segunda-feira, 11 de setembro de 2023

Absalão e as Intrigas Palacianas no Reinado de Davi [Livro de Reis]

A leitura das narrativas históricas bíblicas pode ser tudo, menos monótona, nelas você encontra: amizade, lealdade, poder, traição, classe, ciúme, todas essas coisas sobre as quais tantos best sellers tratam. Todavia, uma das coisas mais extraordinárias das histórias bíblicas é que seus personagens não são fictícios, mas pessoas de carne e osso, pessoas que acertam e erram, de bom caráter e de caráter extremamente ruim. Absalão é uma das figuras mais intrigantes da narrativa veterotestamentária.

Não havia, porém, em todo o Israel homem tão belo e tão aprazível como Absalão;

desde a planta do pé até à cabeça não havia nele defeito algum 2Samuel 14.25.

Eles pegaram o corpo de Absalão e o atiraram numa cova;

sobre ela colocaram um monte de pedras 2Samuel 18.17.

Os dois textos destacados acima expressam toda contradição que envolve a vida deste homem. A narrativa envolvendo a vida dele (2 Samuel 15-18) revelam os bastidores palaciano do rei Davi. Um filho que recebeu todos os favores do pai, mas que por razões injustificáveis provoca uma das maiores rebeliões internas do reino de Israel. O contexto literário mais amplo (captos. 11-20) contém os ingredientes mais sórdidos registrados em toda as Escrituras.

Davi desde muito jovem esteve envolvido em questões complicadas, por muito tempo teve que viver como foragido, pois o rei Saul queria sua morte. Mas com certeza esse é o período mais conturbado de toda sua vida.

Absalão era o terceiro filho de Davi e certamente o mais popular entre a o povo.  Sua mãe também tinha descendência real – filha do rei Talmai de Gesur,[1] da região dos arameus, localizada ao norte de Israel, no lado oriental do chamado mar da Galileia[2]. Esse casamento de Davi, como tantos outros casamentos reais (Salomão que o diga), era uma fórmula de tratados internacionais entre respectivos governos.

Absalão é um típico exemplo daqueles que começam de forma excelente, mas acaba se perdendo e termina a vida de forma trágica. Como explicar isso?

Absalão é um personagem multifacetado: calculista e estrategista político, mas como todos possuía seu calcanhar de Aquiles. É tomado por forte indignação com o estupro violento de sua irmã Tamar, e a falta de atitude de seu pai: Davi que se recusa a disciplinar o agressor, Amnom (irmão mais velho de Absalão) e vai utilizar esta situação para produzir um dos maiores abalos sísmicos no reinado de Davi.

          Ainda que não justifique, os comportamentos anteriores de seu pai Davi explica muito as atitudes de Absalão. Há uma sequência calamitosa narrada no livro segundo Samuel (11-13).

Começa com o rei Davi se envolvendo com uma mulher casada e a engravidando e para piorar, tentando encobrir seus pecados acrescenta mais pecado ao tramar a morte de Urias, marido de Bate-Seba, colocando-o à frente da batalha para ser morto.

Mas Deus não passa a mão nem na cabeça daquele que é segundo Seu coração. O velho profeta Natã entra em cena e confronta o rei com seu pecado escandaloso. É mais ainda, anuncia que o “mal” brotara no próprio seio familiar de Davi.

Seguindo a narrativa de Samuel (2Sm 13), entra em cena Amnon, filho de Davi com a jezreelita chamada Ainoã (2Sm 3.2; 1Cr 3.1), em meio aos seus múltiplos casamentos (abertamente contrário aos princípios da Torah).

Amnon desenvolve uma paixão por sua meia-irmã (cujo irmão é Absalão), e o desfecho é terrível, pois ele acaba por violentar a jovem. As consequências deste ato condenável irão muito além da vingança pessoal por parte de Absalão, como fica evidente em suas palavras, comportamento e a ambiguidade na medida em que a história prossegue.

A vingança inicia-se com o dissimulado convite de Absalão ao seu irmão Amnon para um festival de tosquia de ovelhas, onde ele mata o irmão. Sabendo das consequências ele foge para casa de seu avô materno em Geshur, antigo desafeto de seu pai.

Davi decreta o exilio do filho, que fica proibido de retornar à Jerusalém. Mas uma trama sórdida elaborada por Joabe, um dos generais de Davi, consegue reverter o exilio de Absalão de maneira que ele pode retornar a capital do reino. Evidente que a reconciliação é fria e cautelosa por parte de Absalão, ainda que carregada de forte emoção por parte de Davi.

          As ações de Absalão são dissimuladas e carregadas de rancor e desejo de poder2Sm15-16. Nestes dois capítulos tomamos conhecimento das conspirações que impregnam o ar da cidade de Jerusalém. Nas sombras Absalão vai disseminando dúvidas sobre as condições de saúde do já envelhecido rei Davi e simultaneamente se colocando como a melhor opção de sucessão ao trono. Incendiado os corações das pessoas fica fácil para os apoiadores de plantão de Absalão o proclamarem rei.

