domingo, 4 de janeiro de 2026

Gênesis 1 – Verbos Principais e Relevância Textual – בָּדַל (badal)

 

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Gênesis 1:6 — interlinear

וַיֹּאמֶר

אֱלֹהִים

יְהִי

רָקִיעַ

בְּתוֹךְ

הַמָּיִם

וִיהִי

מַבְדִּיל

בֵּין

מַיִם

לָמָיִם

e disse

Deus

haja

firmamento

no meio de

as águas

e seja

separando

entre

águas

e águas

Gênesis 1:7 — interlinear

וַיַּעַשׂ

אֱלֹהִים

אֶת־הָרָקִיעַ

וַיַּבְדֵּל

בֵּין

הַמַּיִם

e fez

Deus

o firmamento

e separou

entre

as águas

אֲשֶׁר

מִתַּחַת

לָרָקִיעַ

וּבֵין

הַמַּיִם

אֲשֶׁר

מֵעַל

לָרָקִיעַ

וַיְהִי־כֵן

que

debaixo de

o firmamento

e entre

as águas

que

acima de

o firmamento

Como vimos no artigo anterior (cf. artigos relacionados) os verbos no hebraico bíblico carregam não apenas ação, mas também nuances de tempo, aspecto e relação com Deus. Desta forma o hebraico bíblico trabalha com uma lógica mais ligada ao aspecto da ação (se ela está completa ou em andamento) do que à cronologia linear.

Neste segundo artigo veremos o verbo בָּדַל (badal) sua conexão com o verbo anterior בָּרָא (bara) e algumas de suas implicações teológicas.

Gênesis 1:6–13

(texto hebraico)

Gênesis 1:6–13 — Hebraico 

6. וַיֹּאמֶר אֱלֹהִים יְהִי רָקִיעַ בְּתוֹךְ הַמָּיִם וִיהִי מַבְדִּיל בֵּין מַיִם לָמָיִם׃

7. וַיַּעַשׂ אֱלֹהִים אֶת־הָרָקִיעַ וַיַּבְדֵּל בֵּין הַמַּיִם אֲשֶׁר מִתַּחַת לָרָקִיעַ וּבֵין הַמַּיִם אֲשֶׁר מֵעַל לָרָקִיעַ וַיְהִי־כֵן׃

8. וַיִּקְרָא אֱלֹהִים לָרָקִיעַ שָׁמָיִם וַיְהִי־עֶרֶב וַיְהִי־בֹקֶר יוֹם שֵׁנִי׃

9. וַיֹּאמֶר אֱלֹהִים יִקָּווּ הַמַּיִם מִתַּחַת הַשָּׁמַיִם אֶל־מָקוֹם אֶחָד וְתֵרָאֶה הַיַּבָּשָׁה וַיְהִי־כֵן׃

10. וַיִּקְרָא אֱלֹהִים לַיַּבָּשָׁה אֶרֶץ וּלְמִקְוֵה הַמַּיִם קָרָא יַמִּים וַיַּרְא אֱלֹהִים כִּי־טוֹב׃

11. וַיֹּאמֶר אֱלֹהִים תַּדְשֵׁא הָאָרֶץ דֶּשֶׁא עֵשֶׂב מַזְרִיעַ זֶרַע עֵץ פְּרִי עֹשֶׂה פְּרִי לְמִינוֹ אֲשֶׁר זַרְעוֹ־בוֹ עַל־הָאָרֶץ וַיְהִי־כֵן׃

12. וַתּוֹצֵא הָאָרֶץ דֶּשֶׁא עֵשֶׂב מַזְרִיעַ זֶרַע לְמִינֵהוּ וְעֵץ עֹשֶׂה־פְּרִי אֲשֶׁר זַרְעוֹ־בוֹ לְמִינֵהוּ וַיַּרְא אֱלֹהִים כִּי־טוֹב׃

13. וַיְהִי־עֶרֶב וַיְהִי־בֹקֶר יוֹם שְׁלִישִׁי׃

מַבְד  v.6) – “aquele que separa”, indicando ação em curso conforme a palavra divina.

וַיַּבְדֵּל  (v.7) – ação efetivada por Deus, cumprindo o decreto criacional.

