domingo, 5 de abril de 2026

Ressurreição de Jesus Cristo nas Narrativas Evangélicas (Páscoa)

Há alguns relatos que apenas um, dois ou três evangelistas registram com mais ou menos detalhes. Os acontecimentos relacionados ao nascimento de Jesus, ainda que de grande relevância, foram escritos apenas por Mateus e Lucas, enquanto Marcos os ignora por completo e João apenas faz referência, retrocedendo a origem de Jesus à eternidade com Deus.

Já os acontecimentos relacionados à Ressurreição de Jesus Cristo são registrados, em maior ou menor detalhe, pelos quatro evangelistas. Somente este fato já seria suficiente para produzirmos milhares de comentários. Todavia, fiquei negativamente surpreso comigo mesmo, pois, apesar de manter este blog desde 2016 e ter produzido mais de cem artigos, não encontrei nenhum específico sobre este momento único e incomparável da Ressurreição do Senhor e Salvador Jesus Cristo.

Desejo compensar este lamentável lapso com esta pequena série das narrativas paralelas da Ressurreição. Que o Espírito Santo aplique estas verdades ao coração e à mente de cada leitor, a começar por mim!

Primeiramente, é preciso enfatizar que as narrativas da Ressurreição nos Evangelhos não devem ser lidas como relatos isolados ou meramente complementares de um acontecimento extraordinário, mas como o ápice conclusivo da vida, do ministério e da missão de Jesus Cristo. Cada evangelista constrói sua narrativa enfatizando, desde as primeiras linhas, a identidade de Jesus revelada em suas palavras, obras, sinais, autoridade sobre a enfermidade, sobre a natureza, sobre os demônios e até sobre a própria morte.

É na Ressurreição, porém, que essa revelação alcança sua expressão máxima e plena, pois nela o Pai vindica o Filho, confirma a eficácia de sua obra redentora e manifesta, de forma definitiva, que Jesus é o Cristo, o Senhor e o doador da vida — vencendo a morte para sempre.

Assim, a ressurreição não aparece nos Evangelhos como um apêndice final, mas como a consumação de toda narrativa cristológica. Cada detalhe explícito ou implícito das narrativas evangélicas convergem para esse momento: as promessas do Antigo Testamento, os anúncios da paixão, o caminho para a cruz e a expectativa do Reino de Deus. Sua ressurreição não é somente um triunfo sobre a morte, mas explicita o sentido de sua encarnação, de seu sofrimento obediente e de seu sacrifício expiatório. Por esta razão, as narrativas da paixão ocupam lugar central na fé cristã: elas demonstram que a cruz não foi derrota, mas o caminho da vitória, e que a vida e o ministério de Jesus encontram na ressurreição seu ponto máximo, sua confirmação divina e seu alcance universal.

Mas, se essas narrativas são tão fundamentais, por que os evangelistas são tão econômicos em seus relatos? A resposta simples e direta é que o objetivo deles não era satisfazer curiosidades, mas testemunhar o fato e o significado da Ressurreição. Os relatos são econômicos justamente porque concentram a atenção não em pormenores espetaculares do “momento” em que Jesus ressuscitou, mas nas evidências pelas quais esse acontecimento é conhecido: o túmulo vazio, o anúncio angelical, as aparições do Ressuscitado e a transformação das testemunhas.

Em outras palavras, os evangelistas não estão escrevendo romances ou roteiros para filmes, de modo a se preocupar em dramatizar a Ressurreição; o foco deles está unicamente na proclamação do Evangelho de Cristo.

Podemos complementar indicando uma razão literária e teológica importante: nenhum evangelista descreve o exato instante da ressurreição e seus detalhes (todos que chegam ao túmulo já o encontram vazio), porque ele não é apresentado como espetáculo público. O centro do testemunho cristão não está em reconstruir de forma teatral como o corpo voltou à vida, mas em afirmar que Deus agiu poderosamente em favor de seu Filho e que esse ato foi confirmado por sinais objetivos e por encontros reais com o Ressuscitado. De maneira que, a sobriedade dos relatos preserva a seriedade do evento: a ressurreição não é tratada como mito ornamentado, mas como intervenção divina cuja grandeza ultrapassa a curiosidade humana.

Mas em geral está em perfeita harmonia com o próprio estilo dos Evangelhos. As narrativas são, em geral, densas, seletivas e teologicamente orientadas. Há informações necessárias na dosagem exata para conduzir o leitor à fé, não para satisfazer todas as curiosidades dos leitores.  Desta forma, o silêncio relativo sobre certos aspectos não minimiza a centralidade da ressurreição; ao contrário, mostra que os evangelistas estavam mais preocupados com sua verdade salvífica do que com sua exploração descritiva. De maneira que, a brevidade, ressalta sua solenidade: o que importa não é a ornamentação do relato, e sim a certeza de que Cristo ressuscitou, apareceu aos seus e inaugurou a nova realidade do Reino de Deus.

No próximo artigo veremos as narrativas paralelas da ida ao túmulo

Para Reflexão

1. De que maneira a certeza da Ressurreição fortalece minha esperança diante das dificuldades e sofrimentos do dia a dia?

2. Como posso testemunhar, em minha vida cotidiana, que Cristo venceu a morte e inaugurou uma nova realidade no Reino de Deus?

3. Quais áreas da minha vida ainda precisam ser transformadas pela verdade da Ressurreição, para que eu viva com mais fé e confiança em Deus?

4. De que forma a sobriedade dos relatos evangélicos me inspira a viver uma fé simples, centrada na verdade de Cristo, sem buscar “ornamentos” ou espetáculos religiosos?

Utilização livre desde que citando a fonte

Guedes, Ivan Pereira

Mestre em Ciências da Religião.

me.ivanguedes@gmail.com

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