          A eclosão desta revolta força Davi e seus aliados fieis a fazerem uma fuga estratégica na calada da noite. Ainda em fuga Davi é informado que um de seus velhos conselheiros, Aitofel, estava orientando o jovem Absalão. Mas Davi age rapidamente e introduz Hushai, o Arquita para neutralizar a influência de Aitofel no conselho dos sábios do jovem rei.

          Caminhamos rapidamente para o desfecho da rebelião de Absalão e seu trágico fim 2Sm 17-18. A estratégia de Davi em introduzir Hushai como uma espécie de conta-conspirador vai demonstrar ter sido correta e oportuna. Mas há um detalhe preponderante na reviravolta que ocorrera na trama. "Então Absalão e todos os homens de Israel disseram: 'O conselho de Hushai, o Arquita, é melhor do que o conselho de Aitofel'. Porque o SENHOR havia ordenado derrotar o bom conselho de Aitofel, para que o SENHOR trouxesse o mal sobre Absalão" (2Sm 17.14).

          Aqui temos o que é denominada de causalidade dupla, onde Deus age explicitamente em questões políticas. Aqui inicia-se a contra revolta que vai restituir o trono ao legitimo rei Davi. Os dois pivôs de toda esta rebelião morrem de forma similar: Aitofel se enforca antes do início da batalha que demarcara a reviravolta e Absalão, em fuga, será encontrado por soldados enroscado pelos cabelos nos ramos de uma grande árvore, sem poder livrar-se dela. Ali foi morto e jogado em uma cova comum, encoberto totalmente por pedras.

          Davi, o rei poeta de Israel, ao tomar conhecimento da morte de seu filho Absalão tem uma memorável e assombrosa reação, tomado por lágrimas amargas: "O rei entendeu as palavras do mensageiro e desandou a chorar. Saindo das portas da cidade, foi para o seu quarto chorando e clamando: "Meu filho Absalão, meu filho, meu filho Absalão! Se fosse possível eu daria a minha vida pela sua! Ah, Absalão, meu filho! Meu querido filho!" 2 Samuel 18.33.

          Aqui encontramos um espelho do comportamento humano de forma geral. Davi e suas relações familiares servem de alerta para todas as famílias. Somos responsabilizados pelas nossas escolhas e deliberações, bem como seus consequentes resultados. Mas para que não entremos em desespero, Deus em sua providência age em momentos chaves para que as nossas vidas não sejam despedaçadas, nos fornecendo um raio de esperança em vez de desespero final.

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Guedes, Ivan Pereira
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Referências Bibliográficas

ARNOLD, Bill. T. e BEYER, Bryan E. Descobrindo o Antigo Testamento – uma perspectiva cristã. Tradução Suzana Klassen. São Paulo. Cultura Cristã, 2001.
BRIGTH, Jonh. História de Israel. 7ª. ed. São Paulo. Paulus, 2003.
CASTEL, Francois. Historia de Israel y de Judá. Desde los orígenes hasta el siglo II d.C. Estella. Editorial Verbo Divio, 1998.

CHAMPLIN, Russell Norman. Enciclopédia de Bíblia, Teologia e Filosofia. São Paulo: Hagnos, 2006, 8ª ed.

CURTIS, Adrian. Oxford Bible Atlas. Oxford University Press, 2009.

DOUGLAS, J. D. O Novo Dicionário da Bíblia. São Paulo: Vida Nova, 1995.

DRANE, John (Org.) Enciclopédia da Bíblia. Tradução Barbara Theoto Lambert. São Paulo: Edições Paulinas e Edições Loyola, 2009.

GARDNER, Paul (Editor). Quem é quem na bíblia sagrada – a história de todos os personagens da bíblia. Tradução de Josué Ribeiro. São Paulo. Vida, 1999.
HALLEY, H. Manual Bíblico. São Paulo: Sociedade Religiosa Edições Nova Vida, 1983.

HOFF, Paul. Os livros históricos. São Paulo. Vida, 1996.

TENNEY, Merrill C. (Org.). Enciclopédia da Bíblia. São Paulo: Cultura Cristã, 2008.




[1] Ele havia sido um dos inimigos de Davi, mas acabou por se render ao rei israelita.

[2] Na verdade, trata-se de um imenso lago e uma das maiores fontes de peixes e renda da região. 


domingo, 10 de setembro de 2023

Geografia Bíblica: O Papel Relevante da Agricultura e Pecuária na Sociedade e na Religião Israelitas

          O primeiro livro da bíblia, Gênesis, abre com os atos criadores de Deus. Somente depois de ter criado todo o sistema é que Ele cria o ser humano e os coloca em um Jardim autossuficiente. Mas no capítulo três o ser humano rompe com Deus e é lançado em um mundo hostil e perigoso no qual o ser humano terá que enfrentar a cada dia seu desafio.

          A partir do capítulo três de Gênesis Deus inicia seu Projeto Redentivo que vai possibilitar o ser humano se reconciliar com Ele. Ainda no primeiro livro Deus chama Abraão (Abrão) e estabelece com ele uma Aliança na qual há promessa de que através dele uma nação extremamente numerosa se formará ao longo dos tempos e que eles receberiam também uma terra onde pudessem viver Gênesis 15.18-21.

