terça-feira, 15 de maio de 2018

O Homem Que Queria Ver Jesus



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            Ele acordou com uma sensação estranha de que aquele dia seria diferente. Se alguém lhe perguntasse por que ou qual o motivo ele não saberia dizer, apenas sentia que algo especial iria acontecer.
            Fazia questão de manter uma rotina diária, pois isso lhe dava uma espécie de segurança de que as coisas estavam funcionando normalmente. Portanto, desde as primeiras horas da manhã ele já estava acordado e como sempre organizou o café matinal da família, pois era a única refeição que faziam juntos no dia. Suas atividades profissionais lhe tomavam todo o tempo e até mesmo o jantar nem sempre era possível participar com eles à mesa.
            Ele já pensara diversas vezes em mudar de atividade, mas nenhuma outra lhe possibilitava um retorno financeiro tão bom como o que ele tinha atualmente, de maneira que sempre acabava descartando ou como ele costumava dizer a si mesmo – postergando uma decisão mais radical.
            Fora muito difícil e dispendioso conseguir os direitos de exercer sua atividade profissional. A concorrência sempre foi e continuava sendo acirrada, de maneira que ele não podia abrir qualquer brecha, pois sempre havia alguém de olho para na primeira oportunidade tomar seu lugar.
            É verdade que sua profissão não era apenas flores, ainda que o lucro era sempre garantido, mas havia também muitos espinhos. Talvez o mais dolorido desses espinhos fosse a forma como seus vizinhos, conhecidos e a grande maioria dos cidadãos o tratavam.
            Ele nunca era convidado para as festas, a não ser quando insinuava que poderia arcar com parte das despesas, mas mesmo assim era tratado como um intruso. E quando abria as portas de sua casa para alguma refeição social, somente seus colegas de profissão e seus familiares vinham.
            Igualmente dolorido lhe era quando andando pelas ruas em direção ao trabalho ou mesmo quando fazia qualquer outra atividade sentia os olhares duros e implacáveis das pessoas e ouvia os sussurros ou até mesmo alguém mais exaltado lhe chamava de publicano e pronunciava uma série de vitupérios que o deixavam completamente constrangido. Com o passar dos anos pensou que fosse se acostumar com estes comportamentos descabidos ou que fossem diminuir de intensidade, mas nenhuma coisa e nem outra, sempre se sentia constrangido e em vez de diminuir ultimamente havia aumentado a intensidade das ofensas. Na semana anterior um comerciante quase o agrediu fisicamente, por se achar injustiçado, mas fora contido por alguns de seus empregados.
            Mas o que mais o fazia sofrer era a proibição de poder adentrar à Sinagoga para participar das reuniões. Sentia falta de ouvir a leitura da Torá, das orações e dos cânticos dos Salmos comunitários. Evidentemente que fazia tudo isso em sua casa, juntamente com sua família e todos os que estavam debaixo de seu teto, pois ele era o responsável pela vida deles, tanto física quanto espiritualmente. Mas como lhe fazia falta poder ir com a família e adentrar ao ambiente da Sinagoga. Mas quando se tornou um publicano e posteriormente alcançou o posto de chefe, passando a ser o responsável por toda coletoria de impostos da cidade de Jericó, cuja produção e exportação do balsamo girava a economia da cidade e por consequência do comercio, sabia o preço que haveria de pagar, pois era tratado como traidor do povo judeu e serviçal dos invasores romanos, uma vez que era obrigado por contrato a remeter a maior parte do que arrecadava para Roma.  
            Mas a vida continua. Após o café com a família se despediu e foi caminhando em direção ao seu posto de trabalho. Bastaram apenas alguns metros para perceber que havia mais movimento nas ruas do que o costumeiro para aquele horário matinal. Notou também que os olhares de repudio que lhe eram normalmente direcionados estavam escassos, como se ele não estivesse passando por ali, como o fazia rotineiramente. As pessoas conversavam e gesticulavam agitadamente, mas graças a Deus desta vez não estavam falando sobre ele. Enquanto caminhava ficou cada vez mais claro que algo importante havia ou estava para acontecer naquele dia. O que seria? Qual a razão de tanta agitação logo pela manhã?
            Com estas e outras indagações ele chegou ao seu posto na coletoria. Cumprimentou todos os funcionários e distribuiu as tarefas daquele dia a serem desempenhadas por cada um deles. Sentou-se à mesa de trabalho e começou a verificar algumas anotações que fizera no dia anterior, pois logo começaria a chegar as anotações de hoje. Foi quando levantando os olhos de seus papeis se apercebeu que seus funcionários estavam mais agitados do que o costumeiro. Até mesmo os mais contidos estavam conversando e gesticulando, como aguardando alguma noticia. Alguma autoridade romana iria passar pela cidade? Herodes ou Pilatos? Algum centurião romano com suas tropas? 
