12-14)



            Obedecendo as orientações de Jesus antes de ascender aos céus, os discípulos permanecem em Jerusalém. Enquanto aguardam tomam a decisão de recompor o núcleo apostólico, visto que Judas o que traiu Jesus havia suicidado. Após um período de oração a escolha recaiu sobre Matias. Então, Lucas o nosso guia nesta viagem nos convida para fazer uma turnê pela cidade de Jerusalém e recordarmos um pouco dos últimos dias de Jesus na cidade.
            Desde sua conquista por Davi (1.000 a.C.) a cidade de Jerusalém adquiriu um lugar especial no coração dos judeus que a denominavam de “cidade da paz”, “cidade sagrada” e “Sião”. Ela fora uma cidade jebusita, encravada nas montanhas da Judéia e no entroncamento entre o norte e o sul do território israelita, de maneira que Davi com sua aguçada visão de liderança a transformou no centro político e religioso unificando definitivamente a Nação. De imediato ele providenciou que a Arca da Aliança (2Sm 6) fosse levada para Jerusalém e depois deixou o projeto e os materiais necessários para a construção do Templo (1Rs 8), que foi erigido por seu filho e sucessor Salomão. A cidade de Jerusalém e o Templo passaram a ser o ponto convergente de toda a História israelita/judaica e será nela que se cumpriram as profecias messiânicas que acalentaram por séculos os corações e a fé piedosa de homens e mulheres como Simeão e Ana.
            A cidade de Jerusalém foi enaltecida em versos e prosas na literatura do Primeiro Testamento (Sl 48.1-3, 12-13; 87.1-2; 122.1-3, 6-7; 137.5-6). Mas apesar dela ser tão amada os escritores bíblicos tinham plena consciência de que nela havia a maldade e a intriga (Sl 55.9-11). O próprio Jesus quando de sua última visita à cidade – chora – “Jerusalém, Jerusalém, que matas os profetas, e apedrejas os que a ti são enviados! Quantas vezes quis eu ajuntar os teus filhos, como a galinha ajunta a sua ninhada debaixo das asas, e não quiseste!” (Lc 13.34). E de fato a maldade se manifestara da forma mais cruel na morte do próprio Jesus.
            Nos dias dos acontecimentos evangélicos a cidade de Jerusalém tinha uma população fixa de aproximadamente 40 mil pessoas, mas que durante as grandes festas do calendário judaico chegavam a 500 mil pessoas que por suas ruas apertadas e vielas transitavam freneticamente.
     
Nos dias do déspota Herodes, o Grande, a cidade e o Templo passaram por uma intensa transformação e expansão. Milhares de pessoas passaram a trabalhar nessas obras e a dependerem desse salário. O preço social é que aos arredores da cidade foram surgindo guetos, que posteriormente, na medida em que as obras foram cessando se transformaram em lugares de extrema pobreza e carência[1].
            Jesus percorreu em diversas ocasiões as ruas apertadas e apinhadas de gente de Jerusalém. Certa vez ele caminhando “em Jerusalém, perto do Portão das Ovelhas” (lado norte do Templo), foi até um tanque de água chamada “Betesda[2], rodeada por cinco colunas” (Jo 5.2) e ali curou um homem paralitico a 38 anos.
           
Caminhando pelas ruas da cidade Lucas nos mostra os lugares em que Jesus esteve em sua última semana. O primeiro lugar é o Cenáculo (sala de jantar) onde o Mestre tomou a última refeição da Páscoa[3] com seus discípulos e também estabeleceu a primeira Ceia cristã (Lc 22.7-8, 10-15, 19-20).
           
Após a refeição pascoal, por volta das 23hs Jesus e seus discípulos passam pelo Portão de Siloé (onde Jesus curara um cego – Jo 9.7), descem para o Vale do Cedrom e chegam até o Jardim do Getsemani em um percurso de no máximo 30 minutos, mas que naquela noite parecia ser uma eternidade, tal a tensão que pairava no ar. É nesse Jardim que Jesus se prepara em oração para os acontecimentos violentos que haveriam de ocorrer algumas horas depois, onde as autoridades religiosas judaicas, comungadas com Judas Iscariotes, o prenderiam e não descansariam até vê-lo morto na cruz.