Desta forma, quando Deus estabeleceu o sistema sacrificial descrito em Levítico como meio pelo qual eles deveriam se relacionar corretamente com Deus, bem como tipos do sacrifício perfeito de Cristo em tempo futuro.

Tudo que era necessário para os diversos sacrifícios levítico estava acessível a todos os israelitas. Animais como ovelhas, cabras, touros ou bois (e em menor grau em pombas ou passarinhos) e distinguidos entre animais “limpos” e animais “impuros” que eram impróprias para consumo ou sacrifício. A obediência às leis sacrificiais demarca a fé e fidelidade do povo para com seu Deus.

Os profetas estão sempre corrigindo a nação pelo descaso com que em determinados períodos tratavam a questão dos sacrifícios, não apenas por deixarem de oferecerem as ofertas ou por utilizarem animais inapropriados, mas acima de tudo por fazeres sacrifícios sem o devido compromisso de fé e obediência às demais normativas estabelecidas na Lei.

O profeta Isaias fala que a fumaça e o cheiro de seus sacrifícios estavam provocando ânsia de vômito em Deus, pois não havia fé e lealdade deles, eram apenas rituais sanguinários sem qualquer compromisso de lealdade da parte deles Isaías 1.10-17. Seria como se eles estivessem subornando a Deus, para continuarem pecando licenciosamente.  

Outros elementos importantes envolvem o calendário festivo do AT, que conecta eventos específicos na história da salvação de Israel com os diversos ciclos agrícolas. Ao longo de todo o período descrito nos livros históricos, existe uma tensão permanente entre a verdadeira adoração de Yahweh, estabelecida nas normativas levíticas, e a adoração idólatra de Baal, predominante na Síria-Palestina, que também tinham seus deuses ligados à natureza.

As promessas de Deus que a terra que haveriam de receber por graça (sem terem feito algo por merecer) eram abundantemente férteis podem serem comprovadas na formação geográfica, pois desempenham um papel importante na formação dos padrões agrícolas e socioculturais israelitas. A interação entre planícies e terras altas, com suas determinadas sazonais climáticas, são fundamentais para o desenvolvimento da agropecuária de subsistência.

No período da monarquia vemos um ponto de inflexão na agricultura e pecuária israelitas. Primeiramente há os avanços tecnológicos do período particular no início da Idade do Ferro, mas também as mudanças organizacionais e ideológicas decorrentes de uma administração centralizada baseada no domínio dinástico e que por decorrência passam a interferir tremendamente na produção e distribuição de alimentos.

Na leitura dos textos bíblicos percebemos vislumbres interessantes dessas mudanças. Já no princípio do período formativo da monarquia, nota-se uma mudança no status de animais (como mulas e cavalos de carruagem), que estão ausentes no período tribal dos tempos pré-monárquicos. As disciplinas como iconografia, paleozoologia e paleobotânica fornecem insights uteis para ajudar o estudante a entender o texto bíblico em suas verdadeiras dimensões culturais, históricas e religiosas.

Pois os israelitas, como todo nós, vivenciavam as duas dimensões: teológica no que tange sua relação com Deus, bem como o cotidiano real, com vínculos genuínos com seus vizinhos e em lugares, climas e culturas materiais concretas. O que a literatura bíblica histórica nos ensina é que não se deve viver estas duas realidades distintamente, mas de forma amalgamada. Tudo que se faz no cotidiano deve ser vinculado ao relacionamento com Deus e o reverso é tão verdadeiro quanto, pois o relacionamento espiritual correto com Deus deve ser espelhado no vivencial cotidiano. Uma dicotomia destas duas dimensões jamais foi proposta por Deus que é o autor de toda a Criação. E uma das mais lindas promessas escatológicas bíblicas é que no retorno do Cristo ressurreto, haverá uma Nova Criação e o ser humano voltara a experimentar a plenitude da harmonia com a natureza, e o apostolo Paulo declara que a própria Criação anseia por este tempo Romanos 8.22-28; 2 Coríntios 5.17 (provavelmente muito mais do que muitos pseudos cristãos ditos ecológicos).

 

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Guedes, Ivan Pereira
Mestre em Ciências da Religião.
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quinta-feira, 7 de setembro de 2023

Você é o que Você Come

 

          Evidente que como toda frase a escolhida para este artigo pode incorrer em muitas variantes interpretativas. Todavia, partindo do sentido mais simples, de fato a nossa alimentação tem forte influência em nossa dinâmica de vida.

          Quanto mais criteriosa e bem elaborada a nossa alimentação for mais possibilidade de uma vida equilibrada e saudável nós teremos. O contrário igualmente verdadeiro, pois a ausência de critérios e até mesmo bom senso em nossa alimentação, as possibilidades de incorrermos em graves problemas de saúde aumentam substancialmente.

          A nossa vida espiritual também reflete em muito o que comemos. Se ingerimos apenas os alimentos mediáticos que nos são oferecidos sem quaisquer critérios, certamente haveremos de trazer sérios danos à nossa espiritualidade.