            Discretamente fez sinal para um deles, que saindo do pequeno grupo de cinco funcionários, dirigiu-se na sua direção. Então ele perguntou: o que esta acontecendo? Por que toda aquela agitação? O rapaz lhe respondeu: está correndo um boato de que um tal de Jesus estará passando pela cidade hoje. Ele tem caminhado por toda Palestina judaica com um grupo de discípulos; muito se tem falado da autoridade com que ensina e interpreta a Torá e dos muitos milagres que Ele tem realizado, até mesmo ressuscitando mortos e curando cegos e aleijados.
            Enquanto o funcionário retorna à roda ele começa a puxar na memória alguns extratos de conversas que tinha ouvido das muitas pessoas que pela coletoria passavam, advindos de todos os recônditos da Palestina e mesmo de fora dela. Lembrou-se de alguns comentários sobre um Galileu ou Nazareno, não sabia ao certo, que estava pregando sua mensagem de arrependimento e do reino de Deus por todo o território, ele até pensou que se tratava de João, o Batista, mas lembrou-se de que este ficava mais à beira do rio Jordão e que havia sido decapitado por ordem de Herodes Antipas.
Também não dera muito atenção a tais comentários, pois desde garoto sempre ouviu falar destes pregadores messiânicos que surgiam periodicamente e quase sempre da região da Galileia, sempre envolvidos em revoltas contra os romanos. Provavelmente esse Jesus era mais um destes agitadores que se aproveitavam das esperanças messiânicas dos mais oprimidos. Satisfeito sua curiosidade, retornou às suas atividades, pois as anotações do dia começavam a chegar e ele não tinha tempo a perder com boatos ou personagens folclóricos. Muitos diziam que ele era rico, mas não sabiam o quão duro trabalhava e o tamanho de sua responsabilidade – viam o vinho que ele tomava, mas não viam os tombos que levava.
Completamente absorvido pelas suas atividades contábeis ele nem percebeu que as horas avançaram rapidamente e que a muito o horário do almoço havia passado. Olhando ao redor percebeu que estava completamente sozinho na coletoria. Para onde foram todos? Levantou-se de sua escrivaninha e foi até à porta – assustou-se tamanho o movimento das pessoas na rua. Homens, mulheres e até jovens e crianças, todos caminhando agitadamente em direção à rua principal da cidade. Parou um homem que passava e perguntou: o que está acontecendo? O homem se desvencilhando de sua mão continuou andando e gritou: é Jesus! É Jesus! Ele acabou de curar um cego na estrada e vai entrar daqui a pouco na cidade!! Logo desapareceu em meio à pequena multidão que se formava em direção à rua principal.
Agora sua atenção foi cativada, pois este Jesus estava convulsionando toda a cidade. Teria Ele realmente curado um cego e seria Bartimeu que a tantos anos ficava esmolando à beira da estrada que dava entrada à cidade? Quando se apercebeu já estava caminhando na mesma direção em que as pessoas à sua frente e atrás estavam se dirigindo. Mesmo contrariado continuou a caminhar. Logo se viu em meio à uma imensa multidão que formavam uma espécie de muro intransponível, principalmente àqueles que como ele eram de estatura menor. Mais uma vez se reprovando por estar envolvido nessa convulsão social, pensou em retornar à sua coletoria tranquila e sossegada. Mas, ao contrário, se viu tentando transpor o muro humano que se interpunha à sua frente. Pensou rapidamente e visualizou as diversas ruas da cidade e suas pequenas vielas e traçou a mais provável rota que Jesus ladeado por esta  multidão deveria passar.
Contornando rapidamente a multidão encontrou uma pequena viela que conhecia bem, pois quando queria evitar os olhares e insultos era por ela que ele retornava para sua casa. Contendo-se para não correr caminha o mais rápido possível pela apertada rua e ao final caminhando mais dois quarteirões entra em outra viela quase imperceptível.
Pronto, chegara à rua principal e mais larga de Jericó. Sê têm uma rua pela qual Jesus teria que passar seria esta. Mas a muralha humana já se formara e muito maior do que a que tentara transpor anteriormente. De onde ele estava, a não ser que Jesus tivesse dois ou mais metros de altura, ele não conseguiria ver nem os cabelos dele. Um barulho misto de gritos e palavras de ordem eclode nos portões da cidade, vindo lentamente em direção a onde eles estavam – Jesus estava entrando na rua principal da cidade!
Irritado e quase tomado pela frustração ele levantou os olhos e viu algumas árvores de sicômoro. Algumas já estavam ocupadas por meninos, mais espertos do que ele. Correu até uma mais distante e rapidamente, como fazia em sua infância, subiu pelos galhos e se posicionou de forma segura. Sua respiração estava acelerada pela corrida e o esforço de subir na árvore. Mas que loucura se apossou dele! Ele era um adulto, tinha uma posição social, esposa, filhos, empregados e servos e ali estava ele – agindo como um moleque irresponsável. Será que alguém estava observando seu comportamento infantil? Logo se tranquilizou, pois todos os olhares estavam fixos na direção da rua em que Jesus haveria de surgir e ninguém tinha interesse no que ele estava fazendo, até porque todos os sicômoros estavam ocupados por aqueles que como ele desejavam ver esse Jesus.
