Há
poucos termos que irritam tantas pessoas quanto a palavra predestinação.
Vivemos tempos em que a Palavra de Deus e seus ensinamentos estão sob ataque
como nunca antes. A predestinação é um dos ensinos mais violentamente atacados.
Por que as pessoas se ressentem desse termo? Qual é a razão da inimizade que
muitos demonstram em relação a ele?
O
ser humano natural nunca apreciou as verdades bíblicas, pois, por natureza, é
orgulhoso e não deseja se submeter a um Deus soberano. As pessoas preferem um
deus maleável, que possa ser influenciado e até mesmo manipulado. Ao longo da
história da igreja cristã, sempre houve tentativas contínuas de ofuscar ou
minimizar a soberania de Deus, abrindo mais espaço para o ser humano e seu
papel na salvação. O apóstolo Paulo, em seu documento mais maduro, após mais de
vinte anos de caminhada com Cristo, escrevendo aos cristãos que viviam na
capital do Império Romano, declara esta maravilhosa e extraordinária verdade: “Porque
dele, e por ele, e para ele, são todas as coisas.” Essas palavras
sintetizam a essência e o cerne do ensino bíblico da predestinação.
A
questão, na verdade, não está no termo em si - predestinação ou eleição
-, mas nas imagens distorcidas que lhe foram atribuídas. A imagem de um ser
humano nas garras de um Deus tirano, que vive ameaçando todos com o inferno, é
uma caricatura. Muitos, ainda que afirmem crer nesse ensino bíblico, não têm
coragem de declará-lo abertamente. Outros dizem que é um assunto para o
seminário, mas não para os púlpitos ou para conversas com pessoas mais simples.
Contudo, nenhuma dessas coisas tem realmente a ver com a predestinação, pois
ela está amalgamada nas páginas das Escrituras.
É
certo que não temos acesso a uma lista dos predestinados e outra dos réprobos;
por isso, o evangelho deve ser proclamado como fonte de conforto para todos
aqueles que creem. Os incrédulos jamais aceitam o ensino da predestinação,
assim como não aceitam quaisquer outros ensinos que emanam das páginas das
Escrituras. Nas Escrituras, a predestinação não é motivo de medo ou repúdio,
mas de louvor e adoração Efésios 1.
A
oferta de salvação é dirigida apenas àqueles que possuem as marcas da eleição,
e eles não têm palavra para os não convertidos. Esta interpretação é
completamente equivocada e alienada do ensino bíblico sobre essa doutrina.
Devemos
sempre ter a certeza de que falamos biblicamente e não imaginativamente sobre
essa doutrina. Isso não é fácil, mas é possível com muita oração e estudo da
Palavra de Deus. Uma exigência se impõe de forma absoluta: não permitir que a
razão humana decaída seja nosso guia. Lembremos as palavras do salmista: “Lâmpada
para os meus pés é a tua palavra, e luz para o meu caminho” (Salmo
119:105).
As
palavras do salmista não são apenas poéticas, mas constituem o cerne da
discussão sobre as doutrinas bíblicas. Elas nos lembram que a verdadeira
interpretação das Escrituras deve ser teocêntrica, colocando Deus no centro.
Quando a leitura se torna antropocêntrica, centrada no homem, a Palavra perde
seu caráter diretivo, tornando-se apenas um reflexo das limitações humanas. O
salmista, porém, nos mostra que somente a Palavra de Deus ilumina o caminho e
conduz com segurança.
Assim,
diante do ensino autoritativo da predestinação, não nos curvamos ao medo ou à
dúvida, mas nos erguemos em louvor e adoração, certos de que a soberania de
Deus é nossa segurança e sua Palavra, nossa guia infalível.
O
ensino bíblico não deve se iniciar em outro lugar a não ser no vale da
depravação humana e somente então devemos iniciar a nossa subida até o cume da
montanha da predestinação.