          O melhor e mais saudável cardápio que temos à nossa disposição diariamente é a Palavra de Deus. Todo alimento que a Bíblia nos oferece, mesmo aqueles que são amargos até aqueles que são doces do que o mel, são necessários para o desenvolvimento saudável da nossa vida cristã.

          O profeta Oséias em seus dias (8ºséc. antes de Cristo) já alertava os seus ouvintes (israelitas) do dano irreparável que traziam a si mesmos por não degustarem diariamente a Lei do Senhor. O Salmista coloca em centenas de versos o seu prazer em se alimentar continuamente do ensino proveniente das Escrituras.

          A daqueles que viveram nos dias do Antigo Testamento, assim como todo cristão que vivem no contexto do Novo Testamento é nutrida em sua essência e pureza pela Palavra de Deus. Um dos grandes e extraordinários gritos da Reforma Protestante (séc. 16) foi: SOMENTE AS ESCRITURAS!

          Mas temos tido fome e sede da Palavra de Deus? Ou temos nos contentado com “as finas iguarias do rei”? Daniel 1.8. Que tipo de vida cristã queremos ter? Em que condicionamento espiritual queremos viver? Obesa, raquítica ou saudável? Daniel e seus amigos optaram (não havia ninguém que os coagisse – pai, mãe, pastor, igreja) por se alimentarem daquilo que lhes fortaleceria a fé e a sua comunhão com Deus.

Mas não basta apenas escolhermos criteriosamente o que comemos, é preciso também reaprendermos a comermos corretamente. Vivemos os dias do “fast food” – comida rápida, instantânea). Há muito tempo estamos perdendo o prazer e alegria de usufruirmos uma boa refeição – mesmo que seja aquelas mais simples imaginável. Aquele momento especial, quando paramos as demais atividades e nos concentramos apenas e tão somente em degustarmos sozinhos, mas de preferência com outras pessoas (família, amigos) uma refeição singela e saborosa. Sentirmos os aromas e sabores dos alimentos preparados.

Quando comecei a trabalhar em uma empresa eu optava em fazer um percurso bem mais longo, mas que me permitia passar no meio do Mercado Municipal de SP. Sentir logo pela manhã todos aqueles aromas exalados das mais variadas frutas tropicais eram imensamente prazerosos e motivacionais para o restante de meu dia.

O que desejo expressar é que não basta apenas ler e estudar a bíblia, é igualmente necessário sentir seus aromas e seus sabores. É preciso apreciá-la, degustá-la de forma que ao final da refeição (leitura) possamos nos sentirmos totalmente satisfeitos e igualmente motivados para colocarmos tudo que ela nos ensina em prática. A leitura abençoada e abençoadora da Bíblia é a leitura vivencial – essa é a figueira que produz frutos de boa qualidade e em abundância – infelizmente muitas (se não a maioria) de nossas leituras bíblicas só produzem lindas e enganosas folhagens, mas nenhum fruto.

Na abertura do Saltério (conjunto dos 150 salmos bíblicos) é nos apresentado duas formas de vivermos: comendo o que os pecadores, escarnecedores e ímpios comem; ou comendo o que a Palavra de Deus nos oferece. Mas há um detalhe importante nesta alimentação bíblica: “ruminando/degustando de dia e de noite” – é preciso ruminar/degustar os textos bíblicos – extrair de cada leitura (breve ou longa) tudo que ela nos oferece de bom, santo e agradável. A melhor leitura é aquela que nos deixa plenamente satisfeitos – a ponto de não precisarmos de mais nada.

Imaginemos por alguns segundos uma maioria de cristãos se alimentando desta forma. O que mais haveríamos de querer? Nenhuma das iguarias da mesa farta e colorida do mundo nos atrairia. Quando estamos plenamente satisfeitos nenhum outro alimento desperta nosso desejo.

A razão da crise do salmista (narrada por ele mesmo no salmo 73) estava no fato de que ele deixou de se saciar plenamente na Palavra de Deus e na sua fome crescente ele começou a desejar o que os ímpios comem (prazer, bens e riquezas) e isso não apenas o entristeceu como também o levou a questionar seu próprio relacionamento com Deus – será que vale a pena?

Mas quando Deus graciosamente o conduziu ao fim de todas as coisas e ele pode contemplar o final do justo e o final do ímpio – ele faz uma celebre declaração: “o Senhor é o meu bem maior” – somente em Ti sou plenamente saciado.

          Corroborando as palavras do salmista acima, Jesus conta uma história (parábola) de um homem muito, muito rico e de um mendigo miseravelmente pobre – que vivia das migalhas da mesa do rico. Asafe se sentiu assim diante da prosperidade dos ímpios (e nós também).

          Mas Jesus continua a história – o mendigo Lazaro morreu; mas algum tempo depois igualmente morreu o rico Lucas 16.19-31. E a história continua: Lazaro estava no seio de Abraão (figura de linguagem que representa o céu) e o rico estava no lugar de sofrimento e tormenta (conhecido também por inferno). Aplicando para a nossa leitura devocional: você não é apenas o que come, mas o que você come vai implicar em seu estado final.  

