terça-feira, 19 de março de 2019

Pequenas Reflexões: Como Conhecer a Deus?



 “Diz o insensato no seu coração: Não há Deus ...” (Salmos 14. 1).
Os ateus afirmam que não há Deus porque eles não podem vê-lo. Como cristãos temos que admitir que nunca vimos Deus face a face e nunca ouvimos Deus falar audivelmente para nós, então como podemos vê-lo ou conhece-Lo?
Consideremos o seguinte: coletamos dados tangíveis por meio de cinco “portas” diferentes: olhos, orelhas, nariz, papilas gustativas e o tato o qual percebemos pelo toque. No entanto, a capacidade dessas “portas” é limitada: os dados de uma determinada fonte não podem ser coletados através de todas as cinco “portas”. Por exemplo, você não consegue sentir o cheiro desse site, ainda que você possa vê-lo; Nós somos incapazes de provar (sentir/degustar) vozes ou ver o ar, mas eles existem! Nossos ouvidos não podem ouvir a gravidade, ainda que ela seja uma realidade. Não podemos tocar a galáxia da Via Láctea, mas ela está lá fora e com um potente telescópio é possível vê-la a milhões de anos luz.
Através dos nossos sentidos temos acesso e interagimos como o nosso ambiente natural, mas e as coisas invisíveis? Valores e Ideias? Sentimentos? Estes são intangíveis, não físicos, mas eles existem você concorda?
Desta forma, assim como não podemos perceber (sentir, tocar) nossas ideias, valores e sentimentos através dessas cinco “portas”, também elas são insuficientes para conhecermos Deus! Deus existe porque vemos Deus através de outra porta - os olhos espirituais, os olhos da fé.
Sem a fé estamos totalmente incapacitados de conhecermos Deus, mesmo que Ele esteja plenamente revelado na Criação, como tão bem escreveu o apóstolo Paulo: Desde os primeiros tempos os homens viram a terra, o céu e tudo quanto Deus fez, tendo conhecido sua existência e seu grande e eterno poder. Assim, eles não terão desculpa alguma (quando estiverem diante de Deus no Dia do Juízo). Sim, eles bem sabiam de Deus, mas não admitiram, nem O adoraram, nem mesmo agradeceram a Ele todo o seu cuidado diário. E, depois, começaram a fazer ideias tolas de como Deus seria e o que Ele queria que eles fizessem. O resultado foi que suas mentes insensatas ficaram confusas e em trevas (Romanos 1.20,21).
O mais importante aqui é o fato de a Bíblia diz que Deus é nosso Criador. Se Deus não existe, então nós também não existimos! Independentemente de querermos ou não acreditar nisso, o fato é que há um Deus Criador e a Criação é testemunho permanente. Deus não está longe de cada um de nós, para que possamos conhecê-lo, pois Ele mesmo abriu uma Porta imensurável e que ninguém pode fechar – Jesus Cristo: Eu Sou a porta. Qualquer pessoa que entrar por mim será salva [conhecerá a Deus]”. Você quer conhecer a Deus?
As grutas, as rochas imensas,
Dos mundos o grande esplendor,
Proclamam bem alto, constantes
Um hino ao teu nome, Senhor!
Nos céus e no mar e na terra,
Nos bosques, nos prados em flor,
No fragoso alcantil, na amplitude celeste,
Um hino ressoa ao Senhor!
Nos céus, as estrelas brilhantes,
Dos mares o grande fragor,
E as brisas entoam, ridentes,
Um hino ao teu nome, Senhor!
As aves alegres, na mata,
Por entre as ramagens em flor,
Exultam em coro, cantando
Um hino ao teu nome, Senhor!
E tu, pecador que vagueias,
Que fazes ao teu Criador?
Não achas momento em que cantes
Um hino de glória ao Senhor!
(Um hino ao Senhor – Hinário Novo Cântico nº 27)

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Guedes, Ivan Pereira
Mestre em Ciências da Religião.