O
ensino paulino sobre a predestinação não está desconectado do que ele ensina
antes e depois. Nos capítulos anteriores (1–3), o apóstolo faz uma tomografia
completa da raça humana decaída, concluindo, sem qualquer subterfúgio, que
tanto judeus quanto gentios (todas as raças e etnias) vivem alienados de Deus
e, por isso, ficam aquém da glória de Deus. Além disso, todos estão incluídos
no pecado de Adão e, portanto, vivem expostos à ira de Deus. Isso inclui você e
eu, todos nós. Como tão bem declara Davi, após ser confrontado com seus pecados
pelo profeta Natã: “Eis que fui moldado na iniquidade, e no pecado minha mãe
me concebeu” (Salmo 51:5). Somente quando sentimos a depravação de nossos
corações — a inimizade contra Deus, o poder do pecado e a escravidão de nossas
concupiscências — entendemos que não somos vítimas, mas plenamente responsáveis
pelo que fazemos ou deixamos de fazer, e que teremos de prestar contas a Deus.
De
maneira que, quando somos levados à conversão pela ação graciosa do Espírito
Santo — ou seja, sem qualquer mérito de nossa parte —, as únicas palavras que
devemos pronunciar são: “Ó Deus, eu pequei; eu mereço a Tua ira e não a Tua
misericórdia.”
O
mais grave problema do ser humano é que temos a tendência natural de nos fazer
parecer mais apresentáveis do que a Bíblia nos descreve. Essa forma distorcida
de autoimagem nos impede de compreendermos corretamente a verdade sobre nós
mesmos e não nos curvamos humildemente diante da Palavra de Deus. Davi estava
tranquilo, achando que era um bom rei, até que Natã o confrontou com a
realidade de seus pecados: “Senhor, de fato, seria totalmente justo se nunca
olhasses para mim; isso é tudo o que eu mereço.” É aqui que precisamos
estar, e é exatamente aqui que Deus nos quer: “Ó Deus, sê propício a mim,
pecador” (Lucas 18:13).
Quando
chegamos neste ponto começaremos a entender as palavras de João: "Mas
nisto se manifestou o amor de Deus, que enviou ao mundo o seu Filho unigênito,
para que todo aquele que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna"
(cf. 1 João 4:9 e João 3:16). Apesar da nossa miserável situação, a porta da
graça começa a se abrir, na verdade é escancarada! Apesar de sermos
completamente impotentes para nos salvarmos por nossas próprias forças e
capacidade - Deus toma a iniciativa de fazer algo sobre a nossa situação. Ele
decidiu dar Seu Filho e enviá-Lo às pessoas que estão perdidas no vale do
pecado. Está é a mensagem do Evangelho para todos os pecadores!
Então
poderemos cantar:
Graça
maravilhosa, quão doce é o som
Que um pecador salvou como eu!
Perdido eu estava, mas me encontrou,
Cego fui, mas hoje vejo bem.
(Graça Maravilhosa - Amazing
Grace)
Mas
Deus vai infinitamente mais do que anunciar que há uma salvação disponível. Ele
não apenas indica o único Caminho de salvação – Jesus Cristo. Ele nos conduz
até a cruz! Deus em Sua infinita misericórdia envia mensageiros que trazem as
boas novas do Evangelho! Esses mensageiros devem chamar os pecadores ao
arrependimento e à fé.
Quando
falamos em eleição, devemos começar com o fato de que Cristo é pregado e é
oferecido gratuitamente aos pecadores desesperançados. Portanto, torna-se um
privilégio de escolha ouvir essas boas novas de salvação. Milhões de pessoas já
pereceram e outro milhões perecerão sem ter ouvido nada sobre Cristo, o único
nome debaixo do céu pelo qual devemos ser salvos. De maneira que, você e eu
estamos incluídos no número de pessoas que podem ouvir as palavras de salvação.
Por quê? É uma escolha soberana de Deus! É eleição de Deus! O fato de
que você, diferente de muitos outros, possa ouvir a Palavra da salvação faz
parte da eleição.
Deus
vem até você e diz: "Não tenho prazer em sua morte, pecador, mas em seu
arrependimento e em sua vida". Em outro lugar: "A vós, ó
homens, eu chamo; e a minha voz é para os filhos do homem" (Provérbios
8:4). Isso inclui você, pois você é um ser humano, não é? Reconheça isso como
um milagre e venha ouvir sempre que a Palavra de Deus for pregada. Lembre-se de
que por trás do pregador está um Deus compassivo e gracioso que enviou Seu
Filho ao mundo para salvar pecadores por Sua própria boa razão.