            Uma vez preso pela guarda do Templo, Jesus é levado à casa do Sumo Sacerdote Caifás, que ficava na parte nobre da cidade, também chamada de cidade alta (Jo 18.12-14). É nas sombras da madrugada (qualquer semelhança com o STF não é mera coincidência) que Caifás e outros membros do Sinédrio elaboram o processo contra Jesus.

Então eles o levam até a presença da autoridade romana – Pôncio Pilatos – que estava alojado provavelmente no palácio de Herodes[4] e que não ficava muito distante da casa do Sumo Sacerdote. Pilatos dificulta a vida dos algozes de Jesus e posterga ao máximo qualquer condenação (Jo 18.29-19.4). Os judeus tiveram que incluir outras acusações contra Jesus além da questão religiosa (blasfêmia) e o acusaram de revolucionário (Lc 23.5). Pilatos conhecia muito bem o caráter de Caifás e seus aliados do Sinédrio, tinha quase certeza de estavam mentindo motivados pela inveja da popularidade de Jesus (Mc 15.10). Todavia, sua carreira política estava em jogo e dirige-se à cadeira de juiz, em local conhecido como o Pavimento (Gabatá) e ali sentencia Jesus ao açoite e à crucificação (Jo 19.13).
           
Após ser cruelmente açoitado Jesus é conduzido pela guarda romana saindo pelo Portão dos Jardins (Gennath), na esquina noroeste das muralhas da cidade – esse caminho passou a ser chamado de via dolorasa. No trajeto Jesus perde as forças e os guardas obrigam um homem, Simão, o Cirineu (Mc 15.21) para ajudar a carregar a cruz até o local da execução. Mal sabiam as autoridades religiosas e o próprio povo que ali a tudo assistiam que eles também estavam por percorrer a via dolorasa – quando os exércitos romanos haveriam de invadir e destruir totalmente a cidade de Jerusalém e o seu belíssimo Templo. Ao rejeitarem seu verdadeiro rei a cidade de Jerusalém decreta sua própria condenação. Assim será com todos aqueles que rejeitam a Jesus Cristo – condenam a si mesmos.

“Havia um monte verde ao longe, além da muralha da cidade, onde nosso querido Senhor foi crucificado e morreu para salvar todos nós”
(Cecil Alexander).
            Finalmente Jesus chega ao Gólgota (Monte da Caveira) onde seria crucificado. Essa era uma forma cruel de matar os inimigos do Império ou escravos fugitivos. No ano 4 a.C. em decorrência de uma revolta judaica 2 mil pessoas foram crucificadas[5] – tornando as palavras de Jesus “cada um carregue a sua cruz” muito mais intensa. Para a mentalidade judaica a morte na cruz era sinal de maldição divina (Dt 23.34).

Ao balbuciar suas últimas palavras “Pai, em tuas mãos entrego meu espírito” (Lc 23.46) Jesus morre e seu corpo é imediatamente retirado da cruz, pois o sol se pondo seria sábado e não poderia mais ser retirado. Um homem chamado José de Arimatéia (vila acerca de 8 km a noroeste de Jerusalém) oferece um de seus túmulos para que o corpo de Jesus fosse depositado e posteriormente embalsamado (Lc 23.51, 55).

Parece que tudo havia terminado e os dois discípulos de Emaús (lc 24.13-35) é um exemplo da tristeza e decepção que se abateu sobre todos os discípulos de Jesus. Mas no alvorecer do Domingo (primeiro dia da Semana) quando algumas mulheres tomadas pela dor e sofrimento foram ao tumulo para prestarem suas últimas homenagens ao amado Mestre, eis que para surpresa delas o tumulo estava vazio – Jesus havia ressuscitado!!

É justamente pelo fato de que Jesus ressuscitou que sua história não termina na narrativa evangélica e Lucas precisou escrever um segundo volume, narrando a continuidade dessa História que haverá de transpor a região da Judéia, Samaria e alcançara em poucos anos todo o Império Romano e posteriormente o mundo inteiro.

E convido você a juntos seguirmos o roteiro de Lucas e percorrermos toda esta trajetória até chegarmos na cidade de Roma a capital do Império. Venha!!