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sábado, 16 de março de 2019

Jesus Cristo no Livro de Atos



            Há uma ideia equivocada de que o ministério do Senhor Jesus Cristo se encerrou após sua ascensão, conforme registrado nas narrativas evangélicas. Aqui temos a relevância do segundo volume escrito por Lucas - Atos – onde ele ainda nas primeiras linhas esclarece esta questão afirmando que se no primeiro volume (evangelho) trata de tudo quanto Jesus Cristo havia ensinado e realizado, neste segundo volume (Atos) ele vai tratar do que Jesus continuou a ensinar e fazer de uma forma muito mais completa.  
Jesus Ressurreto
            Os evangelistas narram as atividades do Jesus encarnado que viveu entre o povo manifestando a glória de Deus (Pai), mas em Atos temos a narrativa da perspectiva do Jesus ressurreto; por quarenta (tempo completo, de maturação) dias Jesus convive com seus discípulos para que não pairasse qualquer duvida de que era Ele mesmo: “Durante os 40 dias depois da sua crucificação Ele havia aparecido aos apóstolos diversas vezes em forma humana e provado para eles de muitas maneiras que era realmente Ele que estava ali. Nessas ocasiões falou a respeito do Reino de Deus” (At 1.3 – Bíblia Viva). O propósito de Jesus não era acrescentar qualquer outro ensino ou fazer qualquer outro milagre, mas seu objetivo neste curto período de convivência com os discípulos era tão somente deixar claro que Ele estava vivo, que Ele ressuscitara.
Esse é um fato fundamental da fé cristã – Jesus ressuscitou – Ele venceu a morte! Esse era o brado vitorioso de todos os cristãos nos dias de Paulo: “Onde está ó morte a tua vitória?” A informação incontestável de que Jesus vive é a fonte de toda nossa esperança das realidades eternas.
Quando os primeiros cristãos eram presos e lançados no Coliseu romano, somente uma coisa os confortava e animava – Jesus Cristo vive! Paulo declara em alto e bom som aos crentes de Corinto e a todos os crentes em todo o tempo – se Cristo não ressuscitou não há fé e nem esperança alguma e nos tornamos os mais miseráveis sobre toda a terra! A fé cristã tem um diferencial – Jesus Cristo vive! Quando uma pessoa em qualquer lugar do mundo se tornar um cristão e vive a vida cristã, a primeira convicção básica de que necessita é que Jesus está vivo agora. Quando temos isso em mente significa que estaremos vivos quando este mundo acabar.
Mas a narrativa de Atos informa que Jesus não só mostrou-se vivo, mas lhes falava sobre as coisas pertencentes ao reino de Deus. Todo cristão tem plena consciência ou deveria ter, de que o seu lugar definitivo não é este mundo, mas na eternidade haverá um lugar especifico onde definitivamente haverá de morar.
Jesus Voltará
Um segundo aspecto importante que Lucas quer realçar aos seus leitores está no nono verso do primeiro capítulo: “Não foi muito depois disto que Ele subiu ao céu e desapareceu numa nuvem, estando todos olhando para Ele”. Assim como os discípulos nós também continuamos vivendo no mesmo tipo de mundo do qual Ele foi levado. Mas enquanto eles olham dois anjos os trazem à realidade e lhes faz uma declaração fundamental: "Galileus, por que vocês estão olhando para o céu? Este mesmo Jesus, que dentre vocês foi elevado aos céus, voltará da mesma forma como o viram subir" (1.11). Assim, quando olhamos para o alto e contemplamos as nuvens deveríamos nos lembrar desta verdade inexorável de que Jesus não apenas está vivo, não apenas retornou aos céus, MAS ELE VOLTARÁ! Em outras palavras, Sua segunda vinda é uma realidade.
Jesus Continua Ativo
Jesus continua exercendo seu ministério no livro de Atos. Encontramos no final do segundo capítulo: "O Senhor acrescentava à igreja diariamente, os que iam sendo salvos”. Lucas poderia ter dito “Deus fez isso”, mas preferiu escrever que o “Senhor (Jesus)” estava inserindo estes novos convertidos na comunhão da Igreja.
No capítulo três temos a cena de Pedro e João curando um homem coxo na porta do Templo e as palavras deles são tremendas: “Em nome de Jesus Cristo, o Nazareno, ande” (verso 16). É Jesus operando a cura através dos discípulos como o fizera tantas vezes em seu ministério público ao enviá-los de dois em dois por toda Palestina judaica.