          Jesus deixou bem claro: “Nem só de pão vivera o ser humano, mas de tudo aquilo que sai da boca de Deus (a Palavra de Deus)”. Paulo entendeu corretamente essa verdade e coloca com outras palavras: “posso comer de tudo que me é oferecido por este mundo, mas certamente nem tudo me fará bem”.

Daniel e seus amigos poderiam comer de todas as iguarias dos banquetes reais? Sim! 

MAS ELES OPTARAM POR SE ALIMENTAREM DA PALAVRA DE DEUS!

E você, do que tem se alimentado?

 

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segunda-feira, 4 de setembro de 2023

O ARCO ÍRIS É NOSSO!

 


       Uma das marcas distintivas do inferno é se apropriar daquilo que não é dele e travesti-lo de um sentido totalmente antagônico.

       Está tática milenar fica escancarada na tentação de Jesus, quando o diabo oferece os “reinos deste mundo” desde que Jesus se prostre diante dele. Desde quando o diabo é dono de alguma coisa? Nem o inferno é dele, pois o inferno não é o “reino dele”, mas sim sua prisão eterna. Ele não vai para o inferno por escolha dele, ele será “amarrado e lançado naquele lugar de tormentos eternos”.

       Há muito tempo satanás através do secularismo materialista vem saqueando o Natal e o transformando em uma mera festa consumista, com a complacência do evangelicalismo nominalista destes últimos séculos. Em um determinado canal da televisão é possível assistirmos cinquenta filmes de Natal onde o nome de Jesus Cristo não é mencionado uma única vez.

       A Páscoa não ficou imune a esta degenerativa estratégia infernal. Transformar a maior e mais extraordinária demonstração do amor de Deus pelos pecadores em um evento cinematográfico que se tem seduzido os olhos, igualmente tem esvaziado os corações do significado profundo e eterno do sacrifício perfeito de Jesus Cristo no calvário. Se um ou outro filme foi feito com algum critério e respeito aos registros evangélicos, em sua esmagadora maioria a mensagem da cruz fica totalmente desfocada. O apostolo Paulo certamente colocaria o carimbo de anátema nestas pseudas películas cinematográficas.

O Arco Íris

       Atualmente um determinado segmento social surrupiou (um termo ameno) para si o símbolo do Arco Íris. Todavia, esse símbolo, o primeiro a ser estabelecido por Deus nas Escrituras, tem um significado extraordinariamente lindo e que em hipótese alguma se ajusta aos princípios devassos de seus surripiadores. Ao contrário, o Arco Íris representa tudo que Deus condena e a razão pela qual a maior e mais contundente manifesta da ira de Deus foi manifestada sobre toda a Criação.

       As gerações de Noé e seus contemporâneos chegaram a um grau de depravação e afronta a Deus que o único meio de reestabelecer os princípios básicos para o qual a Criação e a raça humana vieram a existir foi o dilúvio global. Todos pereceram e uma nova humanidade é constituída através das gerações de Noé.

       Todavia, Deus estabelece uma aliança com Noé de que se comprometia a não mais destruir a raça humana através de um novo dilúvio. E como sinal desta aliança Ele coloca no céu de forma visível um Arco Íris como testemunha permanente. Desta forma todas as vezes que o Arco Íris surge devemos nos lembrar da verdade constituída de duas verdades imutáveis: Deus repudia toda sorte de ações pecaminosas (em todas as suas expressões), mas Ele mesmo haveria de providenciar uma forma de restaurar definitivamente sua Criação e o próprio ser humano (criado à sua imagem e semelhança) – Jesus Cristo.

       O que se constitui em uma das mais belas profecias messiânicas, a promessa de um Salvador definitivo, tem sido completamente deformado pela mentalidade deturpada de uma minoria, sustentada e divulgada por um sistema mediático totalmente impregnado de semelhante disfunção mental em um pseudo símbolo de suas opções totalmente antagônicas à simbologia bíblica.

       A título de ilustração seria como pegar uma pintura clássica e jogar nela toda sorte de pinceladas de tintas aleatória, descaracterizando por completo o propósito e a razão pela qual o pintor original a fez.

       Os que assim agem, não o fazem aleatoriamente, mas dentro de um projeto de desconstrução dos símbolos bíblicos cristãos, confundindo as mentes mais frágeis e seduzindo ilusoriamente as mentes daqueles que anseiam por encontrar respaldo por seus desvarios e desvirtudes. Não são capazes de assumirem por si mesmos seus comportamentos antagônicos à sua própria natureza e tentam desesperadamente validá-los com argumentos falaciosos. O fato de ser colocar uma roupa linda em um porco, não transforma a natureza do porco, pois ele continuara e morrera como um porco. O fato de surrupiar símbolos bíblico cristão não muda absolutamente nada no que tange à natureza depravada daqueles que o tem feito. O comportamento pecaminoso continuará sendo pecaminoso e o resultado final não será outro a não ser aquele que está estabelecido nas Escrituras – “o resultado de todo pecado é a morte eterna”.

       Todas as pessoas são livres para fazerem suas opções, mas todas elas também devem estar plenamente conscientes das consequências eternas de suas escolhas. O que é inadmissível é aqueles que se dizem defensores da liberdade de expressão surrupiar símbolos bíblico-cristão e quererem calar aqueles que creem e defende estes símbolos como parte integral da revelação normativa de Deus.

