segunda-feira, 13 de abril de 2026

Teologia - Buscando o Reino e a Sua Justiça: Rompendo o Silêncio da Equidistância [Wolterstorff e Bonhoeffer]

Prólogo: O imperativo de “buscar”

Em Mateus 6:33, Jesus ordena: “Buscai em primeiro lugar o Reino de Deus e a sua justiça”. O verbo ζητεῖτε (zēteite, “buscai”) está no imperativo presente, indicando uma busca contínua, perseverante e ativa. Não se trata de um ato pontual, mas de uma postura existencial: o discípulo é chamado a viver em permanente movimento em direção ao Reino e à sua justiça.

A expressão δικαιοσύνη (justiça) no contexto do evangelista Mateus não se refere apenas à retidão moral individual (conversão), mas à ordem justa que caracteriza o governo de Deus. Portanto, “buscar a justiça” é alinhar-se com a vontade de Deus em todas as dimensões da vida — pessoal, comunitária e social. Nesse sentido, a conversão não pode ser reduzida a mudanças de hábitos externos ou à inserção em um ambiente e/ou uma agenda religiosa evangélica; ela implica em encarnar os princípios de justiça do Reino, tornando-se participante ativo da obra reconciliadora de Deus no mundo [PLANTINGA, 1995; WOLTERSTORFF, 2008].

Justiça como dimensão do Reino

Para Nicholas Wolterstorff a justiça deve ser entendida em termos de direitos fundamentais que derivam da criação divina [WOLTERSTORFF, 2008]. Essa perspectiva dialoga diretamente com o ensino de Jesus, de maneira que o Reino de Deus é uma realidade presente, onde cada pessoa deve ter reconhecida sua dignidade, e onde os desfavorecidos e marginalizados devem ser restaurados. De maneira que, o Reino implica buscar uma ordem social justa, em que os direitos não sejam negados e a dignidade seja preservada.

Bonhoeffer e as “ordens desordenadas”

Dietrich Bonhoeffer, em Ethics, denuncia as “ordens desordenadas” — estruturas sociais que se afastam da vontade de Deus e se tornam instrumentos de opressão [BONHOEFFER, 1944]. Ele vivenciou o surgimento do regime nazista, e testemunhou como o Estado, ao se tornar corrupto e violento, perde completamente sua legitimidade diante de Deus. Sua crítica se conecta diretamente à noção de corrupção sistêmica, onde poderes que deveriam proteger a vida e a justiça tornam-se cúmplices da destruição e da mentira.

A falácia da equidistância e o silêncio da Igreja

Em muitos contextos evangélicos, o “buscar” a justiça foi reduzido à esfera privada, como se a conversão fosse apenas uma questão de santidade individual ou de moralidade pessoal. De maneira que, a dimensão comunitária e social foi minimizada ou esquecida, frequentemente sob o argumento falacioso da “equidistância” — a ideia de que a Igreja não deve se posicionar diante das injustiças sociais ou políticas para não “tomar partido” [ELLUL, 1984].

Historicamente, esse silêncio comprometeu o testemunho do evangelho:

  • Na Alemanha nazista, grande parte da Igreja preferiu a neutralidade, legitimando por omissão a violência do regime, enquanto Bonhoeffer denunciava as “ordens desordenadas”.
  • Atualmente na sociedade brasileira, setores evangélicos permaneceram em silêncio ou omissão, alegando que a Igreja não deveria “se envolver em política”.

Desta forma, se perpetua uma postura diante da corrupção sistêmica, da desigualdade social e da violência institucional. A equidistância transforma a neutralidade em cumplicidade e compromete a vocação profética da Igreja.

Conclusão

O chamado de Jesus em Mateus 6:33 é claro: “Buscai em primeiro lugar o Reino de Deus e a sua justiça”. Esse “buscar” não é passivo, mas ativo e contínuo, exigindo que a Igreja confronte estruturas injustas e resista à corrupção sistêmica.

A conversão ganha aqui seu sentido pleno: não se trata apenas de abandonar hábitos ou aderir a uma identidade religiosa, mas de encarnar os princípios da justiça do Reino em todas as dimensões da vida. Dialogando com Wolterstorff [2008], que fundamenta a justiça nos direitos humanos e na dignidade da pessoa, e com Bonhoeffer [1944], que denunciou as ordens desordenadas de seu tempo, percebemos que buscar o Reino e a sua justiça significa resistir à tentação da equidistância e assumir uma postura profética.

A Igreja é chamada a ser comunidade transformadora que testemunha o evangelho em meio às injustiças, restaurando o shalom e vivendo como sinal visível da nova ordem inaugurada por Cristo.

Utilização livre desde que citando a fonte

Guedes, Ivan Pereira

Mestre em Ciências da Religião.

me.ivanguedes@gmail.com

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Referências Bibliográficas

  • BONHOEFFER, Dietrich. Ethics. New York: Macmillan, 1944.
  • BONHOEFFER, Dietrich. Life Together. New York: Harper & Row, 1939.
  • ELLUL, Jacques. La Subversion du Christianisme. Paris: Seuil, 1984.
  • O’DONOVAN, Oliver. The Desire of the Nations. Cambridge: Cambridge University Press, 1996.
  • PLANTINGA, Cornelius Jr. Not the Way It’s Supposed to Be: A Breviary of Sin. Grand Rapids: Eerdmans, 1995.
  • WOLTERSTORFF, Nicholas. Justice: Rights and Wrongs. Princeton: Princeton University Press, 2008.
  • YODER, John Howard. The Politics of Jesus. Grand Rapids: Eerdmans, 1972.

 

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