Enquanto está ali apoiado ao tronco e segurando firme um galho mais grosso começa a fazer algumas conjurações: será que Ele vai para alguma casa especifica? Conhece alguma família em Jericó? Mais provável que esteja apenas de passagem para Jerusalém. Mas logo vai escurecer, o que Ele pretende?
Os sons até então distantes vão aumento seus decibéis na mesma proporção em que Jesus caminha pela rua principal. Ainda não é possível distingui-lo dos demais, pois uma pequena comitiva caminha entre uma multidão que se apinha sobre eles.  Ele sente certa satisfação, pois sua estratégia havia dado certo e agora somente alguns metros separam Jesus da árvore em que ele escolheu subir. Assim que Jesus passar ele vai descer da árvore, retornar à coletoria e ao final do dia chegará à sua casa e contara sua aventura juvenil para surpresa e delírio de sua esposa e seus filhos, que jamais o imaginariam capaz de tal traquinagem.
Mas de repente se faz um silêncio absoluto. Ele olha para baixo e para seu espanto e de todos ali, Jesus está parado debaixo da árvore em que ele havia subido. Então Jesus levantando os olhos o chama pelo nome! "Zaqueu, depressa! Desça dai, pois hoje Eu vou hospedar-Me em sua casa!"
Por uma fração de segundo Zaqueu ficou ali, parado, imaginando se realmente havia ouvido Jesus o chamar pelo nome ou estava confundindo com outro nome. Mas quando o seu olhar encontra o olhar de Jesus, toda e qualquer dúvida se dissipa! Realmente Jesus o havia identificado pelo nome. Mas como? Ele tinha certeza absoluta que nunca haviam se encontrado!
Ainda completamente impactado por Jesus ter parado e o chamado pelo nome, desce apressadamente da árvore e começa a caminhar à frente de Jesus em direção à sua casa. A multidão antes intransponível, agora como o Mar Vermelho vai se abrindo para que ele, Jesus e seus discípulos possam passar livremente. Mais alguns metros e começa a visualizar sua casa. O que dirá à sua esposa ao chegar com tantas pessoas completamente estranhas de uma vez e ainda para jantarem. Chegaram!!
Vai entrando e acomodando Jesus e os discípulos o melhor possível, enquanto a multidão vai cercando completamente sua casa. Encontra a esposa que fica assustada com tanta movimentação súbita e resumidamente conta-lhe o que acontecera e orienta o que ela precisa fazer. Chama seu filho mais velho e o envia para convidar todos seus colegas da coletoria e seus amigos publicanos para que venham à sua casa para conhecerem Jesus e jantarem juntos.
Do lado de fora não faltavam aqueles que se escandalizaram com o gesto amigável de Jesus. Tantas casas e homens muito mais importantes e justos e esse Mestre vai se hospedar na casa de um publicano e pecador como Zaqueu. Não é sem razão que as autoridades religiosas de Jerusalém o desprezam. De fato os fariseus e escribas têm motivos de sobra para perseguirem e criticarem os ensinos e as atitudes deste galileu. Quem pode levar a sério uma pessoa que se associa a publicanos traidores da pátria!
Mas lá dentro da casa, Zaqueu ouve atentamente cada palavra proferida por Jesus. De fato, como haviam dito a ele antes, nunca ouvira alguém falar da Torá e do Reino de Deus com tanta autoridade e poder como Jesus! Muito do que Jesus fala, ele já sabia ou tinha ouvido antes, mas agora tudo se torna novo e vivo!
Sua esposa e demais serviçais da casa começam a servir a refeição para todos os que ali conseguiram adentrar. Todos querem ficar o mais próximo de Jesus possível. Ainda que feita apressadamente e em quantidade muito acima do normal, a refeição tem um sabor especial. São os mesmos alimentos diários que estão sendo servidos, mas a companhia de Jesus torna aquele momento incomparável e maravilhosamente extraordinário!
As horas se passam rapidamente, mas ninguém tem coragem de sair. Para onde mais poderiam ir? Ah! Se a ampulheta do tempo pudesse parar esse seria o momento certo. Ou se ao menos os grãos de areia pudessem cair infinitamente mais lento do que o normal, que maravilha seria!
Então não podendo mais ser contido o turbilhão que tomara conta do seu interior, Zaqueu coloca-se em pé e se dirigindo a Jesus, mas também falando de maneira que todos os presentes na casa pudessem ouvir com clareza, faz uma declaração surpreendente: "Senhor, de agora em diante eu darei metade da minha riqueza aos pobres e se descobrir que cobrei demais os impostos de alguém eu pagarei uma multa devolvendo-lhe quatro vezes mais!" Um silêncio toma conta do ambiente. Não se ouve nem mesmo uma respiração. É como se o tempo congelasse por alguns segundos.
Então Jesus fala: "Isso mostra que hoje a salvação chegou a esta casa. Este homem era um dos filhos perdidos de Abraão, e Eu, o Messias, vim buscar e salvar filhos perdidos como este".
Uma explosão de jubilo de alegria ecoa por toda a casa e estende-se para o lado de fora e logo toda a cidade de Jericó toma conhecimento das declarações de Zaqueu, o chefe dos publicanos, e a resposta de Jesus.
Agora muitos anos depois desse acontecimento inigualável, Zaqueu uma vez mais se vê relembrando cada detalhe daquele dia memorável. Como acordara com aquela sensação de que o dia seria diferente. E não apenas foi diferente como fez toda a diferença na vida de Zaqueu e sua família. E a única razão é que Jesus entrou na sua casa e na sua vida!!