       Portanto afirmo e reafirmo que o Arco Íris é nosso – de todo aquele que crê na Bíblia (em sua totalidade) como Palavra inspirada e inerrante de Deus; crê que os símbolos estabelecidos nestas Escrituras apontam para Jesus Cristo como aquele pelo qual o ser humano morto em seus delitos e pecados, pela fé, pode ser revivificado e plenamente perdoado para uma nova vida de santidade e comunhão com um Deus totalmente santo.   

Maranata! Oh! Vem Senhor Jesus!

 

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Guedes, Ivan Pereira
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domingo, 3 de setembro de 2023

Hermenêutica: Síntese do Desenvolvimento Histórico

 


A hermenêutica bíblica é o método que se utiliza para a interpretação dos textos bíblicos. Ela preenche as lacunas entre os leitores atuais da Bíblia, seu público original (quem os leu pela primeira vez) e Deus como o autor final.

Todas as vezes que alguém lê um texto bíblico ou prepara uma pregação ou aula bíblica, ele consciente ou inconscientemente utiliza algum método hermenêutico, ou seja, interpreta para si mesmo ou para outros o que entende ser o sentido do texto.

Desta forma é possível afirmar que a hermenêutica é fundamental para o estudo correto das Escrituras. Portanto, fazer uso de uma hermenêutica correta faz toda diferença, pois um mesmo texto bíblico pode ser interpretado de múltiplas formas e oferecer conclusões completamente antagônicas. Sem métodos eficazes (e fiéis) de interpretação, ficamos reféns das imaginações férteis dos intérpretes. Um método correto e honesto de hermenêutica realmente importa e faz toda a diferença.  

Abaixo cito de forma muito (e coloca muito nisso) suscinto o desenvolvimento da hermenêutica ao longo da História Cristã.

Período Bíblico

Os próprios escritores bíblicos desenvolveram uma forma hermenêutica de interpretação dos registros e acontecimentos nos quais estavam envolvidos ou tomaram conhecimento. Em suas correspondências Paulo e Pedro fazem referências aos textos dos escritores veterotestamentários. Pedro se referiu a Isaías 40.7–8 em 1Pedro 1.24–25. Suas estratégias interpretativas têm impactado na hermenêutica futura na igreja.

"No Antigo Testamento, os últimos escritos, como os Salmos e os Profetas, reinterpretam a história de Israel apresentada na Torá, e o Novo Testamento continua a reinterpretar essa história contínua à luz da vida, morte e ressurreição de Jesus Cristo (uma abordagem que os estudiosos históricos redentores posteriores se apropriariam)" (PORTER, 2012).

Mesmo sem um consenso no que tange ao método utilizado por Jesus e posteriormente pelos escritores neotestamentários sobre qual tenha sido a metodologia deles, isto não é um mistério indecifrável, visto que eles estavam familiarizados com os métodos judaicos de interpretação de textos. O diferencial é que Jesus aplica o texto a si mesmo e os demais escritores aplicam em relação a ele.  Podemos citar a título de ilustração dois grandes exemplos em que o autor de Hebreus interpreta a pessoa e a obra de Cristo: Melquisedeque, rei-sacerdote de Salém (Gn 14.17ss.; Hebreus 7), e a obra do sacerdócio levítico como um todo (Hebreus 8-10).

Período da Patrística

Os chamados pais da igreja primitiva, líderes e pregadores subsequentes ao período apostólico, ainda que tenham formulado todo o arcabouço interpretativo teológico das Escrituras, que nortearam e impactaram sobre todos os períodos posteriores da igreja, não foram uniformes em sua hermenêutica. Duas escolas interpretativas dominaram a época.

A escola alexandrina era centrada em uma das cidades mais cultas do Império Romano, Alexandria, Egito, portanto, fortemente influenciada pela filosofia platônica que utilizava o método alegórico de interpretação. Construídos sobre uma visão de mundo que via o mundo físico como uma sombra do espiritual, os intérpretes alexandrinos viam a Bíblia apontando não para o sentido literal, mas para verdades espirituais (ou alegóricas) mais profundas.

Por sua vez, fazendo um contraponto, a escola de Antioquia focou sua abordagem na leitura literal do texto. A leitura espiritual do texto, acreditavam, deveria partir da leitura literal e nunca o contrário. A escola de Antioquia insistiu na realidade histórica da revelação bíblica. Eles não estavam dispostos a perdê-lo num mundo de símbolos e sombras. Se os alexandrinos utilizavam a perspectiva de Platão, os de Antioquia utilizava o arcabouço de Aristóteles. Ainda hoje estas duas escolas influencia os mais diversos intérpretes bíblicos.