Utilização livre desde que citando a fonte
Guedes, Ivan Pereira
Mestre em Ciências da Religião.
Universidade Presbiteriana Mackenzie
me.ivanguedes@gmail.com
Outro Blog
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Referências Bibliográficas
BAXTER, J. Sidlow. Examinai as Escrituras, v. 6. São Paulo: Vida Nova, 1989.
CHAMPLIN, R. N. Enciclopédia de Bíblia, Teologia e Filosofia. São Paulo: Hagnos, 8ª ed., 2006.
ELWELL, Walter A. e YARBROUGH, Robert W. Descobrindo o Novo Testamento – uma perspectiva histórica e teológica. Tradução Lúcia Kerr Jóia. São Paulo, Cultura Cristã, 2002.
ERDMAN, Charles R. Hechos de Los Apóstoles. Ed. TELL, 1974.
JEREMIAS, Joachim. Jerusalém no tempo de Jesus – pesquisa de história econômico-social no period neotestamentário. Tradução M. Cecília de M. Duprat. Santo André (SP), Academia Cristã; São Paulo, Paulus, 2010.
RYRIE, Charles C. Bíblia de estúdio Ryrie. Chicago (Illinois): Moody Press, 1991.
SMITH, T. C. Comentário Bíblico Broadman, v.10. Rio de Janeiro: JUERP, 1984.
WALKER, Peter. Pelos caminhos de Jesus – guia ecumênico de jornada à Terra Santa. Tradução Andréa Mariz. São Paulo, Edições Rosari, 2007.  
WILLIAMS, David J. Novo Comentário Bíblico Contemporâneo – Atos. São Paulo: Vida, 1996.
UNGER, Merrill Frederick. Manual bíblico Unger. Tradução Eduardo Pereira e Ferreira, Lucy Yamakami. São Paulo, Vida Nova, 2006.



[1] Provavelmente ficavam no Vale do Tiropeão.
[2] Esse foi um dos lugares reformados por Herodes e suas águas passaram a ser tidas como curativas (semelhante ao culto de Asclépio, conforme pratica em outras partes do Império Romano).
[3] A Páscoa (Pessach) e celebrada no décimo quinto dia de Nisan (final de março e inicio de abril) dando inicio a Festa dos Pães Ázimos. Era um dos três maiores festivais do calendário religioso judeu do século I. Suas concorrentes eram a Festa das Semanas (Pentecostes – acontecia no fim de maio); a Festa dos Tabernáculos (acontecia em outubro).
[4] Alguns estudiosos defendem que Pilatos estaria na Fortaleza Antônia, junto com a guarnição romana.
[5] Ao menos outras duas revoltas foram causadoras de novas atrocidades – 70 d.C. e também em 134 d.C.

segunda-feira, 19 de novembro de 2018

Natividade : O Nome de Jesus - Deus Forte (Isaías 9.6)


“Porque um menino nos nasceu, um
filho se nos deu; o governo está sobre
os seus ombros; e o seu nome será:
Maravilhoso, Conselheiro, Deus Forte,
Pai da Eternidade, Príncipe da Paz”.
(Isaías 9.6)