Como Zaqueu
Como Zaqueu eu quero subir,
O mais alto que eu puder
Só pra te ver, olhar para Ti.
E chamar sua atenção para mim
Eu preciso de Ti Senhor
Eu preciso de Ti o Pai
Sou pequeno de mais
Me dá a tua paz
Largo tudo pra te seguir
Entra na minha casa, entra na minha vida.
Mexe com minha estrutura, sara todas as feridas.
Me ensina a ter Santidade
Quero amar somente a Ti
Porque senhor é meu bem maior, faz um milagre em mim.

Compositor e Interprete: Regis Danese


Utilização livre desde que citando a fonte
Guedes, Ivan Pereira
Mestre em Ciências da Religião.
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terça-feira, 10 de abril de 2018

Qual a Tua Pergunta? (Reflexão)


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            Alguém escreveu no muro: "Cristo é a Resposta". Alguns dias depois, outra pessoa escreveu embaixo: "Qual é a Pergunta?" Tão importante quanto uma boa resposta - é uma boa pergunta.
O que nos impulsiona e nos move não é tanto a resposta - mas sim a pergunta.
A pergunta trás à tona a dúvida; expõe o que realmente esta preocupando o nosso coração; o que esta desassossegando a nossa alma; torna claro o que realmente ocupa a nossa atenção e quais realmente são os nossos verdadeiros Interesses.
UMA PERGUNTA ERRADA, CERTAMENTE LEVARÁ
A UMA RESPOSTA IGUALMENTE ERRADA.
Mas por que evitamos fazer as perguntas certas, aquelas que realmente importam?
Uma resposta provável é de que não queremos sair da nossa zona de conforto. No transcorrer da vida construímos um pequeno castelo e nos entrincheiramos dentro dele e qualquer coisa que possa colocar em risco a nossa "segurança", ou seja, qualquer coisa que possa nos desestabilizar deve ser evitado a qualquer custo. E nada gera mais desconforto do que uma boa pergunta. Você é realmente feliz? O que vem depois da morte? Estas e outras semelhantes são perguntas que penetram os mais bem construídos castelos e atingem com força intensa a nossa alma, de maneira que devem ser evitadas ou substituídas por perguntas mais amenas e até banais: Quem matou aquele personagem da novela? O que vou fazer neste feriado? Qual o time que será campeão este ano?
E quando conseguimos formular as perguntas que realmente importa? Quando vivenciamos um momento de crise. É durante as crises, quando tudo na nossa vida fica desfocado e quando os nossos aparentes fundamentos são abalados é que nos abrimos totalmente para enfrentarmos as perguntas que realmente precisam ser feitas. Durante a crise nos desnudamos e enfrentamos os grandes questionamentos, que estão latentes em nossa alma e que estavam adormecidos no recôndito de nosso coração.
A genuína felicidade, segurança e fé somente são encontradas nas respostas às grandes perguntas. Enquanto não tivermos coragem suficiente para formularmos as perguntas certas, permaneceremos no limbo da falsa segurança e da pseudo-esperança.
Em suma o que realmente importa é:
"QUAL A SUA PERGUNTA?"
O que te move? O que te motiva? O que te interessa?
Onde esta o Teu coração?
Você esta preocupado com o destino eterno da sua vida?

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Guedes, Ivan Pereira
Mestre em Ciências da Religião.
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terça-feira, 3 de abril de 2018

Apocalipse: A Soberania de Deus


Nos dias em que o livro do Apocalipse foi escrito o império romano ainda dava as cartas em grande parte do mundo conhecido. O imperador romano e seus exércitos fizeram reinos e reis se curvarem diante deles e as ordens emanadas de Roma repercutiam até as mais extremas localidades e vilarejos debaixo de seus domínios.
Mas os romanos não foram nem o primeiro e nem o último império a surgir no mundo. Desde os primórdios da história humana temos relatos de impérios que surgiram e desapareceram. Até recentemente se falava do império russo e americano e que atualmente são apenas sombra do que foram.
Todos estes impérios e seus líderes, de ontem e de hoje, pensavam que estavam no controle do mundo. Mas os fatos históricos são contundentes em demonstrar que todos e cada um deles jamais estiveram realmente no “controle” dos acontecimentos. Um a um surgiram e desapareceram.
O Apocalipse foi escrito para mostrar quem está no controle.
O capítulo quatro do Apocalipse marca uma mudança drástica tanto do cenário quanto do assunto a ser desenvolvido. Nos primeiros capítulos o palco era a terra, mas agora é o céu. Nos primeiros onze versículos o escritor nos transporta juntamente com ele para diante do Deus eterno e glorioso assentado no trono, que simboliza seu Reino e Soberania.[1]
O termo “trono” aparece nada menos do que dezessete vezes nos capítulos quatro e cinco. Este trono esta no céu e não na terra, pois o exercício de seu poder e soberania se estende sobre todas as esferas da vida, seja terrena ou celestial.[2]
O escritor não faz qualquer tentativa de descrever a Deus, mas apenas descreve toda glória e resplendor produzido por sua presença ali. Toda descrição visa indicar características do caráter deste que se assenta no trono – sua santidade, sua justiça e a salvação provida através do Filho.
Ao redor do trono encontram-se vinte e quatro anciãos assentados em tronos representativos de todos aqueles que foram salvos, tanto no Primeiro quanto no período do Segundo Testamento, quer fossem judeus ou gentios. O objetivo deles é somente um – adorar Àquele que está assentado no trono, pois somente Ele é digno de receber adoração e louvor.
“Não devemos, contudo, perder de vista o fato de que a verdadeira razão por que estes vinte e quatro tronos com seus ocupantes são mencionados aqui é para intensificar a glória do trono que ocupa o centro. Esse trono representa a soberania de Deus. Os vinte e quatro anciãos estão constantemente rendendo homenagem ao Ser que ocupa o trono, tão grande é ele!” (HENDRIKSEN, 1987, p.108.
Os relâmpagos, as vozes e os trovões que irrompem intermitentemente a cena sugerem as manifestações visíveis e audíveis da presença poderosa de Deus (cf. no Sinai – Êxodo 19.16). Os poetas hebreus utilizavam os trovões para indicar a presença e a majestade de Deus (cf. I Samuel 2.10).
Se esta visão da Soberania de Deus não for adequadamente compreendida, tanto a unidade do livro quanto seu propósito será perdido. A certeza absoluta de que Deus reina soberanamente foi o alento do coração e da alma daqueles primeiros cristãos que estavam sendo esmagados pelo poder déspota de Roma e seus implacáveis imperadores; continua sendo o grande farol que dá sentido e direção para os cristãos atuais, que vivem nas trevas intensas do pós-modernismo com sua total falta de verdades absolutas.
Mais do que em qualquer outra época, os cristãos deveriam cantar a todo pulmão o que o salmista já cantava em seus dias e que os anciãos e seres viventes cantam eternidade adentro: “REINA O SENHOR, tremam os povos. ELE ESTÁ ENTRONIZADO ACIMA DOS QUERUBINS, abale a terra” (Salmo 99.1).