Um pequeno exemplo da escola antioquiana é a de Teodoro de Mopsuéstia que faz uma distinção entre as profecias genuinamente messiânicas e aquelas que são inteiramente históricas. Também afirma que somente os Salmos 2, 8, 45 e 110 fazem de fato referências diretas ao Messias e podem ser aplicadas literalmente a Jesus Cristo. Ao menos dois manuais hermenêuticos foram produzidos dentro desta perspectiva -  “Instrução às Escrituras Divinas” de Adriano (425) onde ele conclui que há duas formas de textos nas Escrituras – profético e histórico – e cada um tem seu próprio propósito e para interpretá-los corretamente é preciso uma intepretação literal, e somente então procurar uma compreensão mais profunda e/ou espiritual.  

Período Medieval

Há pouco na interpretação medieval que seja surpreendentemente novo. No que se refere à hermenêutica, a Idade Média é um período de transição, onde as antigas tradições patrísticas foram preservadas e utilizadas. Muito utilizada inicialmente foi a forma de “Catena”,[1] onde uma cadeia de interpretações era reunida a partir dos comentários produzidos pelos Pais, onde um intérprete autorizado era seguido e extratos de outros intérpretes eram adicionados. O objetivo era preservar a tradição exegética. Um exemplo é Catena do evangelho Mateus onde Tomás de Aquino reúne textos patrísticos referentes ao Evangelho de Mateus ( 57 autores gregos e 22 latinos).

Um expoente deste período é Agostinho através de seu livro “Sobre o Ensino Cristão (ou Sobre a Doutrina Cristã)” cujo subtítulo era (Manual de exegese e formação cristã), publicado no final do século 4 e início do século 5 d.C. tornou-se o referencial hermenêutico para o período medieval. Suas regras interpretativas ainda são consideras apropriadas na hermenêutica bíblica no século 21. Por exemplo, ele escreveu que os alunos da Bíblia deveriam: “Interpretar textos obscuros à luz de textos claros; Aplicar o conhecimento secular à interpretação bíblica quando possível; Determinar os sentidos literal e figurativo da passagem”.

Período da Reforma

A hermenêutica tornou-se um eixo fundamental na exposição bíblica dos reformadores, alguns até entendem que a verdadeira reforma foi hermenêutica, mais do que eclesiástica ou social, como defende Bernard Ramm: “Embora os historiadores admitam que o Ocidente estava maduro para a Reforma devido a várias forças em ação na cultura europeia, houve, no entanto, uma Reforma hermenêutica que precedeu a Reforma eclesiástica” (1970, p. 51-52).

          A hermenêutica reformada era indutiva e orientada para a fé, uma vez que a razão não tem o monopólio na interpretação bíblica, que é a marca distintiva de todas as demais literaturas. Os reformadores não renunciaram ao “poder iluminador do Espírito Santo” em todo o processo interpretativo das Escrituras.

          Para os reformadores a Bíblia não era um dos pilares da fé cristã, mas o único fundamento que a mantinha em pé, pois a igreja não se constituía no arbítrio das Escrituras, mas as Escrituras se constituem no juiz da igreja. As palavras de Lutero, quando de sua defesa, são incisivas: “Nenhum cristão pode ser forçado a reconhecer qualquer outra autoridade além da sagrada escritura, que é exclusivamente investida de autoridade divina”. Suas palavras se constituem em uma das maiores rupturas dos sistemas teológicos anteriores. Vai muito além de combater indulgências, mas vai no cerne da questão – as Escrituras e somente as Escrituras tem autoridade, todas as demais são derivativas e qualquer que não estiver em plena conciliação com as Escrituras devem ser rejeitadas completamente.

          Após seu rompimento definitivo da Igreja Romana, ele deixa de fazer uso da alegorização para interpretação bíblica e passa a insistir na necessidade de se encontrar “um sentido simples e sólido” para interpretação e exposição da pregação. Para isso, há uma necessidade de uma compreensão histórica contextual do escritor bíblico, como desta no seu prefácio do comentário a Isaías, para se encontrar o sentido primário do texto.

          Mas esta interpretação histórica e gramatical não se constitui em um fim em si, mas um meio para a compreensão de Cristo que demarca todas as literaturas bíblicas, pois Cristo é o ponto central convergente de toda a Bíblia.  

          João Calvino, em sua Institutas da Religião Cristã, expõe sua tese de exegese, rejeitando o uso da alegorização na formulação doutrinaria dogmática, declarando que todo crente tem autoridade para interpretar as escrituras, quando estão em plena harmonia com sua origem divina, como se estivessem ouvindo palavras pronunciadas pelo próprio Deus. A Bíblia possui um padrão ao mesmo tempo objetivo e subjetivo, pois nela e através dela o próprio Deus fala ao coração humano. A Bíblia se autentica.

Sinteticamente ao menos quatro princípios reformados se contrapunham à hermenêutica católica romana:

O foco das Escrituras estava em Cristo, não na igreja nem no homem.

O propósito final da Bíblia era a salvação, não o conhecimento.

A base para a doutrina e prática cristã era somente a Bíblia.

A autoridade para interpretar a Bíblia estava no indivíduo.[2]

Período Pós-Reforma

O racionalismo academicista foi se apossando da hermenêutica bíblica e como um Jack Estripador foi desmembrando-a por completo, no transcorrer dos séculos 17 e seguintes.

