quinta-feira, 1 de janeiro de 2026

Gênesis 1 – Verbos Principais e Relevância Textual – בָּרָא (criou)

 Céu com estrelas e planetas

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Hebraico

בְּרֵאשִׁית

בָּרָא

אֱלֹהִים

אֵת

הַשָּׁמַיִם

 

וְאֵת

הָאָרֶץ

Português

no princípio

criou

Deus

(obj.) *

os céus

 

e (obj.) *

a terra

*Está partícula não tem tradução apenas indica o objeto do verbo.

Os verbos no hebraico bíblico são fundamentais porque carregam não apenas ação, mas também nuances de tempo, aspecto e relação com Deus. Diferente do português, onde pensamos em passado, presente e futuro, o hebraico bíblico trabalha com uma lógica mais ligada ao aspecto da ação (se ela está completa ou em andamento) do que à cronologia linear.

Neste primeiro artigo veremos alguns verbos importantes no desenvolvimento do primeiro capítulo de Gênesis e algumas de suas implicações teológicas.

Gênesis 1:1–5

(texto hebraico)

1. בְּרֵאשִׁית בָּרָא אֱלֹהִים אֵת הַשָּׁמַיִם וְאֵת הָאָרֶץ׃

2. וְהָאָרֶץ הָיְתָה תֹהוּ וָבֹהוּ וְחֹשֶׁךְ עַל־פְּנֵי תְהוֹם וְרוּחַ אֱלֹהִים מְרַחֶפֶת עַל־פְּנֵי הַמָּיִם׃

3. וַיֹּאמֶר אֱלֹהִים יְהִי אוֹר וַיְהִי־אוֹר׃

4. וַיַּרְא אֱלֹהִים אֶת־הָאוֹר כִּי־טוֹב וַיַּבְדֵּל אֱלֹהִים בֵּין הָאוֹר וּבֵין הַחֹשֶׁךְ׃

5. וַיִּקְרָא אֱלֹהִים לָאוֹר יוֹם וְלַחֹשֶׁךְ קָרָא לָיְלָה וַיְהִי־עֶרֶב וַיְהִי־בֹקֶר יוֹם אֶחָד׃

Verbo בָּרָא - Transliteração: bara

Traduções: criou, trouxe à existência, originou

Comentário Textual

Em Gênesis 1:1, o verbo בָּרָא (bara’) ocupa a posição central da perícope inicial (1:1–5), afirmando de modo categórico que Deus é o Criador absoluto. A expressão “céus e terra” abrange toda a realidade criada, deixando claro que nada existe fora da ação divina. O texto não abre espaço para dúvidas: aquilo que não havia passou a existir porque Deus trouxe tudo à existência pela sua palavra e vontade soberana. O apóstolo Paulo não apenas crê nessa declaração inicial de Gênesis, como também conecta Cristo como aquele por meio de quem todas as coisas foram criadas e em quem tudo subsiste, mostrando que a criação não apenas teve um início, mas continua sustentada e conduzida pelo poder divino (Colossenses 1:16–17).

Na continuidade do capítulo, esse verbo não reaparece em cada dia da criação; o escritor optou por utilizar outros verbos para descrever o processo de ordenar, separar e preencher, como: āmar (“disse”), asah (“fez”) e natan (“colocou/deu”). Dessa forma, a análise exegética mostra que bara’ não é o centro de todo o capítulo 1, mas sim da abertura, funcionando como a afirmação inicial de que Deus é o Criador. O desenvolvimento posterior expande esse ato inaugural por meio de verbos que revelam como Deus organiza e dá forma ao cosmos, transformando o caos inicial em um mundo ordenado e habitável.

Na Bíblia Hebraica, o verbo בָּרָא   têm Deus como seu único sujeito explícito, ocorre cerca de cinquenta vezes e descreve atos criadores únicos e soberanos, próprios da iniciativa divina. Seu uso ressalta que a criação não é resultado de processos naturais nem da ação de outros agentes criadores intermediários, mas procede exclusivamente da vontade e do poder de Deus, que chama à existência novas realidades segundo seu propósito.

Esse ensino bíblico contrasta com as concepções filosóficas antigas. Platão, por exemplo, falava de um demiurgo, um artesão divino que moldava a matéria preexistente. Para ele, o mundo não surgia do nada, mas era organizado a partir de algo eterno. Mais tarde, os gnósticos reinterpretaram esse conceito, descrevendo o demiurgo como um ser inferior, responsável por um mundo imperfeito, distinto do Deus supremo espiritual. Marcião, no século II, quando ainda a teologia cristã estava sendo formulada, distorceu esse conceito e levou ainda mais longe, afirmando que o Deus criador (demiurgo) do Antigo Testamento seria um demiurgo mau, em contraste com o Deus bom revelado em Cristo.

Mas estamos vendo que, não apenas neste primeiro verso de Gênesis, mas também nas demais Escrituras subsequentes, há uma firme contraposição contra essas distorções: não há dois deuses, nem uma matéria eterna ao lado de Deus. Há apenas um Criador, que pela sua palavra trouxe tudo à existência e que, em Cristo, revela o seu amor e sustento contínuo. O contraste entre a filosofia antiga e a revelação bíblica nos lembra que nossa fé não repousa em especulações humanas, mas na certeza de que “no princípio, Deus criou” e que “em Cristo tudo subsiste”.

Enquanto o demiurgo da filosofia é um artesão limitado — e, no caso de Marcião e dos gnósticos, considerado “mau” — que apenas organiza o que já existe, o Criador bíblico é o Senhor que chama à existência o que não havia. Essa diferença nos oferece total segurança: não vivemos em um mundo fruto do acaso ou de um ser limitado (mau), mas em uma criação que nasceu da palavra e da vontade de um Deus bom, que em Cristo revela seu amor e cuidado.

É importante realçar que em Gênesis 1:1 (e no desenvolvimento desta perícope inicial – 1 a 5) não se deve traduzir ou interpretar diretamente o verbo bara’ como se fosse uma afirmação explícita da “criação continuada” (creatio continua). Exegeticamente, isso seria ir além do que o texto bíblico apresenta, pois o foco aqui está no ato inaugural de Deus como Criador absoluto.

Mas essa leitura não é contraditória à teologia bíblica mais ampla, já que em outras passagens das Escrituras há abundância de argumentos favoráveis à doutrina da creatio continua, especialmente quando se conecta o ato criador inicial com a providência divina que sustenta e renova continuamente todas as coisas.

A observação se faz necessária porque alguns intérpretes afirmam que o próprio bara’ em Gênesis 1:1 já traria de forma clara esse conceito teológico, quando na verdade o texto aponta para o início absoluto da criação, e somente em diálogo com o restante da revelação bíblica podemos fundamentar a ideia de criação continuada.

Para Reflexão

O que significa para você que Deus criou tudo com propósito e ordem?

______________________________________________________________________________________________________________________________
Escreva o que você sente ao pensar que sua vida também foi criada com propósito. _________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________

 

Utilização livre desde que citando a fonte
Guedes, Ivan Pereira
Mestre em Ciências da Religião.
me.ivanguedes@gmail.com
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