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Guedes, Ivan Pereira
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Referências Bibliográficas
ALEXANDER H. E. Apocalipse. São Paulo. Ed. Ação Bíblica do Brasil, 1987.
ASHCRAFT, Morris. Comentário Bíblico Broadman, v.12, ed. JUERP, 3ª ed., 1983.
CHAMPLIN, Russell Norman. O Novo Testamento Interpretado, v. 6, ed Milenium, São Paulo, 1988.
CORSINI Eugênio. O Apocalipse de São João. São Paulo. Edições Paulinas, 1984.
DOUGLAS J. D. O Novo Dicionário da Bíblia. São Paulo. Ed. Vida Nova, 2001.
FAUSSET, A. R. The Fausset's Bible Dictionary. Grand Rapids, Michigan: Zondervan, 1949.
HENDRIKSEN, William. Mais Que Vendedores - Interpretação do livro do Apocalipse. São Paulo.  ed. CEP, 1987.
EASTON, Matthew George. Easton's Bible Dictionary. Thomas Nelson, 1897.
ELWELL, Walter A. (Edited) Baker's Evangelical Dictionary of Biblical Theology.  Grand Rapids, Michigan: Baker Book House Company, 1996.  [Baker Reference Library].
LAYMON, Charles M. The Book of Revelacion. Nova York. Abingdon Press, 1960.
LADD, George. Apocalipse – Introdução e comentário. São Paulo. Vida Nova, 2008.
McDOWELL, Edward A. O Apocalipse – Sua Mensagem e Significação. Rio de Janeiro. Casa Publicadora Batista, 1960.
SMITH, William, and LEMMONS, Reuel G. The New Smith's Bible Dictionary. Garden City, N.Y.: Doubleday & Co, 1979.
SUMMERS Ray. A Mensagem do Apocalipse. Rio de Janeiro. Ed. JUERP, 1980.



[1] “Eu continuei olhando até que foram postos uns tronos e um Ancião de dias se assentou” (Daniel 7.9).
[2] “O Senhor tem estabelecido o Seu trono nos céus, e o Seu reino domina sobre tudo”. (Salmo 103.19).

quinta-feira, 29 de março de 2018

Isaías: O Último dos Cânticos do Servo de Yahvé - Prólogo (52.13-15)



            Como vimos em artigos anteriores o Profeta Isaías é com toda propriedade chamado de “Profeta Messiânico” ou ainda “Profeta Evangélico” pelo fato de que nenhuma outra profecia do Segundo Testamento trata tanto e de forma tão minuciosa a questão messiânica como esse grande profeta e nenhum outro de seus pares proféticos foi tão citado e/ou referenciado do que os escritos deste profeta.
            Na segunda parte de suas profecias Isaias vai registrar uma série de cânticos denominados de “Cânticos do Servo de Yahvé” (43.1 – 53.12), onde temos em detalhes a vinda do Messias que todos os evangelistas e escritores do Segundo Testamento não têm qualquer duvida em identifica-lo com a pessoa de Jesus Cristo (Mt 8.17; Mc 15.28; Lc 22.37; Jo 12.38; At 8.27-40; 1Pe 2.21–24). Mas a grande maioria dos judeus rejeitou e continua rejeitando Jesus Cristo e permanecem aguardando a vinda do Messias até os dias atuais.[1]
            A revelação do programa salvífico de Deus através da História, registrada na Bíblia, é gradativa. Nesta série extraordinária de cânticos as mensagens do profeta Isaías alcançam o que podemos chamar de o clímax das profecias messiânicas. O conjunto dos Cânticos revela a mensagem maravilhosa da graça salvadora de Deus. Os Cânticos estão em forma crescente e cada um deles amplia e ilumina o próximo caminhando para o clímax no quarto e último o Cântico do Servo Sofredor (52.13-53.12), que tem sido citado por muitos expositores bíblicos como sendo o texto mais importante do Primeiro Testamento e quase sua totalidade é utilizada pelos evangelistas nas suas respectivas narrativas da paixão de Cristo. Nele vemos a convergência de todas as descrições do Messias que Isaías usou desde o capítulo quatro (4.2-6). Aqui está a descrição mais clara e abrangente do Primeiro Testamento sobre os sofrimentos do Messias em um só lugar. No que concerne ao fato e à exatidão da descrição, poderia muito bem ter sido composta após a tragédia no Calvário (ROBINSON, 1954, p. 146). Policarpo a chamava de a passagem de ouro do Primeiro Testamento. (veja o quadro de referências dessa passagem nas narrativas evangélicas).
Contexto Próximo
            Para melhor compreensão deste último cântico é necessário compreendermos o desenvolvimento narrativo proposto por Isaías nos capítulos 50 a 52.12. Aqui o profeta apresenta dois tipos de servos: um é o desobediente servo identificado com a nação israelita, que abandonou o seu relacionamento com Deus (Isaías 50.1-3, 11), e o outro é o Servo obediente, Cristo (versos 4-10). Este segundo servo se identifica com as necessidades das pessoas e submete-se plenamente a Deus (versos 4-5). Ele sofre, mas confia em Deus e continua comprometido em fazer a vontade de Deus (versículos 6-9). Aqueles que temem o Senhor devem obedecer (ouvir) o Servo (verso 10). Imediatamente o profeta introduz uma série de imperativos onde enfatiza a necessidade urgente de que as pessoas ouçam e obedeçam (51.1–16). O senso de urgência é realçado mediante o fato de que Deus está pronto para manifesta sua ira (juízo) sobre eles (versos 17–23). A nação de Israel deve acordar (52.1–2). A partir daqui Isaías muda o tom e lembra-os de que se no passado Deus agiu para puni-los (versos 3–6), muito em breve agirá para salvá-los, e esta alegre mensagem de salvação, não ficará restrita apenas aos israelitas, mas será anunciada a todos as pessoas da terra (todas as nações - versos 7-10). Mas este anúncio torna ainda mais urgente que eles abandonem seu estilo de vida babilônico e retornem à comunhão em santidade com Deus (versos 11-12). Então quando chegamos aos últimos versículos do capítulo 52 (13-15) somos conectados diretamente à descrição dos sofrimentos que o Servo haverá de passar, como o agente da salvação de Deus, pelas quais todos (israelitas e gentios) que vierem a crer serão redimidos. 
Quando adentramos a este último cântico somos arrebatados ao cume mais alto da cordilheira profética messiânica do Primeiro Testamento. Este cântico tem sido chamado de o "Cântico Épico da Redenção" do Primeiro Testamento quando alcança seu clímax em sua grande revelação do Redentor. Todos os movimentos inspirados se unem nesta sinfonia de salvação através do sacrifício vicário do Servo sofredor. A ênfase do poema está no "Messias vitorioso e triunfante". É através do sofrimento substitutivo do Servo que a salvação é alcançada e ele é exaltado. Com uma linguagem poderosa, o profeta Isaías descreve como a graça de Deus libertara todos os povos da escravidão do pecado através de seu servo sofredor.