Lembre-se
de que a ira de Deus permanece sobre aqueles que não crêem neste evangelho, mas
a todos os que ouvindo creem, são por Cristo libertados da ira de Deus e da
destruição, e recebem o dom da vida eterna conferido a eles. Este é um eco de
João 3:36: "Aquele que crê no Filho tem a vida eterna, e aquele que não
crê no Filho não verá a vida; mas a ira de Deus permanece sobre ele". Infelizmente
são relativamente poucos os que mostram evidências de uma fé verdadeira e vital
em Cristo.
Que
contraste enorme! É um ou outro — o evangelho é o bom aroma de vida para os que
creem, mas fedor de morte para os que o rejeitam (2 Coríntios 2:16). Todo ser
humano está em um campo ou outro. Não há meio
termo. Ou somos crentes ou
descrentes; ou somos libertados da maldição ou ainda estamos sob essa maldição.
Os
que rejeitam o Evangelho sempre têm desculpas. Chegam mesmo a dizer que não
foram salvos porque, aparentemente, não agradou ao Senhor fazê-lo. Alegam que
tentaram buscar o Senhor, mas que Ele, aparentemente, não está disposto a ser
encontrado: “Eu orei, fui à igreja, li a Bíblia, vivo uma vida honesta, mas não
me converti porque Deus tem que fazer isso.” É pura falácia!
Jesus
declara de forma categórica: “E não quereis vir a mim para que tenhais vida”
(João 5:40). Não é uma pergunta, mas uma afirmação. Não querem vir porque
preferem os seus pecados. Você quer ser seu próprio mestre. Você não quer se
submeter ao senhorio de Cristo. Você não quer se curvar diante da soberania
absoluta de Deus. Você não quer se colocar à disposição Dele.
Admita-o
e curve-se diante desta verdade. Diga: “Senhor, eu sei que isso é verdade.
Sei que a culpa é minha”. A situação miserável do pródigo começa a mudar no
momento em que “caindo em si” declara: “Pai, pequei contra o céu e
diante de ti; já não sou digno de ser chamado teu filho” (Lucas
15:17–19).
Ele
não culpa o pai, nem as circunstâncias, nem os amigos; assume responsabilidade
plena por sua condição. Ao declarar “não sou digno”, confessa que o
pecado destruiu qualquer mérito humano diante de Deus. Essa frase é a quebra
definitiva do orgulho humano, pois a natureza pecaminosa tende a se justificar,
mas aqui o filho renuncia a toda pretensão. Ele não
reivindica direitos, não exige posição, apenas admite sua condição miserável.
Além
disso, “não sou digno” revela a consciência da distância espiritual. O
pecado não apenas arruinou sua vida material, mas o afastou do pai. É a
linguagem da separação: o pecador entende que não pode, por si mesmo, restaurar
a comunhão perdida. Contudo, paradoxalmente, é justamente nesse momento de
reconhecimento da indignidade que o pródigo está pronto para receber a graça -
o pai não o trata conforme sua confissão de miséria, mas o recebe com amor,
veste-o com a melhor túnica e o restaura como filho (Lucas 15:22).
Assim,
“não sou digno” não é apenas um lamento, mas o ponto de virada. É quando
o homem reconhece sua miséria que Deus revela sua graça abundante, mostrando
que a restauração não depende do mérito humano, mas da misericórdia divina.
O
apostolo Paulo resume tudo isso em uma única frase: “Pela graça sois salvos, mediante
a fé”. É possível pensar que isso não faz sentido. Mas é isso que a Palavra de
Deus ensina! Se você não crê, a culpa é sua, e se você crê, é
tudo obra de Deus. Essa é a verdade, quer você a entenda ou não.
Então
se tudo provém de Deus, não tem nada que eu possa fazer! Como o pródigo você
pode cair de joelhos agora mesmo e declarar: NÃO SOU DIGNO! NÃO SOU DIGNO! Comece
onde Deus começa. Ele vem até você e lhe revela a terrível verdade sobre você
mesmo. Ele também vem até você com as boas novas do Evangelho. Há salvação para
os pecadores que se humilham, reconhecem sua pecaminosidade e imploram por Sua
misericórdia.
A
pergunta errada é:
"Eu sou eleito?". A pergunte certa é: "Eu Sou chamado e
sou convidado?" A resposta para essa pergunta é um sim inquestionável! Você é chamado; você está convidado; Sim!
Utilização livre desde que citando a fonteGuedes, Ivan PereiraMestre em Ciências da Religião.me.ivanguedes@gmail.comOutro BlogHistoriologia ProtestanteContribua para manutenção deste blog
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