Prólogo: O imperativo de “buscar”
Em Mateus 6:33, Jesus ordena: “Buscai em primeiro lugar o Reino
de Deus e a sua justiça”. O verbo ζητεῖτε (zēteite, “buscai”)
está no imperativo presente, indicando uma busca contínua, perseverante e
ativa. Não se trata de um ato pontual, mas de uma postura existencial: o
discípulo é chamado a viver em permanente movimento em direção ao Reino e à sua
justiça.
A expressão δικαιοσύνη (justiça) no contexto do evangelista
Mateus não se refere apenas à retidão moral individual (conversão), mas à ordem
justa que caracteriza o governo de Deus. Portanto, “buscar a justiça” é
alinhar-se com a vontade de Deus em todas as dimensões da vida — pessoal,
comunitária e social. Nesse sentido, a conversão não pode ser
reduzida a mudanças de hábitos externos ou à inserção em um ambiente e/ou uma
agenda religiosa evangélica; ela implica em encarnar
os princípios de justiça do Reino, tornando-se participante ativo da obra
reconciliadora de Deus no mundo [PLANTINGA, 1995; WOLTERSTORFF, 2008].
Justiça como dimensão do Reino
Para Nicholas Wolterstorff a justiça deve ser entendida em termos de
direitos fundamentais que derivam da criação divina [WOLTERSTORFF, 2008]. Essa
perspectiva dialoga diretamente com o ensino de Jesus, de maneira que o Reino
de Deus é uma realidade presente, onde cada pessoa deve ter reconhecida sua
dignidade, e onde os desfavorecidos e marginalizados devem ser restaurados. De
maneira que, o Reino implica buscar uma ordem social justa, em que os direitos
não sejam negados e a dignidade seja preservada.
Bonhoeffer e as “ordens desordenadas”
Dietrich Bonhoeffer, em Ethics, denuncia as “ordens
desordenadas” — estruturas sociais que se afastam da vontade de Deus e se
tornam instrumentos de opressão [BONHOEFFER, 1944]. Ele vivenciou o surgimento
do regime nazista, e testemunhou como o Estado, ao se tornar corrupto e
violento, perde completamente sua legitimidade diante de Deus. Sua crítica se
conecta diretamente à noção de corrupção sistêmica, onde poderes que deveriam
proteger a vida e a justiça tornam-se cúmplices da destruição e da mentira.
A falácia da equidistância e o silêncio da Igreja
Em muitos contextos evangélicos, o “buscar”
a justiça foi reduzido à esfera privada, como se a conversão fosse apenas uma
questão de santidade individual ou de moralidade pessoal. De maneira que, a
dimensão comunitária e social foi minimizada ou esquecida, frequentemente sob o
argumento falacioso da “equidistância” — a ideia de que a Igreja não deve se
posicionar diante das injustiças sociais ou políticas para não “tomar partido”
[ELLUL, 1984].
Historicamente, esse silêncio comprometeu o testemunho do
evangelho:
- Na Alemanha nazista, grande parte
da Igreja preferiu a neutralidade, legitimando por omissão a violência do
regime, enquanto Bonhoeffer denunciava as “ordens desordenadas”.
- Atualmente na sociedade brasileira,
setores evangélicos permaneceram em silêncio ou omissão, alegando que a
Igreja não deveria “se envolver em política”.
Desta forma, se perpetua uma postura diante da corrupção sistêmica,
da desigualdade social e da violência institucional. A equidistância transforma
a neutralidade em cumplicidade e compromete a vocação profética da Igreja.
Conclusão
O chamado de Jesus em Mateus 6:33 é claro: “Buscai em
primeiro lugar o Reino de Deus e a sua justiça”. Esse “buscar”
não é passivo, mas ativo e contínuo, exigindo que a Igreja confronte
estruturas injustas e resista à corrupção sistêmica.
A conversão ganha aqui seu sentido pleno: não se trata
apenas de abandonar hábitos ou aderir a uma identidade religiosa, mas de encarnar
os princípios da justiça do Reino em todas as dimensões da vida.
Dialogando com Wolterstorff [2008], que fundamenta a justiça nos direitos
humanos e na dignidade da pessoa, e com Bonhoeffer [1944], que denunciou as
ordens desordenadas de seu tempo, percebemos que buscar o Reino e a sua justiça
significa resistir à tentação da equidistância e assumir uma postura
profética.
A Igreja é chamada a ser comunidade transformadora que testemunha o
evangelho em meio às injustiças, restaurando o shalom e vivendo como
sinal visível da nova ordem inaugurada por Cristo.
Utilização livre desde que citando a fonte
Guedes, Ivan Pereira
Mestre em Ciências da Religião.
me.ivanguedes@gmail.com
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Referências
Bibliográficas
- BONHOEFFER, Dietrich. Ethics. New York: Macmillan, 1944.
- BONHOEFFER, Dietrich. Life Together. New York: Harper
& Row, 1939.
- ELLUL, Jacques. La Subversion du Christianisme.
Paris: Seuil, 1984.
- O’DONOVAN, Oliver. The Desire of the Nations.
Cambridge: Cambridge University Press, 1996.
- PLANTINGA, Cornelius Jr. Not the Way It’s Supposed to Be: A
Breviary of Sin. Grand Rapids: Eerdmans, 1995.
- WOLTERSTORFF, Nicholas. Justice: Rights and Wrongs.
Princeton: Princeton University Press, 2008.
- YODER, John Howard. The Politics of Jesus. Grand
Rapids: Eerdmans, 1972.
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