                   Na época do Primeiro Testamento o nome de uma pessoa estava relacionado com sua história (familiar) e com seu caráter. Em alguns casos o nome do personagem é mudado por Deus, como por exemplo, Abrão que passou a ser chamado de Abraão e depois seu neto Jacó que passou a ser chamado de Israel. Em ambos esses casos a razão foi uma guinada na vida (história) pessoal dessas pessoas e para ficar evidente para eles que era Deus quem estava conduzindo os acontecimentos históricos Deus mesmo muda seus nomes para expressassem essas mudanças.
                   Nessa série de artigos estamos estudando o Nome do maior personagem das Escrituras inteira – o nome de Jesus. O profeta Isaías 700 anos antes do nascimento de Jesus utiliza-se de um menino que esta por nascer e profeticamente projeta nessa criança de seus dias ou próximo de seus dias o nascimento de um menino distinto de todos os outros bilhões que havia ou haveriam de nascer nesse mundo – “e o seu nome será” – e em vez de apenas declarar que o nome da criança seria Jesus o profeta opta por revelar algumas das características do caráter e da história dessa criança – “Maravilhoso, Conselheiro, Deus Forte, Pai da Eternidade e Príncipe da Paz”. Desta forma o profeta expressa a plenitude do caráter salvífico do reinado que será estabelecido através dessa criança, bem como é a expressão final da verdade de que ele nascerá para estar conosco (Emanuel), não para nossa destruição, mas para nossa redenção.
                   Uma das coisas lindas do natal é que ela nos força a pensar nessa criança que ao nascer mudou radicalmente a História humana em antes (a.C.) e depois (d.C.). Evidentemente que a grande maioria das pessoas rejeita isso e outras tantas ignoram completamente esse fato. Mas o nascimento de Jesus foi e continua sendo um fato Histórico no calendário humano. E o seu nome será – Deus Forte.
                   Sempre houve e continuara havendo aqueles que têm dificuldade em crer na divindade de Jesus de maneira que não se deve estranhar o fato de que muitos comentaristas descartam a expressão “Deus (El - אֵל)[1] Poderoso (gibb'ôr גִּבּויר)” como uma referência à deidade desse menino, substituindo pelo substantivoherói” em lugar do adjetivopoderoso”. Mas não há qualquer razão gramatical para que se faça tal mudança, pois em todas as demais referências bíblicas em que aparece essa expressão hebraica sempre se refere a Deus e seu poder (10.21; cf. também Dt 10.17; Jr 32.18). Isaías quando faz referência a Deus (El) sempre o faz no sentido absoluto; nunca na forma hiperbólica ou metafórica. Desta forma esse menino/rei terá sobre si o genuíno poder de Deus, poder tão imenso que é capaz de vencer o mal em toda sua plenitude (um dos atributos do Messias) – como de fato o fará na cruz do calvário quando suportará sobre si todo o nosso pecado (53.2-10; 59.15-20; 63.1-9).
                   Para aqueles que insistem de que o profeta esta se referindo exclusivamente a um menino/rei humano que haveria de governar apenas e tão somente a nação de Israel/Judá[2] é preciso lembrar que o profeta esta acercado de reis divinizados (Egito), portanto o profeta esta ciente de que esse menino/rei é totalmente distinto destes e de quaisquer outros reis terrenos – assim como o salmista já tinha se referido ao Rei/Messias (Sl 45.6) como divino Isaías também endossa o fato de que essa criança é o Deus poderoso e cujo reino se estenderá muito além das fronteiras Israel/Judá alcançando o mundo inteiro. Muitas vezes, quando o profeta faz referência à vinda do Messias, ele não faz distinção entre a primeira e segunda vinda de Jesus Cristo, mas é como se o profeta visse apenas um único evento – ainda que para nós hoje sejam dois eventos distintos. O profeta vê pelo prisma da onisciência de Deus, enquanto nós apenas podemos ver o presente e o passado.