Prólogo (52.13-15)
            Assim como no livro de Jó este último cântico abre-se com um prólogo, que ocupa os últimos três versos do capítulo cinquenta e dois, também é semelhante porque só aqui e no final é que Deus fala. Outra semelhança é o fato de como em Jó aqui também é o próprio Deus quem faz a apresentação – “Eis aqui meu servo” (como havia feito no primeiro cântico 42.1).
            Os ouvintes/leitores conhecem os cânticos anteriores é já sabem que o Servo tem uma missão divina para realizar (42.1-4) e que implica em muito sofrimento (49.1-7; 50.4-7). O profeta omitiu propositalmente a razão do intenso sofrimento para agora, no último cântico, explicitar o grande motivo desse terrível sofrimento pelo qual o Servo voluntariamente (em obediência a Deus) terá que suportar.
É o próprio Senhor (Yahweh) que apresenta o Servo e os principais temas da poesia nos versos de abertura, que aparecem e reaparecem nos grandes movimentos centrais. Todos os comentaristas são obrigados a debater aqui a questão imposta sobre “quem” é esse Servo. Uma abordagem ampla sobre esses debates com as diversas opiniões pode ser encontrada no excelente comentário Albert Barnes - Notes on the Bible - referente a 52.13-15 a 53.1-12. Mas de forma bem pedagógica cito a explicação proposta por Stanley M. Horton em seu precioso comentário deste livro profético:
O uso da frase “o servo do Senhor” pode ser retratada como três círculos concêntricos, o círculo exterior é a nação de Israel como um todo, pois ela foi chamada para fazer uma obra para o SENHOR; o círculo mediano é o remanescente piedoso de Israel que foi fiel ao SENHOR, mas que não poderia fazer a grande obra que precisava ser realizada, a obra de redenção e restauração; e o círculo mais interior é o próprio Messias, aquEle que realiza essa obra pela sua morte e ressurreição (2003, p. 553).[2]
Eis que o meu servo procederá com sabedoria [prosperará];
será exaltado, e elevado,
e mui sublime (52.13)
            Apesar de todo sofrimento e humilhação a Ele infringido, conforme os cânticos anteriores, Deus mesmo declara que o seu Servo haverá de prosperar sobre tudo e sobre todos, pois procederá com sabedoria (administrará seu reino com admirável sabedoria).[3]
            Mas como tão bem afirmou Paulo a sabedoria de Deus é loucura para os sábios e entendidos deste mundo tenebroso (1Co 1.23-24). A sabedoria do Servo o leva a mais profunda humilhação, em plena obediência ao Senhor, se submete à dolorosa e vergonhosa morte de cruz sendo completamente abandonado por Deus (Deus meu! Deus meu! Por que me abandonastes!). E deste aparente fracasso Ele é elevado pelo próprio Deus ao lugar mais alto de honra e de glória. O mundo jamais compreendera esse tipo de sabedoria, bem como o evangelicalismo brasileiro hedonista.
Esse é um jeito estranho de ser sábio, um jeito estranho de governar, um jeito estranho de ser exaltado, um caminho irracional para ser bem sucedido. Tudo o que sabemos sobre ser bem sucedido, eficácia e exaltação diz que se deve afirmar-se para ser exaltado, mas jamais ser humilhado. A humildade certamente não é o caminho para conquistar o poder. Satanás apresentou a Jesus o caminho do sucesso e do poder, conforme seu “best-seller” lido por todos os poderosos deste mundo - um caminho que teria claramente contornado a humilhação da cruz (Mt 4.1-11). Quando Jesus estava na cruz, Satanás, através dos espectadores, fez a oferta final; Ele ofereceu-lhe a oportunidade de descer da cruz e começar seu reinado (Mt 27.38-44). As autoridades religiosas judaicas e o populacho extravasam seu repúdio a um pretenso “Messias” que se deixa pregar em uma vergonhosa cruz; e os seus próprios discípulos ficam atônitos e sem ação diante do Gólgota e o representativo desta sensação de profunda frustração está nos dois discípulos que retornam para Emaús, cuja mistura de dor e decepção embaçam seus olhos de tal maneira que não conseguem reconhecer o Jesus ressurreto que caminha e conversa com eles através da longa jornada de praticamente um dia inteiro (Lc 21.13-35).
No entanto, Jesus desde o princípio optou pela sabedoria do alto, escolheu o caminho do Servo - o caminho da humildade, o caminho da obediência, o caminho da cruz. E será assim que Ele prosperará. Pouco antes de proclamar que ele seria levantado (crucificado), ele disse: "Agora o juízo está sobre este mundo; agora o governante deste mundo será expulso" (Jo 12.31). A grande batalha que ele travou foi com Satanás, e a grande vitória foi vencida na cruz. Foi assim que Ele tem atraído milhares e milhares de pessoas para si mesmo. É assim que ele nos atrai para Ele mesmo. E é esta a razão pela qual Ele foi exaltado por Deus.  
            A sequência destas três formas verbais: exaltado, elevado e sublime,[4] refere-se à sequência dos eventos relacionados com o Servo: exaltado no sentido que emergirá de seu estado de humilhação; elevado, pois receberá honra continuamente; sublime, pois será alçado à sua glória eterna. Sem muito esforço é possível antever aqui os eventos ocorridos com Jesus Cristo em sua morte (humilhado), ressurreição (exaltado), ascensão (elevado) e entronização (sublime/glorificado).[5]
            Nenhum outro alcançou maior glória do que o Senhor Jesus Cristo. Sua exaltação se realiza em sua ressurreição, ascensão e entronização na glória celestial. Ele foi elevado acima de todos poderosos da história humana. Isaías declara que o Servo haverá de receber a mais alta exaltação. Será uma exaltação total e absoluta. Deus lhe dará um nome acima de todos os nomes. Portanto, Ele é o único que pode salvar/redimir/resgatar seu povo.
            No livro de Atos temos as declarações de exaltação de Jesus Cristo: “Ora, a este Jesus, Deus ressuscitou, do que todos nós somos testemunhas. De sorte que, exaltado pela destra de Deus, e tendo recebido do Pai a promessa do Espírito Santo, derramou isto que vós agora vedes e ouvis” (2.32-33). “O Deus de Abraão, de Isaque e de Jacó, o Deus dos nossos antepassados, glorificou seu servo Jesus, a quem vocês entregaram para ser morto e negaram perante Pilatos, embora ele tivesse decidido soltá-lo” (3.13; cf. versos 14,15 e 18). “Ressuscitando Deus a seu Filho Jesus, primeiro o enviou a vós, para que nisso vos abençoasse, no apartar, a cada um de vós, das vossas maldades” (3.26). Atos (1.1-11) apresenta um relato histórico da ascensão de Jesus Cristo. O livro do Apocalipse nos apresenta de forma inigualável o Jesus Cristo glorificado, que governa todas as coisas e que virá para exercer sua prerrogativa de julgar os vivos e os mortos. Mas este não é o Jesus que interessa aos evangélicos hedonistas do século XXI.
Os versículos 14 e 15, que concluem a primeira estrofe, apresentam uma estrutura que se concentra na primeira linha do versículo 15, marcada com "X". As linhas "A" e "B" apresentam reação ao Servo do Senhor, e as linhas "1" e "2" apresentam a razão dessa reação.