No capítulo sete, temos a história do julgamento e do apedrejamento até a morte de um diácono chamado Estêvão. Enquanto seus algozes lhes atiravam pedras Estevão faz essa declaração: "Vejo os céus abertos e o Filho do homem em pé, à direita de Deus" (verso 56). Somente os genuínos crentes podem ter uma visão do Cristo glorioso em seu leito de morte – quanto consolo!
No tempo em que meu trabalho acabar
E enfim de Deus a presença gozar,
E quando a Cristo eu puder contemplar,
Oh, quanta glória haverá com Jesus!
Sim, haverá glória sem par,
Junto a Jesus, glória sem fim!
Oh, quando a Cristo eu puder contemplar
Glória, sim, glória haverá com Jesus!
(Hinário Novo Cântico – 185)
Quando chegamos aos capítulos oitavo e nono temos o registro da conversão[1] de Saulo de Tarso, que deixa Jerusalém com documentos oficiais que lhe permitia prender[2] todo e qualquer judeu que professasse sua fé em Jesus Cristo que ele encontrasse[3] na cidade de Damasco. Quando Saulo e seus auxiliares estavam chegando na cidade de Damasco, de repente, brilhou sobre ele uma luz resplandecente do céu então ele caiu por terra e ouviu uma voz que lhe dizia: Saulo, Saulo, por que você me persegue? Saulo perguntou: Quem és tu, Senhor? Ele respondeu: Eu sou Jesus, a quem você persegue”. Saulo se encontra nesse momento face a face com o Senhor Jesus glorificado e isso será o marco divisor na vida dele (1Co 9.1; 15.8; II Co 12.1 ss.)
A partir deste encontro a transformação operada na vida Saulo será tão profunda que posteriormente ele passara a ser identificado como Paulo e receberá a alcunha de “apóstolo dos gentios”. Não foi uma argumentação teológica ou filosófica ou ética/moral que transformou a vida de Saulo/Paulo – mas o fato de que ele viu o Senhor Jesus ressurreto. Mais tarde, no mesmo capítulo oito de Atos um cristão chamado Ananias dirigiu-se a ele e disse: "Irmão Saulo, o Senhor Jesus, que lhe apareceu no caminho por onde você vinha, enviou-me para que você volte a ver e seja cheio do Espírito Santo" (verso 17).
No livro dos Atos a própria essência da fé cristã, o que lhe dá força,
é a convicção de que Jesus está vivo.

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Guedes, Ivan Pereira
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ATOS: Ambiente Geográfico e Histórico
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Referências Bibliográficas
BARCLAY, William. Hechos de los apostoles. 2ª edição. Traducción Dafne Sabanes de Plou. Buenos Aires: La Aurora, 1974. [El Nuevo Testamento comentado por William Barcley, v. 7].
BAXTER, J. Sidlow. Examinai as Escrituras, v. 6. São Paulo: Vida Nova, 1989.
CHAMPLIN, R. N. Enciclopédia de Bíblia, Teologia e Filosofia. São Paulo: Hagnos, 8ª ed., 2006.
EARLE, Ralph. Comentário Bíblico Beacon, v.7. São Paulo: CPAD, 2006.
ERDMAN, Charles R. Hechos de Los Apóstoles. Ed. TELL, 1974.
FITZMYER, Joseph A. Los Hechos de los apóstoles, v. 1. Salamanca (Espanha): Ediciones Sígueme, 2003.
MARSHALL, I. Howard. Atos – introdução e comentário. Tradução Gordon Chown. São Paulo: Vida Nova, 1982 (2008).
RYRIE, Charles C. Bíblia de estúdio Ryrie. Chicago (Illinois): Moody Press, 1991.
SMITH, T. C. Comentário Bíblico Broadman, v.10. Rio de Janeiro: JUERP, 1984.
STAGG, Frank. O livro de Atos – a luta primitiva em prol de um evangelho vencedor. Tradução Rev. Waldemar W. Wey. Rio de Janeiro: Casa Publicadora Batista, 1957.
WILLIAMS, David J. Novo Comentário Bíblico Contemporâneo – Atos. São Paulo: Vida, 1996.



[1] Esse acontecimento será descrito mais duas vezes no livro de Atos, ainda que com pequenas variações, mas nada que coloque em dúvida o fato da conversão de Paulo (22.3-16; 26.4-18).