                   Esta foi a grande dificuldade dos judeus em relação a Jesus como sendo o Messias. Eles esperavam apenas um Messias terreno que haveria de livra-los do domínio romano e restaurasse a glória antiga de Israel/Judá – eles não conseguiram discernir nada nas profecias messiânicas que falassem de duas vindas. A literatura cristã haverá de perceber esta distinção entre a primeira vinda e a segunda vinda. Para os cristãos Isaías 9.6-7 faz clara referência às duas vindas do Messias. O menino que nasce é Jesus nascido de Maria e assumindo a plenitude da nossa humanidade, sem a qual Ele não poderia ser legitimamente nosso representante; mas quando o profeta se refere ao reinado dessa criança somos arremessados para o futuro eminente quando Jesus retornará em poder e glória para reinar para sempre com seu povo.
                   É preciso lembrar que o profeta Isaías está falando ao povo de Israel/Judá de seus dias e não à Igreja que ainda virá a existir. Os ouvintes primários de Isaías são os judeus e israelitas de sua época até o nascimento de Jesus e nós cristãos somos os ouvintes secundários dessa profecia. Para o apóstolo Paulo e demais cristãos do primeiro século não havia dúvidas sobre quem era Jesus “declarado ser o Filho de Deus com poder, segundo o Espírito de santidade, pela ressurreição dos mortos” (Rm 1.4). Para os cristãos a primeira vinda se cumpre na morte, ressurreição e ascensão de Jesus e agora aguardamos seu retorno glorioso e definitivo. Os judeus até hoje aguardam a primeira vinda do Messias e se recusam a reconhecer Jesus Cristo como o Messias que já veio e voltará – está inclusive era a razão pelas quais os judeus queria apedrejar Jesus "por blasfêmia porque, sendo um homem, ele se fez Deus".
                   O natal também é oportuno para descansarmos nossa fé e esperança em Jesus Cristo que é o “Deus Forte”. O contexto em que o profeta Isaías pronuncia essas palavras referentes ao menino/rei é de total desalento para os israelita/judeus, inimigos poderosos estão vindo sobre eles, em breve o reino do Norte (Israel) cairá para não mais ser restaurado e não muito tempo depois o reino do Sul (Judá) também será destruído, mas posteriormente restaurado. Muita dor, sofrimento e morte o profeta e seus contemporâneos haverão de experimentar em suas vidas. O que lhes pode trazer esperança? Então o profeta irrompe com sua mensagem: “Um menino vos será dado e seu nome é... Deus Forte”. Quando estivermos acercados por toda sorte de males deste mundo; quando estivermos a sofrer a dor mais aguda; quando olharmos ao nosso derredor e virmos apenas a miséria e o mal dominando (sombra da morte) LEMBREMO-NOS desta precisa mensagem natalina de Isaías - “Um menino vos será dado e seu nome é... Deus Forte”, Jesus governará o mundo com autoridade suprema, pois todas as demais autoridades são derivadas Dele e serão submissas a Ele (todo joelho se dobrará e toda língua confessará que Jesus Cristo é Senhor). Ele é o Deus forte, o Todo poderoso, o Eterno, o Leão da Tribo de Judá, Aquele que abrirá o Livro da Vida e que julgará os vivos e os mortos – esse é o nosso Jesus Cristo – esse é o significado do Natal bíblico!