Como pasmaram muitos à vista dele,
pois o seu parecer estava tão desfigurado, mais do que o de outro qualquer,
e a sua figura mais do que a dos outros filhos dos homens. (52.14)
            de igual modo ele aspergirá muitas nações,
e reis calarão a boca por causa dele.
Pois aquilo que não lhes foi dito verão,
e o que não ouviram compreenderão. (52.15)

Os sofrimentos infligidos ao Servo foram de tal forma que impactou a todos que o contemplaram. Seu semblante ficou tão deformado que Ele perdeu as características de sua humanidade: “Sua forma foi tão mudada que quase não podiam dizer que Ele era um ser humano” (cf. Is 49.7 e 50.6).[6] Toda a dignidade humana lhe fora roubada de maneira que não se podia reconhecê-lo como uma pessoa. Jesus tornou-se "o sofrimento personalizado" conforme o poema deixa claro mais adiante. Seus sofrimentos foram algo espantoso e não somente físico, mas mental e espiritual.[7] É como se o profeta estivesse sentado ao pé do Calvário. Ele vê o Servo (Cristo) pendurado no madeiro depois de ter sido cruelmente fustigado, cheio de espinhos, ferido e açoitado. Seu rosto estava coberto de contusões e sangue. Mas esse Servo de Deus, que será brutalmente morto, será exaltado, e essa será outra visão que espantará os que O contemplarem em seu poder e glória.
Assim como os amigos de Jó as pessoas que vierem a contemplar tão grande sofrimento do Servo dirão que ele fez algo terrível para receber tão terrível castigo da parte de Deus, um pecador acima de todos os homens. Mas o resultado chocante de seus sofrimentos é a provisão de purificação não apenas para os israelitas de acordo com a carne, mas para todas as nações, isto é, nós também. O justo pelos injustos, o santo pelos pecadores, pois Ele estará sendo moído pelas nossas iniquidades e recebendo sobre si a sentença de morte de nossos pecados. Toda a justiça de Deus cairá sobre Ele, para não cair sobre nós e Ele será abandonado pelo Pai, para que nós possamos declarar em alto e bom som “Abba Pai”.
            O aspergir [borrifar][8] está frequentemente associada à purificação do pecado no Primeiro Testamento (Êx 24.8; Lv 3.6; Nm 19.21, Ez 36.25). Mas diferentemente agora todas as nações e não apenas Israel/Judá, terão pleno acesso ao perdão e salvação proveniente, não mais dos sacrifícios de animais levíticos, mas unicamente do único e perfeito sacrifício de Jesus Cristo (Servo) no Calvário.
Os reis da terra se calaram, o silêncio de reconhecimento da grandeza daquele que está diante deles. Aqueles de todas as tribos, povos e raças que  nunca souberam e nunca virão creram. Eles que nunca tinham ouvido as profecias do Primeiro Testamento de um Salvador (Messias) vindouro; eles que não tiveram a vantagem de séculos de ritual religioso (Tabernáculo, Calendário religioso Levítico, Templo) apontando para a necessidade do sofrimento vicário de um Cordeiro perfeito; mas na proclamação do Evangelho eles poderão ouvir e ver (perceber) a verdade gloriosa sobre o sofrimento do Servo, ou seja, que ele morreu pelos seus pecados. O apóstolo Paulo, instrumento para traduzir essa mensagem messiânica do Servo Sofredor para os gentios, concluindo sua exposição do Evangelho aos crentes da cidade de Roma, faz esta declaração maravilhosa para todos os povos: Mas antes, como está escrito [Isaías]: “Hão de vê-lo aqueles que não tinham ouvido falar dele, e o entenderão aqueles que não o haviam escutado” (Rm 15.21). Tudo aqui se encaixa harmoniosamente com a escatologia desenvolvida por Isaías de um reino messiânico universal.
            A exaltação de Cristo (Servo) é para abençoar, não para condenar (verso 13). O reconhecimento de sua grandeza é ilustrado pelo fato de que reis e nações se prostrarão diante Dele (cf. Is 49.23; Sl 76.12; 102.15; 107.40; 138.4; 148.11; Jó 12.21; ainda Is 41.2; 45.1; 49.7,22,23; 60.3,16).
A mensagem de salvação e dos poderosos feitos do Senhor que os demais povos nunca haviam ouvido ou visto, lhes serão anunciadas e eles contemplaram a grande salvação de Deus (Rm 15.21; cf. também 16.25,26). Mesmo sendo rejeitado por Sua própria nação, Ele será crido por muitos povos que nunca tinham ouvido falar sobre Ele.

