“Nascemos
em um hospital e morremos em um hospital; e, entre um e outro, tentamos evitar
ir ao hospital.”
Texto bíblico
“Geração vai e
geração vem; mas a terra permanece para sempre.
Levanta-se o sol, e põe-se o sol, e volta ao seu lugar, onde nasce de novo.
O vento vai para o sul e faz o seu giro para o norte; volve-se e revolve-se, na
sua carreira, e retorna aos seus circuitos.
Todos os rios correm para o mar, e o mar não se enche; ao lugar para onde
correm os rios, para lá tornam eles a correr.”
— Eclesiastes 1.4-7
A estabilidade
da natureza e a nossa instabilidade
Depois de
perguntar: “Que proveito tem o homem de todo o seu trabalho, com que se
afadiga debaixo do sol?” (Ec 1.3), o Pregador não responde diretamente. Em
vez disso, ele conduz seus ouvintes a observar a criação: as gerações passam, a
terra permanece; o sol nasce e se põe; o vento percorre seus circuitos; os rios
correm continuamente para o mar.
O contraste é
claro: a criação permanece em seus ciclos, enquanto o ser humano passa
rapidamente. Tremper Longman III observa que Ec 1.1-11 funciona como o prólogo
do livro, apresentando a perspectiva inicial de Qohelet e sua inquietação
diante da aparente ausência de ganho duradouro na vida “debaixo do sol”
(LONGMAN III, 1998). Assim, Ec 1.4-7 não é apenas uma descrição poética da
natureza; é um espelho diante do qual o ser humano percebe sua brevidade,
fragilidade e finitude.
Gerações
passam; a terra permanece
“Geração vai e
geração vem; mas a terra permanece para sempre” (Ec 1.4).
A maioria dos
nossos bisavós já se foi; muitos de nossos avós também. Nossos pais estão
envelhecendo, e nós igualmente passaremos. A terra, porém, permanece. Essa
permanência da criação anuncia a transitoriedade da vida humana.
Cada objeto no
mundo material, por sua persistência, prega-nos a brevidade da nossa
existência. Em certo sentido, caminhamos sobre os monumentos daqueles que
vieram antes de nós. A própria terra é o grande túmulo da humanidade.
Diante disso,
algumas perguntas se impõem:
- O que estamos plantando neste
mundo?
- Quais valores norteiam a nossa
vida?
- Qual esperança sustenta o nosso
coração?
A Bíblia nos
ensina que haverá uma nova terra, sem espinhos e abrolhos, sem pecado, sem dor
e sem morte. O mundo não caminha para o abandono, mas para a restauração
determinada por Deus.
O sol segue seu
curso; o homem não domina o seu destino
“Levanta-se o
sol, e põe-se o sol, e volta ao seu lugar, onde nasce de novo” (Ec 1.5).
O sol não rompe
a linha de seu curso no céu. Dia após dia, ele nasce e se põe. Do mesmo modo,
por mais habilidade, ciência e poder que o ser humano alegue possuir, ele não
consegue livrar-se de sua triste herança: pecado, fraqueza e morte.
Nascemos,
vivemos e morremos. A questão decisiva é: como estamos vivendo?
A Escritura nos
ensina que até na velhice podemos produzir frutos. A idade avançada não precisa
ser apenas o anúncio do fim; pode ser também tempo de testemunho, sabedoria,
frutificação e esperança.
O vento gira;
Deus governa a história
“O vento vai
para o sul e faz o seu giro para o norte; volve-se e revolve-se, na sua
carreira, e retorna aos seus circuitos” (Ec 1.6).
À primeira
vista, o vento parece selvagem, irregular e imprevisível. Entretanto, ele
também está sob o controle das leis estabelecidas pelo Criador. As tempestades
mais furiosas cumprem seus ciclos em obediência às condições impostas por Deus
à criação.
Assim também a
história humana pode parecer apenas uma sucessão desordenada de acontecimentos,
sem plano, sem direção e sem sentido. Mas há um Governador Supremo sobre todas
as coisas.
Nosso
nascimento, nosso tempo de vida — breve ou longo — e nossa morte estão dentro
da moldura da vontade e do propósito de Deus. Ninguém nasce, vive ou morre
aleatoriamente. Há um propósito.
A verdadeira
vida está em descobrir esse propósito em Deus. Jesus declarou: “Eu sou o
caminho, e a verdade, e a vida; ninguém vem ao Pai senão por mim” (Jo 14.6).
Os rios correm
para o mar; a vida precisa permanecer no leito de Deus
“Todos os rios
correm para o mar, e o mar não se enche; ao lugar para onde correm os rios,
para lá tornam eles a correr” (Ec 1.7).
O rio é uma
ilustração poderosa da vida humana. Quando permanece dentro de seu leito,
carrega vida e fertilidade por onde passa. Mas, quando transborda suas margens,
espalha destruição.
Assim também
acontece com a vida humana. Quando vivida dentro dos canais da verdade e da
justiça de Deus, ela produz bênção, maturidade e serviço. Mas, quando abandona
esses limites, espalha tristeza, confusão e morte.
Derek Kidner
observa que Eclesiastes continua falando com força a cada geração porque encara
as perguntas difíceis da experiência humana e nos conduz, ao final, a perceber
que Deus nunca esteve ausente da realidade examinada pelo Pregador (KIDNER,
2023). Essa é uma das grandes contribuições do livro: ele não nos permite fugir
da realidade, mas também não nos deixa sem Deus diante dela.
Para reflexão
A estabilidade
da criação revela a instabilidade da vida humana.
As gerações
passam. O sol continua seu curso. O vento percorre seus circuitos. Os rios
correm para o mar. E nós? Como estamos vivendo diante de Deus?
A pergunta de
Ec 1.3 continua ecoando: “Que proveito tem o homem de todo o seu trabalho?”. A
resposta não está em negar a brevidade da vida, mas em vivê-la diante de Deus,
com temor, sabedoria e esperança.
Não fomos
criados para uma existência aleatória, vazia e sem direção. Fomos criados para
Deus. Somente nele encontramos o caminho, a verdade e a vida.
Vamos
orar!
Senhor
Deus eterno,
Ensina-nos
a contar os nossos dias, para que alcancemos coração sábio.
Ajuda-nos
a perceber a brevidade da nossa vida sem desespero, e a estabilidade da tua
criação sem ilusão.
Que
vivamos dentro dos limites da tua verdade, guiados por tua Palavra e
sustentados por tua graça.
Que o
nosso trabalho, os nossos dias e os nossos caminhos sejam vividos para o louvor
da tua glória.
Em nome
de Jesus. Amém!
Utilização
livre desde que citando a fonte.
Guedes,
Ivan Pereira
Mestre em Ciências da Religião
me.ivanguedes@gmail.com
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Referências bibliográficas
KIDNER, Derek. The Message of Ecclesiastes.
Revised Edition. Downers Grove: IVP Academic, 2023. Série: The Bible Speaks
Today.
LONGMAN III, Tremper. The Book of
Ecclesiastes. Grand Rapids: Eerdmans, 1998. Série: The New International
Commentary on the Old Testament.
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