Muito mais do que um bebê na manjedoura
O natal cristão bíblico celebra
Aquele que era e que é e que há de vir
Jesus Cristo
O Deus Forte


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Guedes, Ivan Pereira
Mestre em Ciências da Religião.
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[1] É significativo que Isaías não utiliza “Elohim” para “Deus”, que pode ser usada em um sentido inferior para aqueles que são representantes de Deus, como em (Exo_7: 1; Êx 22:28, 1Sa 28: 13), mas “El” que refere-se exclusivamente para a pessoa do próprio Deus.
[2] Tal linguagem fala de um rei ideal, até mesmo de um governante Divino, e somente em um grau muito baixo encontrou seu cumprimento em Ezequias ou em qualquer rei judeu. (B. Blake, B. D.).

domingo, 18 de novembro de 2018

Leitura & Reflexão Bíblica: Êxodo Capítulo 1



Síntese Capítulo 1
A importância e relevância do livro de Êxodo esta em que os alicerces fundamentais da teologia que norteou a vida do povo de Israel estão aqui firmemente estabelecidos: os Dez Mandamentos, o calendário religioso, a Constituição civil que vai legislar todas as esferas da sociedade israelita.
O Desenvolvimento da Redenção no livro de Êxodo
A necessidade de redenção (caps. 1-6)
O Poder do Redentor          (caps. 7-11)
O Método da Redenção           (caps. 12-18)
Os Deveres dos redimidos (caps. 19-24)
As Provisões para os redimidos (caps. 25-40)
(Adaptado de Arthur Pink, Gleanings in Exodus - Chicago: Moody, n.d.1 p. 8).
Mas nesse livro os cristãos encontram também pilares que dão sustentação ao ensino do Evangelho. Para o apóstolo Paulo tudo que está registrado concernente à história israelita é para o nosso ensino (1Co 10.11): a escravidão no Egito ilustra nossa antiga escravidão no pecado; Moisés é semelhante a Jesus Cristo em muitos aspectos (Dt 18.15; Atos 3.22; 7.37); a libertação de Israel e sua passagem pelo Mar Vermelho foi um “batismo para Moisés” e ilustra nosso “batismo em Cristo” (1Co 10. 2; Gl 3.27); até mesmo as falhas de Israel em sua peregrinação pelo deserto foram registradas para que nos servisse de alerta do perigo da desobediência (Hb 4.1); e projeto, construção e utilização do tabernáculo, que ocupada lugar proeminente no texto (Êxodo 25-40), esta intimamente relacionado com a obra de Cristo (Hb 9.9).
A literatura desse livro irradia verdades profundas sobre o caráter de Deus como poucas literaturas bíblicas o fazem: aqui temos o perfeito equilíbrio entre a misericórdia e graça de Deus que é tardio em irar-se e abundante em benignidade e verdade; e sua perfeita justiça e juízo, pois de modo algum compactua com a injustiça e o pecado (Êx 34.6,7). O Decálogo continua sendo ainda hoje a espinha dorsal dos Códigos de leis das sociedades modernas.
Êxodo começa com "Agora", que pode ser traduzido "E", sugerindo que o livro não foi originalmente independente de Gênesis, mas constituiu uma parte dele. Isto é verdade para todos os primeiros cinco livros da Bíblia, que originalmente eram um volume ininterrupto e conhecido como "A Lei" ou "A Lei de Moisés" (Lc 16.31; 24.44).
O livro de Gênesis conclui com a subida de Jacó e seus filhos  para morar no Egito e eles foram recebidos com honras de Estado visto a posição elevada que José havia sido elevado no governo egípcio. Entre o final de Gênesis e o primeiro capítulo de Êxodo temos aproximadamente 200 anos que Jacó havia se estabelecido com seus descendentes (os 430 anos mencionados são desde os dias de Abraão), nesse período a situação dos israelitas mudou radicalmente. A nova dinastia egípcia  “não conhecia José”, “Conhecer” no hebraico geralmente tem um tom harmônico de relacionamento, de maneira que a relação de amizade e serviço estabelecida entre José e a dinastia anterior havia sido esquecida.
No discurso do rei (vv. 9 e 10) o escritor enfatiza a ironia do Faraó que exagera propositalmente o número de israelitas e a expressão "usemos de astucia [sabedoria] para lidar com eles”, na prática foi opressão e extermínio. Essa atitude hostil tem duas razões: uma de ordem política, os inimigos do Egito ao nordeste da fronteira estavam se armando para a guerra e os israelitas poderiam se unir a eles – os israelitas esta na fronteira do Egito com Canaã; e outra de ordem econômica, pois as terras (Goshen) e gado israelita lhes dava poder econômico e prosperidade. Mas agora a terra do Egito se tornou para os israelitas uma casa de servidão (1.8-14).
O objetivo desse primeiro capítulo é vinculá-lo à narrativa anterior do Gênesis, como mencionado acima, e demonstrar que Deus manteve sempre Sua palavra empenhada na Aliança estabelecida com Abraão e renovada com Isaque e Jacó.
O capítulo está inserido dentro de uma perícope maior (Ex 1.1-15.21) onde temos o desenvolvimento da narrativa em três temáticas: a opressão (1.1-7.7), mediação (7.8-13.16) e libertação dos israelitas (13.17-15.21). A leitura revela uma perfeita unidade literária em que cada uma das partes está sincronicamente entrelaçada com a próxima em um ritmo crescente culminando com o clímax da libertação dos israelitas.
Os personagens protagonistas vão entrando em cena: Israel (c.1), Moisés (c. 2) e Yahweh (cc. 3-4) e os principais antagonistas: Faraó e Egito (c.1). As cenas são preenchidas por outros personagens secundários, com funções limitadas, porém significativas: as parteiras (c.1), Miriam, irmã de Moisés, e a filha do faraó (c.2), Aarão (c. 4), etc. Sem dúvida, o personagem chave é Yahweh e a partir do momento em que entra em cena, assume o controle e dá sentido as ações de todos os personagens envolvidos, sejam os protagonistas ou antagonistas.
Os movimentos geográficos da narrativa têm seu inicio no Egito e continua na paisagem desértica de Midiã, culminando no monte Horebe, onde Deus se revela e vocaciona a Moisés. Então retorna para o Egito, lugar de opressão israelita e palco da libertação efetuada por Deus.