[2] Muitos colocam duvidas sobre o fato de que Saulo tinha documentos legais que lhe autorizaram a prender judeus “dissidentes”, mas no período dos Macabeus o imperador romano deu autorização para as autoridades judaicas prendessem aqueles que fossem perigosos para a estabilidade social (I Macabeus 15.15-21).
[3] Em suas epístolas ele faz questão de se referir a este cruel propósito, como testemunho da mudança que ocorrera em sua vida (1Co 15.8-9; Gl 1.12-17; Fp 3.3-7 e 1 Tm 1.12-16).

sexta-feira, 15 de março de 2019

Epístolas Paulinas: Romanos (Autoria e Data)



Esta é considerada a epístola teologicamente mais madura que temos do apóstolo Paulo. É perceptível esta opinião quando a comparamos aos demais documentos que temos dele, principalmente a epístola aos Gálatas que tem muita afinidade temática, mas a simples leitura de Romanos nos revela a maior profundidade e intensidade dela. As palavras de Martinho Lutero sobre o valor desta carta aos Romanos explicitam a necessidade permanente de um estudo mais profundo dela:
Esta Epístola é, sem dúvida, o escrito mais importante do Novo Testamento e o mais puro evangelho. É digno e merecedor de que o cristão não só o conheça de cor, palavra por palavra, mas
também com ele se ocupe diariamente, como pão diário para a alma, pois jamais poderá ser lido ou contemplado em demasia. E quanto mais se lida com ele, tanto mais agradável e gostoso o texto fica. Nele encontramos em superabundância aquilo que um cristão deve saber: o que é lei, Evangelho, pecado, castigo, graça, justiça, fé, Cristo, Deus, boas obras, amor, esperança, cruz. E como devemos proceder com todo mundo, seja justo ou pecador, forte ou fraco, amigo ou inimigo, e em relação a nós mesmos. Além disso, tudo está fundamentado de forma excelente com passagens da Escritura, com exemplos dele mesmo e dos profetas, de modo a não ficar nada a desejar. Por isso também parece que nesta Epístola, São Paulo quis fazer um resumo de toda a doutrina cristã e evangélica, bem como fornecer um acesso a todo o Antigo Testamento. Pois, sem dúvida, quem tiver esta Carta no coração, tem consigo a luz e a força do Antigo Testamento. Por isso, familiarize-se cada cristão com ela e se exercite com ela constantemente (Reflexão de Lutero Rm 1.7).
            O apóstolo dos gentios entende que seu trabalho missionário no Mediterrâneo oriental está sendo concluído e acalenta em seu coração o desejo de levar o evangelho ao Ocidente, entrando pela Espanha (cf. Rm 15.19,24). Aproveita a oportunidade para tratar de um tema recorrente nas comunidades cristãs do primeiro século, como o fizera antes, sobre a questão dos judeus e dos gentios dentro das comunidades cristãs, o que a torna um elo perfeito com as literaturas anteriores dos evangelhos e de Atos.[1]
            Todos aqueles que investiram seu tempo no estudo desta carta são unanimes em afirmar que é impossível não ser arrebatado por seus ensinos e a História da Igreja Cristã é um testemunho vivo desta verdade, [2] pois entre tantos exemplos podemos citar apenas o de Martinho Lutero que na medida em que vai estudando Romanos é despertado pela verdade libertadora e transformadora de sua mente e coração de que “o justo viverá pela fé” e que o impulsionou com todas as forças de sua vida a proclamar esta verdade a ponto de iniciar o movimento que ficou conhecido como Reforma Protestante no século XVI, que se constitui no maior e mais significativo divisor de águas da Igreja Cristã em todos os tempos e até o hoje continua sendo o moto de todas as igrejas protestantes evangélicas no mundo inteiro.