Conclusão
            Estas primeiras estrofes que compõe o prólogo desse último cântico do Servo servem de preparação para a proclamação completa que se fará a seguir. A descrição da inversão da situação do Servo do Senhor causará um impacto profundo e intenso sobre as nações e poderosos da terra e serve para despertar o ouvinte/leitor de que o que virá a ser declarado é algo maravilhoso e grandioso.
            Provavelmente em nenhuma parte do Primeiro Testamento, há uma exposição tão clara do propósito pelo qual o Salvador morreu. Isaías precede de forma inigualável toda mensagem evangélica que se constituirá no Segundo Testamento. Nem mesmo os evangelistas, ou as mais profundas cartas paulinas e talvez o Apocalipse possa alcançar a sublimidade das palavras do profeta Isaias aqui proferidas setecentos anos dos eventos relacionados ao Senhor Jesus Cristo.


Utilização livre desde que citando a fonte
Guedes, Ivan Pereira
Mestre em Ciências da Religião.
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[1] A partir das interpretações judaicas ao longo dos séculos têm surgido inúmeras propostas diferentes para interpretar esses cânticos. O grande comentarista J. Ridderbos em seu precioso comentário sobre o livro de Isaias nos oferece uma ampla discussão sobre as mais importantes linhas interpretativas destes cânticos (1990, p. 338-345).
[2] Outra ilustração semelhante e muito pedagógica é a elaborada pelo comentarista bíblico Franz Delitzsch em que ele propõe que o conceito de servo poderia ser simbolizado por uma pirâmide: “A base era Israel como um todo; a seção central era aquele Israel, que não era meramente Israel segundo a carne, mas também segundo o espírito; o ápice é a pessoa do Mediador da salvação que sai de Israel.” (1889, p. s/n – 42.1).
[3] O Targum traduz assim essa frase: “eis que meu servo, o Messias, prosperará”. Temos aqui uma afinidade com os salmos de entronização nos quais Yahweh é reconhecido como Rei de Israel. O Calvário sempre foi loucura para os gregos e escândalo para os judeus, mas para todo crente ensina Paulo o Calvário é a “sabedoria de Deus” (1Co 1.24). A exaltação de Cristo, vencendo a morte, demonstra a sabedoria de Deus e a ignorância do ser humano decaído.
[4] “Sublime e elevado” são usados em combinação quatro vezes neste livro e em nenhum outro livro do Primeiro Testamento. Nos outros três lugares (6.1; 33.10; 57.15) são usadas para se referir a Deus. É possível que Paulo estivesse cantando essas músicas enquanto escrevia aos filipenses e escrevia seu hino cristológico: “assumindo a forma de um escravo ... ele se humilhou”, mas Deus “exaltou soberanamente” a Jesus (2.6-9). Também Atos: “teu santo servo” e “foi exaltado” 2.13, 26 e 33).
[5] O Targum tem aqui uma interpretação messiânica, tal como faziam os antigos rabinos como Aben Ezra e Alshech. Diz o Targum: "Eis que Meu Servo, o Messias, aparecerá". Banchama afirma que o Messias seria exaltado acima de Abraão e Moisés, e seria superior aos anjos ministrantes (assim diz Pesika, no Targum sobre Núm. 27.2).
[6] Não tem faltado comentarista que em harmonia com a interpretação judaica afirmam que a nação de Israel é o “servo” em decorrência de sua longa história de abusos sofridos. Mas tais intepretações acabam sendo prejudicadas pelo conjunto dos Cânticos que enfatizam a personalidade do Servo e não sua tipificação.
[7] Como tão bem vai descrever Lucas em sua narrativa evangélica do Getsêmani.
[8] A palavra traduzida como "borrifar/aspergir" também significa a “assustar”, ainda que o significado principal desta palavra seja "borrifar/aspergir". O termo também significa "sobressalto". Se o significado primário de uma palavra não se encaixa no contexto, então é possível selecionar um significado secundário ou metafórico que satisfaz essas exigências. Uma vez que o profeta está traçando um paralelo entre o assombro dos espectadores com a execução do Messias e o grande assombro dos reis quando o Messias está sentado em Seu trono de glória, é possível aceitar o significado "espanto" como o termo correto expressando a ideia do hebraico nesta conexão. Devemos, portanto, tornar a expressão: "ele deve surpreender muitas nações".