Há alguns relatos que apenas um, dois ou três evangelistas
registram com mais ou menos detalhes. Os acontecimentos relacionados ao
nascimento de Jesus, ainda que de grande relevância, foram escritos apenas por
Mateus e Lucas, enquanto Marcos os ignora por completo e João apenas faz
referência, retrocedendo a origem de Jesus à eternidade com Deus.
Já os acontecimentos relacionados à Ressurreição de Jesus Cristo
são registrados, em maior ou menor detalhe, pelos quatro evangelistas. Somente
este fato já seria suficiente para produzirmos milhares de comentários.
Todavia, fiquei negativamente surpreso comigo mesmo, pois, apesar de manter
este blog desde 2016 e ter produzido mais de cem artigos, não encontrei nenhum
específico sobre este momento único e incomparável da Ressurreição do Senhor e
Salvador Jesus Cristo.
Desejo compensar este lamentável lapso com esta pequena série das
narrativas paralelas da Ressurreição. Que o Espírito Santo aplique estas
verdades ao coração e à mente de cada leitor, a começar por mim!
Primeiramente, é preciso enfatizar que as narrativas da
Ressurreição nos Evangelhos não devem ser lidas como relatos isolados ou
meramente complementares de um acontecimento extraordinário, mas como o ápice
conclusivo da vida, do ministério e da missão de Jesus Cristo. Cada evangelista
constrói sua narrativa enfatizando, desde as primeiras linhas, a identidade de
Jesus revelada em suas palavras, obras, sinais, autoridade sobre a enfermidade,
sobre a natureza, sobre os demônios e até sobre a própria morte.
É na Ressurreição, porém, que essa revelação alcança sua expressão
máxima e plena, pois nela o Pai vindica o Filho, confirma a eficácia de sua
obra redentora e manifesta, de forma definitiva, que Jesus é o Cristo, o Senhor
e o doador da vida — vencendo a morte para sempre.
Assim, a ressurreição não aparece nos Evangelhos como um apêndice
final, mas como a consumação de toda narrativa cristológica. Cada
detalhe explícito ou implícito das narrativas evangélicas convergem para esse
momento: as promessas do Antigo Testamento, os anúncios da paixão, o caminho
para a cruz e a expectativa do Reino de Deus. Sua ressurreição não é somente um
triunfo sobre a morte, mas explicita o sentido de sua encarnação, de seu
sofrimento obediente e de seu sacrifício expiatório. Por esta razão, as narrativas
da paixão ocupam lugar central na fé cristã: elas demonstram que a cruz não foi
derrota, mas o caminho da vitória, e que a vida e o ministério de Jesus
encontram na ressurreição seu ponto máximo, sua confirmação divina e seu
alcance universal.
Mas, se essas narrativas são tão fundamentais, por que os
evangelistas são tão econômicos em seus relatos? A resposta simples e direta é
que o objetivo deles não era satisfazer curiosidades, mas testemunhar o fato e
o significado da Ressurreição. Os relatos são econômicos justamente porque
concentram a atenção não em pormenores espetaculares do “momento” em que Jesus
ressuscitou, mas nas evidências pelas quais esse acontecimento é conhecido: o
túmulo vazio, o anúncio angelical, as aparições do Ressuscitado e a
transformação das testemunhas.
Em outras palavras, os evangelistas não estão escrevendo romances
ou roteiros para filmes, de modo a se preocupar em dramatizar a Ressurreição; o
foco deles está unicamente na proclamação do Evangelho de Cristo.
Podemos complementar indicando uma razão literária e teológica
importante: nenhum evangelista descreve o exato instante da ressurreição e seus
detalhes (todos que chegam ao túmulo já o encontram vazio), porque ele não é
apresentado como espetáculo público. O centro do testemunho cristão não está em
reconstruir de forma teatral como o corpo voltou à vida, mas em afirmar que
Deus agiu poderosamente em favor de seu Filho e que esse ato foi confirmado por
sinais objetivos e por encontros reais com o Ressuscitado. De maneira que, a
sobriedade dos relatos preserva a seriedade do evento: a ressurreição não é
tratada como mito ornamentado, mas como intervenção divina cuja grandeza
ultrapassa a curiosidade humana.
Mas em geral está em perfeita harmonia com o próprio estilo dos
Evangelhos. As narrativas são, em geral, densas, seletivas e teologicamente
orientadas. Há informações necessárias na dosagem exata para conduzir o leitor
à fé, não para satisfazer todas as curiosidades dos leitores. Desta forma, o silêncio relativo sobre certos
aspectos não minimiza a centralidade da ressurreição; ao contrário, mostra que
os evangelistas estavam mais preocupados com sua verdade salvífica do
que com sua exploração descritiva. De maneira que, a brevidade, ressalta sua
solenidade: o que importa não é a ornamentação do relato, e sim a certeza de
que Cristo ressuscitou, apareceu aos seus e inaugurou a nova realidade do
Reino de Deus.
No próximo artigo veremos as narrativas paralelas da ida ao túmulo
Para Reflexão
1. De que maneira a certeza da Ressurreição fortalece minha
esperança diante das dificuldades e sofrimentos do dia a dia?
2. Como posso testemunhar, em minha vida cotidiana, que Cristo
venceu a morte e inaugurou uma nova realidade no Reino de Deus?
3. Quais áreas da minha vida ainda precisam ser transformadas pela
verdade da Ressurreição, para que eu viva com mais fé e confiança em Deus?
4. De que forma a sobriedade dos relatos evangélicos me inspira a
viver uma fé simples, centrada na verdade de Cristo, sem buscar “ornamentos” ou
espetáculos religiosos?
Utilização livre desde que citando a fonte
Guedes, Ivan Pereira
Mestre em Ciências da Religião.
me.ivanguedes@gmail.com
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