Reflexões do Capítulo 1
v  O verso 6 demarca o fim de uma geração (representada na morte de José e seus irmãos) e o verso 7 o inicio de uma nova geração (nascida no Egito). Aqui temos duas coisas importantes: o cumprimento da promessa de que dos patriarcas surgiria um grande povo (nação) e a partir deste ponto eles serão identificados não mais como filhos de Jacó (v. 6), mas como povo de Israel. A mudança é relevante: da história de uma família (Jacó) passasse à história de um povo (faltam ainda território e Constituição – para ser uma nação).
v  Deus os havia conduzido ao Egito para preservá-los, mas o lugar definitivo deles era em Canaã. A nova geração israelita havia se acomodado no conforto e prosperidade do Egito e se esquecido da Aliança, mas agora, diante da opressão crescente sua memória começa a ser reestabelecida. Todas as vezes que a Igreja usufrui tempos de paz e segurança ela se esquece da “Aliança” e se ajusta confortavelmente na sociedade presente; mas quando sobrevêm as perseguições se lembram de que sua pátria não é aqui, mas na eternidade. As aflições em nossas vidas são para nos fazer lembrar que nosso lugar definitivo não é neste mundo, mas no céu.
v  Os israelitas e os egípcios representam aqui toda a humanidade. A inimizade entre eles revela a inimizade entre o povo de Deus e as demais nações que se rebelam contra a vontade de Deus. O texto é um alerta perpetuo de que acomodar-se na falsa segurança do Egito (mundo) ou assentar-se confortavelmente às portas de Sodoma e Gomorra (sociedade depravada) é se colocar em risco eminente de experimentar a opressão, o juízo e a ira de Deus.
v  “Vamos lidar com eles com sabedoria (astucia)”. Jesus alerta seus discípulos declarando que "Os filhos deste mundo são mais sábios em sua geração do que os filhos da luz". Satanás aproxima-se astutamente de Eva e a conduz suavemente à desobediência e ao pecado. O mal sempre vem revestido de uma fina capa de bondade e beneficio, mas o resultado final é a opressão e a morte. Outra vez Jesus alerta: “A amizade com o mundo é inimizade contra Deus”. Mas como essa geração de israelitas também nos sentimos confortáveis no Egito e até sentimos saudades de seus temperos.
v  O infanticídio proposto por Faraó para inibir o crescimento dos israelitas, mas que foi frustrado pelo temor das parteiras das mulheres hebreias em relação a Deus, que haviam sido encarregadas desse ato indescritível, mas que foi efetuado pelo louco Herodes em sua tentativa frustrada de matar o novo “rei dos judeus” (Jesus), quando mandou assassinar os meninos de dois anos para baixo na pequena vila de Belém e continua sendo executado hoje pelos abortistas e seus movimentos espalhados pelo mundo inteiro. Onde não há temor de Deus o mal efetua livremente seu infanticídio.
v  As parteiras receberam ordens diretas do Faraó para que matassem os meninos hebreus, mas elas optaram por não cumprir tais ordens. Normalmente, devemos obedecer àqueles que têm autoridade sobre nós, incluindo o governo, mas às vezes precisamos desobedecer aqueles que têm autoridade sobre nós, quando suas ordens entram em contradição direta com a nossa consciência cristã. Quando os apóstolos foram ordenados a parar de pregar o Evangelho, eles responderam: “Então Pedro e os outros apóstolos responderam e disseram: Devemos obedecer a Deus e não aos homens” (Atos 5.29). Matinho Lutero diante das maiores autoridades religiosas e civis de sua época, tendo sua vida por risco, declarou com convicção: “não posso ir contra a minha consciência e meu entendimento das Escrituras”. O que falta nos dias atuais é crente que esteja disposto a contrariar a maioria e o politicamente correto e se posicionar biblicamente. Se não defendermos o que é certo e piedoso, a sociedade nunca perceberá o erro do que está acontecendo. Alguém disse que tudo o que é necessário para a sociedade se destruir é que homens e mulheres piedosos se calem e não façam nada.
v  Nesse primeiro capítulo temos a manifestação da soberania de Deus. Ele mesmo havia conduzido Jacó e seus filhos para o Egito, a fim de preservá-los da absorção da cultura e religião canaanita através dos casamentos mistos. Ele mesmo os preservou e abençoou no Egito de maneira que se multiplicaram e se tornaram um grande povo. Mesmo diante da perseguição e opressão de Faraó os israelitas continuavam a crescerem e se fortalecerem, pois Deus os guardava. Assim ocorre conosco, pois o Egito é uma figura do mundo e Faraó uma figura de Satanás, de maneira que vivemos em um mundo hostil a tudo e qualquer pessoa que ouse servir a Deus – “no mundo tereis aflições” - e permanentemente Satanás faz uso de todos os meios “legais” para nos destruir – mas quem nos guarda e preserva é Deus. Não precisamos nos apavorar quando as circunstâncias mudam para pior, quando um “novo” Faraó se levanta, pois todas as coisas cooperam para o nosso bem. Foi assim com José e será assim com os israelitas e também conosco. A mensagem de Êxodo 1 é clara: os propósitos de Deus para o seu povo não serão frustrados.