Em seu livro do início do século 18, Jean-Alphonse Turretin ilustrou algumas dessas abordagens racionalistas relacionados à exegese e interpretação bíblicas:[3]

Deve-se interpretar as Escrituras como qualquer outro livro.

Os intérpretes devem dar atenção às palavras e expressões da Bíblia.

O objetivo da exegese bíblica é compreender o propósito do autor no seu contexto.

O intérprete deve usar a razão para entender a Bíblia.

Os intérpretes bíblicos devem entender os autores originais do texto em seus próprios termos contextuais.

Período Moderno

A partir de 1800 até os dias atuais a chamada hermenêutica moderna, particularmente entre os diversos ramos protestantes, de forma genérica pode ser dividida entre uma proposta de uma hermenêutica conservadora (ou mesmo fundamentalista) e liberais.

Um exemplo desta fase é "Escola de Princeton" que nasce no Seminário Teológico de Princeton e, mais tarde, do Seminário Teológico de Westminster, um esforço em um retorno ao calvinismo e às raízes reformadoras do protestantismo. A base é fundamentada na filosofia escocesa do senso comum. Para eles a autoridade bíblica é decorrente do fato de que a indução empírica é a fonte primária da verdade pois as pessoas possuem absolutos morais. Desta forma o estudioso das Escrituras é semelhante um mineiro em busca constante de pepitas preciosas.

O fundamentalismo surge no início do século 20 trazendo em seu bojo uma abordagem literal e dispensacional para interpretar as Escrituras, onde a História humana é dividida em sete períodos (ou dispensações), desta forma toda interpretação bíblica fica subordinada aos respectivos períodos históricos.

A teologia liberal clássica vai surgir no final do século 19 e início do século 20 em um esforço, não amigável, de harmonizar (na verdade subordinar) a Bíblia com novos avanços científicos. Desta forma toda e quaisquer registros bíblicos sobrenaturais devem ser comprovados pelas ciências.

Ricardo Gouveia sintetiza bem esta forma de pensar:

“A razão deveria julgar o que é aceitável, ou não, que se creia sobre Deus, e substituindo a revelação e a tradição, tornou-se o novo árbitro da verdade. O homem se viu capaz de entender a ordem fundamental do universo, e os Princípios newtonianos simbolizaram essa nova era. As leis da natureza tornaram-se inteligíveis, e o homem se viu capaz de dominar e transformar o mundo. O ideal científico determinou que apenas os aspectos mensuráveis da vida e do cosmos deviam ser tratados como reais. Não apenas as ciências naturais, mas também a política, a ética, a metafísica e a teologia teriam que se submeter à rigidez dos cânones científicos.” (GOUVEIA; 1996, p.60-61).

Desta forma toda cosmovisão e interpretação bíblica é afetada e dá origem a uma nova reinterpretação das Escrituras, surgindo um novo paradigma hermenêutico de estudos teológicos: o Método Histórico-Crítico. As Escrituras não é mais considerada como Revelação-Inspiração divina, mas somente como um livro de origem humana, e que deveria ser examinado como qualquer outro, admitindo erros, falhas, imprecisões, inverdades, mentiras piedosas, pseudonímia e mitos nas páginas do AT e do NT.

 

Utilização livre desde que citando a fonte
Guedes, Ivan Pereira
Mestre em Ciências da Religião.
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Referências Bibliográficas

AGOSTINHO. A doutrina cristã – Manual de exegese e formação cristã. São Paulo: Paulus, 2002. (Coleção Patrística, n. 17).

FARRAR, Frederic. History of interpretation. New York: Dutton, 1886

FEE, Gordon D. & Douglas Stuart. Entendes o que lês? Traduzido por Gordon Chown. São Paulo: Vida Nova, 2002.

GOUVÊA, Ricardo Quadros. A Arte moderna e a morte de uma cultura: quão

pós-moderno é o pós-modernismo? em Fides Reformata 1/2 (1996). MAackinnon J., Calvin and the Reformation. Longmans, Green and Co. New York, 1936.

PORTER, Stanley E. and STOVELL, Beth M. Biblical hermeneutics: five views: Biblical hermeneutics: five views. InterVarsity Press, 2012.

RAMM, Bernard. Protestant biblical interpretation – a textbook of hetics. Baker Book House. Grand Rapids, Michigan, 1970. [Third Revised Edition].

SIFOLELI, Israel. Manual de Hermenêutica bíblica. São Paulo, Fonte Editorial, 2016.

TURRETIN, Jean-Alphonse. De Sacrae Scripturae Interpretandae Methodo Tractatus.


[1] Uma catena (do latim catena, uma corrente) é uma forma de comentário bíblico, versículo por versículo, composta inteiramente de trechos de comentaristas bíblicos anteriores, cada um introduzido com o nome do autor, e com pequenos ajustes de palavras para permitir que o todo forme um comentário contínuo.

[2] Infelizmente os Evangélicos foram abandonando um a um destes princípios, substituindo por outros completamente nocivos à genuína interpretação bíblica e por consequência da própria essência da fé cristã.

[3] TURRETIN, Jean-Alphonse. De Sacrae Scripturae Interpretandae Methodo Tractatus.