Hebraico: בָּדַל

Transliteração: badal

Traduções: separou, distinguiu, dividiu

Comentário Textual

No primeiro capítulo de Gênesis, o verbo בָּרָא (bara’) aparece apenas no início (Gn 1.1), indicando o ato criador soberano de Deus que inaugura o universo. Exegeticamente, neste verso, ele ainda não traz a ideia de ação continuada.  Entretanto, a ausência de sua repetição ao longo do capítulo não dilui seu relevante significado, ao contrário, revela que a criação não é apenas um evento pontual, e sim um processo contínuo, desdobrado em atos de ordenação e separação. É nesse contexto que surge o verbo בָּדַל (badal), usado para descrever como Deus organiza o que foi criado, separando luz das trevas, águas de cima e de baixo, terra firme e mares.

Gerard Van Groningen, em sua expressiva obra, propõe que a criação deve ser entendida como um movimento dinâmico e não estático que vai da origem ao propósito final. Nesta perspectiva, o ato criador não se encerra em Gn 1.1, mas se prolonga ao longo das etapas subsequentes da narrativa bíblica, demostrando que Deus conduz o cosmos rumo à consumação. Assim, bara’ e badal não são verbos isolados, mas complementares: Deus cria e continua a ordenar. Enquanto o primeiro descreve o ato criador de Deus, o segundo descreve a ordenação progressiva dessa criação. De maneira que, a narrativa bíblica quer enfatizar estas duas verdades – Deus cria e continua interagindo com está criação a conduzindo ao propósito por Ele mesmo estabelecido.

Nesse ponto, é possível estabelecer uma relação analógica com o ato salvador realizado pelo Espírito Santo na vida dos pecadores. Assim como a criação não se limita ao ato inicial, mas avança rumo à sua consumação, a obra salvífica do Espírito não se restringe ao momento único da conversão; ela se desenvolve continuamente, conduzindo o crente até o estágio final da glorificação (Romanos 8.29–30).

A perspectiva de Calvino é particularmente oportuna. Para ele, as ações subsequentes de separar luz e trevas, águas e firmamento são expressões da sabedoria divina que dá forma ao mundo. Assim, a criação não consiste apenas em trazer algo à existência, mas também em dispor todas as coisas em ordem, de modo que o ser humano, que ainda será criado, encontre um cosmos apto a ser habitado e que, simultaneamente, reflita a glória do Criador.

Hansjörg Braumer, em seu comentário, destaca que este mesmo verbo (badal) é utilizado na elaboração fecundante da Legislação de Israel, fazendo distinção entre o que deve ser santo e o que permanece comum (Levítico 10.10). Então ele faz o link com a criação: o Deus que organiza o cosmos é o mesmo que organiza a comunidade, chamando-a a viver em santidade.

Por estas perspectivas podemos concluir que Gênesis 1 nos apresenta uma teologia da criação que harmoniza origem e ordenação, existência e santidade. Desta forma, Bara’ inaugura a realidade, e badal a estrutura; revelando que Deus não apenas nos dá vida, mas igualmente nos dá propósito.

Leitura Devocional

Em Gênesis 1 vemos que Deus não somente cria (bara’), mas continua interagindo ordenando e separando (badal), de maneira que transforma o caos em cosmos, preenchendo o vazio e trazendo luz onde havia apenas escuridão.  E quando adentramos ao Novo Testamento essa verdade ganha ainda mais profundidade. O mesmo Deus que criou o mundo é aquele que, em Cristo, está realizando uma Nova Criação.

O apostolo Paulo faz uma conexão preciosa quando declara: “Se alguém está em Cristo, é nova criatura [criação]; as coisas antigas já passaram; eis que tudo se fez (2 Coríntios 5:17). Aqui, o ato criador de Deus se prolonga na vida espiritual: Ele não apenas nos chama à existência (conversão, novo nascimento), mas nos separa para viver em santidade, trazendo paz onde havia caos, luz onde havia trevas e propósito onde havia vazio.

Para Reflexão

Pense em áreas do seu coração ou da sua rotina que ainda estão em “caos” ou “sem forma”. Tem orado pedindo que Deus traga ordem, luz e propósito, assim como fez na criação?

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Como você pode viver hoje de forma consciente dessa obra contínua de Deus, usufruindo da ação santificador do Espírito Santo?

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Utilização livre desde que citando a fonte
Guedes, Ivan Pereira
Mestre em Ciências da Religião.
me.ivanguedes@gmail.com
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Referências Bibliográficas

BRAUMER, Hansjörg. Comentário Esperança Antigo Testamento – Gênesis. Volume 1. São Leopoldo: Editora Sinodal, 2014.

CALVINO, João. Comentário sobre o Livro de Gênesis. São Paulo: Editora Paracletos, 1999.

VAN GRONINGEN, Gerard. From Creation to Consummation. Chicago: Moody Press, 1996.

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