Autoria e Título:
Como a própria carta declara, Paulo é o seu autor (cf. 1.1). Praticamente não há nenhuma dúvida no seio da igreja primitiva em creditar esta epístola à pena de Paulo. A carta contém várias referências históricas que concordam com fatos conhecidos da vida de Paulo e o conteúdo doutrinário da carta é consistente com epistolário do apóstolo,[3] um fato facilmente observado fazendo-se uma simples comparação:
Alguns exemplos devem bastar: a doutrina da justificação pela fé (Rm 3:20-22; Gal 2:16); a Igreja, como o Corpo de Cristo, designada para o representar e o servir através de uma variedade de dons espirituais (Rm 12; 1 Cor 12); a coleta para os crentes pobres em Jerusalém (Rm 15:25-28; 2 Cor 8-9). Compreensivelmente, Paulo faz menos referências a ele mesmo e aos seus leitores em Romanos do que em 1 e 2 Coríntios e Gálatas, uma vez que ele não fundou aquela igreja e nem participou de suas lutas rumo a maturidade como em relação as outras (GAEBELEIN, 1976-1992).
            Em geral há poucos estudiosos sérios, que duvidem ser Paulo o autor da totalidade de Romanos[4] com exceção de (16.24‑27) e alguns costumam ainda excetuar algumas passagens muito curtas que afirmam ‑ a nosso ver injustificadamente – serem glosas. Existe considerável controvérsia a respeito da confusão da prova incidindo sobre a relação dos caps. 15 e 16 com o resto da epístola.[5] No que concerne a longa lista de saudações Ryrie escreve:
“A menção por nome de 26 pessoas a uma igreja que Paulo nunca visitou (e particularmente Priscila e Áquila, que eram mais recentemente associadas com Éfeso, Atos 18:18-19) levou alguns estudiosos a considerar o capítulo 16 como parte de uma epístola enviada a Éfeso. Seria natural, porém, que Paulo mencionasse, a uma igreja em que era um estranho, sua relação com amigos mútuos. Paulo só utiliza uma outra longa série de saudações ao escrever aos Colossenses — uma carta enviada também a uma igreja que ele não visitou (1991, p.1786).
Como mencionamos acima a epístola aos Romanos tem sido considerado seu “maior trabalho” ou seu “magnum opus”, e seu titulo decorre do simples fato de que foi escrita para a igreja ou comunidades cristãs que tinham se estabelecido em Roma (1.7,15), as quais Paulo não tinha participado de suas fundações,[6] mas como o apóstolo para os Gentios, ele tinha acalentado o desejo por muitos anos de visitar aqueles cristãos da capital do Império (15.22-23) e de poder contribuir de alguma forma na edificação e fortalecimento da fé deles (1.13-15).[7]
Com este objetivo definido ele escreveu esta epistola para prepara-los para sua visita (15.14-17). Ele escreveu da cidade de Corinto, enquanto completava a coleta para os pobres da Palestina, como Cranfield esclarece:
É virtualmente certo que foi durante os três meses que Paulo esteve na província da Acaia, a que At 20,2‑3 faz referência, que Romanos foi escrita. Nenhum outro período, dentro dos limites fixados pelas indicações dos caps. 1 e 15, é provável que tenha sido adequado como este para a escrita de algo tão substancial e tão cuidadosamente pensado e composto como Romanos. ... Em vista do íntimo relacionamento de Paulo com a igreja de Corinto, é muito provável que tanto ele como Tércio permaneciam em Corinto ou perto ‑ conclusão a que vários pormenores na epístola podem ser tomados como apoio de empréstimo (1992, p.9).
VOCÊ SABIA?
Os judeus da época, por terem a Lei mosaica, consideravam-se superiores aos gentios (2.1).
   Costumava-se guardar nos templos pagãos grandes quantidades de riquezas (2.22)
   Nos tempos do NT, o batismo acontecia logo depois da conversão. Isso fazia que ambos fossem considerados aspectos de um único ato (6.3,4).
   A adoção era comum entre os gregos e romanos, e eram garantidos ao filho adotado todos os privilégios de um filho legítimo, inclusive direitos de herança (8.15).
(Bíblia Arqueológica NIV)
Partindo de Corinto ele foi para Jerusalém para entregar o dinheiro ofertado, pretendendo continuar até Roma e depois a Espanha (15.24). Paulo eventualmente chega a Roma, mas como um prisioneiro. Febe, que pertencia à igreja em Cesareia, próxima a Corinto (16.1), levou a carta para Roma.