v  Nenhuma palavra de desprezo pela grandeza do Egito é encontrada nos registros bíblicos (diferentemente da Babilônia). O Egito tipifica esse mundo e seu sistema político-econômico-social que quando adequadamente usufruído torna-se uma bênção, mas quando mal utilizado torna-se uma maldição. Deus mesmo tornou o Egito o celeiro do mundo através de José e Deus mesmo trouxe toda a família de Jacó para ali morar, se multiplicar e prosperar. Aqui os israelitas aprenderam muitas coisas que lhes foram uteis quando ocuparam a terra de Canaã; aqui Moisés foi preparado em toda ciência e conhecimento humano que o capacitou a ser um grande líder. Por outro lado, é preciso tomar cuidado para não transformarmos o Egito (mundo) em nossa Canaã (céu); de nos rendermos às seduções deste mundo maligno, a ponto de perdermos nosso conhecimento de Deus e Sua Aliança; de desperdiçarmos nossa herança dissolutamente a ponto de desejar comer a lavagem dos porcos (como o filho pródigo); de nos tornarmos escravos desse mundo e seu sistema; de construirmos nossas vidas nas areias deste mundo e não na rocha que é Jesus Cristo; de deixarmos nossos nomes gravados nas ruínas deste mundo, mas não nos fundamentos da cidade celestial eterna. Quando nos esquecemos Dele e de Sua Aliança, absorvidos por este mundo, Deus mesmo endurece o coração de Faraó e somos oprimidos e multiplicam-se nossas dores até que nos voltemos a Ele e clamemos por sua graça e misericórdia.
v  Estamos fazendo história mesmo quando não nos apercebemos disso. Aquilo que parece pequeno e insignificante hoje pode vir a se constituir em elos de uma corrente que se revelará em grandes eventos no futuro; a venda de um menino como escravo pelos próprios irmãos se constituiu no grande projeto que transformou o Egito no celeiro do mundo e na preservação de uma família e na fecundação de um numero povo e posteriormente uma nação, através da qual Deus trouxe salvação para o mundo inteiro – através de Jesus Cristo. O que fazemos hoje vai contribuir positiva ou negativamente daqui a dez ou cem anos, portanto, façamos o nosso melhor para que a nossa contribuição seja abençoadora às gerações futuras.
v  Nesse momento histórico nosso país esta experimentando uma mudança de governo. Um “novo” presidente estará tomando posse a partir de primeiro de janeiro. Apesar das grandes expectativas geradas por esta mudança em momento algum devemos colocar nossa confiança e esperança nos governantes e/ou nas circunstâncias, mas unicamente em Deus e seus propósitos eternos. Faraó tem sua própria agenda para os israelitas, mas está em confronto com a agenda de Deus. Faraó vai se utilizar de seu poder para impor sua agenda aos israelitas, mas o poder de Deus é soberano. Faraó já perdeu, mas ainda não sabe disso. Deus fala através da boca do profeta Isaías: “Meu propósito permanecerá, e farei tudo o que me agrada” (46.10). A agenda de Deus para nossa vida prevalecerá, sobre o mundo e sobre Satanás.
Quão grande é o seu Deus?
Existe em toda a história um espetáculo mais surpreendente que o Êxodo? Uma revelação mais augusta e solene de Deus do que no Sinai? Uma peça de arquitetura mais significativa que o tabernáculo israelita? Uma figura humana maior que o homem Moisés? Uma época nacional mais influente do que a fundação da teocracia de Israel? Todos estes são encontrados neste segundo livro das Escrituras.
J Sidlow Baxter

Utilização livre desde que citando a fonte
Guedes, Ivan Pereira
Mestre em Ciências da Religião.
me.ivanguedes@gmail.com
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[1] Os filhos estão agrupados em relação às suas mães: primeiro os filhos das esposas oficiais (Lía e Raquel) e depois os filhos das servas (Bilá e Zilpá); dentro dos grupos segue a ordem de nascimento (cf. Gn 35.23-26).
[2] Atualmente, a generalidade dos estudiosos egípcios identifica esse faraó com Ramsés II, mas todas as condições da narrativa são cumpridas na pessoa de Amosis I (ou Aahmes), o chefe da 18ª Dinastia.