Data
A carta aos Romanos foi escrita aproximadamente em 57-58 d.C. provavelmente mais perto do fim de sua terceira viagem missionária (Atos 18.23-21.14; cf. também Rm 15.19). Em vista da declaração de Paulo em Rm 15.26, parece que Paulo já tinha recebido as contribuições das igrejas da Macedônia e Acaia (onde Corinto era localizada) destinadas aos cristãos em Jerusalém que por causa da fé estavam passando necessidades. É provável que o apóstolo estivesse mais precisamente em Cencréia, uma cidade distante cerca de 9 km de Corinto. Corrobora com isso o fato de estar acompanhado por Gaio (seu anfitrião) e seus amigos Erasto (tesoureiro da cidade) e Quarto que eram naturais de Corinto e a “fiel discípula e cooperadora” Febe, uma viúva que residia em Cencréia e que iria viajar à Roma e foi a portadora da carta (16.1,23; 1Co 1.14; 2Tm 4.20). Podemos colocar aqui o fato de que durante sua estadia em Corinto, ele encontrou o casal Áquila e Priscila, judeus que haviam deixado Roma por causa do decreto imperial promulgado pelo imperador Cláudio (At 18.2). Eles tinham afinidades profissionais, pois eram fabricantes de tendas, uma atividade que Paulo também conhecia. Esta convivência em Corinto forjou laços de amizades permanentes e Paulo foi o mentor deles na questão do Evangelho (At 18.3). Posteriormente o casal retornam a Roma e tornou-se líder na igreja local (Rm 16.3-5). A epistola aos Romanos deve seguir as de 1 e 2 Coríntios que são datadas de 57 d.C.[8]

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Referências Bibliográficas
BARCLAY, William. Romanos - El Nuevo Testamento comentado. Buenos Aires (Argentina), Asociación Editorial la Aurora, 1974.
BROWN, Raymond. Introdução ao Novo Testamento. São Paulo: Paulinas, 2004 (Coleção Bíblia e história Série Maior).
BRUCE, F. F. Romanos – introdução e comentário. São Paulo: Vida Nova e Mundo Cristão, 1991.
CALVINO, João. Exposição de Romanos. São Paulo: Edições Paracletos, 1997.
CHAMPLIN, R. N. Enciclopédia de Bíblia, Teologia e Filosofia. São Paulo: Hagnos, 8ª ed., 2006.
CARSON, D. A., MOO, Douglas J e MORRIS, Leon. Introdução ao Novo Testamento. Tradução Márcio Loureiro Redondo. São Paulo: Vida Nova, 1997.
CRANFIELD, C.E.B. Carta aos Romanos – Grande Comentário Bíblico, Edições Paulinas, São Paulo, 1992.
ELWELL, Walter A. e YARBROUGH, Robert W. Tradução Lúcia Kerr Jóia. Descobrindo o Novo Testamento – uma perspectiva histórica e teológica. São Paulo: Editora Cultura Cristã, 2002.
ERDMAN, Charles R. Comentários de Romanos. Tradução Waldyr Carvalho Luz. São Paulo: Casa Editora Presbiteriana, s/d. (Fhiladelphia: The Westminster Press, 1925).
GAEBELEIN, Frank E. (Editor) The Expositor's Bible Commentary, New TestamentRomans.  Zondervan, Grand Rapids, 1976-1992, electronic media.
GREATHOUSE, William M., METZ, Donald S. e CARVER, Frank G. Tradução Degmar Ribas Júnior. Romanos a 1 e 2 Coríntios. Rio de Janeiro: CPAD, 2006. [Comentário Bíblico Beacon, v. 8].
GUNDRY, Robert H. Panorama do Novo Testamento. São Paulo: Edições Vida Nova, 1987.
HALE, Broadus David. Introdução ao estudo do Novo Testamento. Trad. Cláudio Vital de Souza. Rio de Janeiro: JUERP, 1983.
HODGE, Charles. Comentary on the epistle to the Romans. Michigan: William B. Eerdmans Publishing Company, 1994.
KERTELGE, Karl. A epístola aos Romanos. Tradução Francisco de Assis Pitombeira. Petrópolis (RJ): Editora Vozes, 1982.
KUMMEL, Werner Georg. Introdução ao Novo Testamento. São Paulo: Paulus, 1982.
RYRIE, Charles C. Bíblia de estúdio Ryrie. Chicago (Illinois): Moody Press, 1991.
SMITH, T. C. Comentário Bíblico Broadman. Rio de Janeiro: JUERP, 1984.
Bíblia Sagrada com reflexões de Lutero. São Paulo: Sociedade Bíblica do Brasil, 2012, 2016.



[1] A ordem em que as cartas foram organizadas em nossas Bíblias modernas segue uma ordem cronológica e não de importância, visto que o seu comprimento vai diminuindo de Romanos a Filemom.
[2] Diz-se que Crisóstomo a lia uma vez por semana e que Coleridge a considerava "a obra mais profunda, jamais escrita"; Calvino, a respeito desta carta, disse: "Abriu-se a porta a todos os tesouros das Escrituras;" Lutero pronunciou-se desta forma: “O livro principal do Novo Testamento e o Evangelho mais puro" e, Melancton, afim de conhecê-la melhor e melhor familiarizar-se com ela, copiou-a duas vezes com sua própria mão e Godet a descreveu como "A catedral da fé cristã".
[3] Antes de escreve a carta aos Romanos, o apóstolo havia escrito ao menos cinco outras cartas: Gálatas (49-50); 1 e 2 Tessalonicenses (51-52); 1 e 2 Coríntios (57). Além das cartas contidas na Bíblia É preciso destacar também que Paulo escreveu muitas outras cartas que não foram inseridas no cânon bíblico. Isto fica evidente nas entrelinhas de suas próprias Epístolas.
[4] Tratando sobre a questão geral das epístolas paulinas Kummel destaca:No começo do século XIX, a origem paulina de algumas epístolas foi posta em dúvida – em primeiro lugar , as Pastorais, e, depois também as epístolas aos Tessalonicenses, aos Efésios, aos Filipenses e também aos  Colossenses.  Nessa época F. C. Baur e a Escola de Tubingen reconheciam apenas as chamadas ‘grandes epístolas’ (Gálatas, I e II Coríntios, Romanos) como autênticos documentos do Apóstolo, porque somente estas epístolas poderiam ser entendidas como testemunhos da luta entre Paulo e os judaizantes. Mas logo se tornou patente que a Escola de Tubingen encerrava a imagem histórica da cristandade primitiva num esquema por demais estreito. Os defensores da ‘critica-radical’ chegaram a negar a autoria de Paulo até para as quatro ‘grandes cartas’, explicando-as como sedimentação de correntes  antagônicas por volta do ano 140. Eles partiram de pressupostos literários insustentáveis e de uma construção forçada da história, como o fizeram as construções posteriores (1982, p.320).
[5] “Inclui esta prova, entre outros itens, o fato de que a doxologia (16.25‑27) é colocada diversamente na tradição textual, no fim do cap. 14, no fim do cap. 15, no fim do cap. 16, e também ambas no fim do cap. 14 e no fim do 16; o fato de que a ‘graça’ aparece duas vezes na grande maioria dos manuscritos, como 16.20b e 16.24, mas é omitida por algumas autoridades antigas no primeiro lugar e por outras, incluindo algumas muito importantes, no segundo; a omissão por um manuscrito grego (com algum apoio adicional) de "em Roma" 1.7 e de "que estão em Roma" em 1.15, ou seja, duas únicas referências explícitas a Roma na epístola” (CRANFIELD, 1992, p. 7).
[6] Não é conhecido os nomes daqueles primeiros cristãos que iniciaram as comunidades cristãs em Roma. Possivelmente foram judeus e prosélitos, que moravam em Roma e que após o Pentecostes ouviram a pregação de Pedro (Atos 2.10) em Jerusalém e se converteram e foram batizados. Ao retornarem para suas casas e atividades começaram a se reunirem e formaram as primeiras comunidades cristãs na capital do Império.
[7] Paulo nunca tinha estado em Roma, mas, no fim da carta, ele manda saudações a vinte e seis pessoas, homens e mulheres, cujos nomes ele cita.
[8]Cranfield propõe algo ligeiramente diferente: “Com muita probabilidade este período deve ser identificado, seja com os últimos poucos dias de 55 d.C. e as primeiras poucas semanas de 56 d.C., seja com os últimos poucos dias de 56 e as primeiras poucas semanas de 57” (CRANFIELD, 1992, p. 7).