Antropomorfismos são figuras de
linguagem nas quais atributos humanos — como membros do corpo, ações ou emoções
— são aplicados a Deus nas Escrituras. Essas expressões não devem ser
entendidas literalmente, mas como metáforas que comunicam aspectos da ação e
presença divina de forma acessível à compreensão humana.
Exemplos bíblicos
- A “mão” de Deus (Êx 3.20)
- O “braço” de Deus (Êx 6.6; Dt 4.34; 5.15)
- O “ouvido” de Deus (Is 37.17; Sl 11.4)
- O “descer” de Deus (Gn 11.5; Is 64.1-2)
Essas imagens não contradizem a doutrina de que Deus é Espírito
incorpóreo (Jo 4.24), mas servem para ilustrar sua ação eficaz e sua presença
manifesta.
Esse uso têm sido amplamente discutidos na tradição reformada. Em
suas Institutas da Religião Cristã Calvino afirma que Deus “se
acomoda” à nossa capacidade limitada, utilizando linguagem figurada para
revelar-se. Essa acomodação divina não significa que Deus possua corpo ou
limitações humanas, mas que Ele se comunica de modo acessível ao entendimento
humano¹. Por sua vez Herman Bavinck reforça essa ideia ao destacar que os
antropomorfismos são necessários porque o ser humano não pode compreender
diretamente a essência divina; eles funcionam como meios pedagógicos da
revelação, permitindo que a mente finita apreenda algo da realidade infinita². Em
sua obra teológica Louis Berkhof acrescenta que tais expressões não implicam
corporeidade em Deus, mas servem para comunicar sua atividade e relação com o
mundo, mostrando que Ele age, ouve, vê e intervém sem que isso comprometa sua
natureza espiritual³. E Martinho Lutero, ainda que não pertença estritamente à
tradição reformada, mas dentro do arcabouço do protestantismo, enfatiza que
Deus fala “de maneira infantil” para que possamos entendê-lo, usando
imagens humanas como recurso didático⁴.
Assim, a convergência desses autores demonstra que os
antropomorfismos não são falhas ou limitações da revelação bíblica, mas antes
testemunhos da condescendência graciosa de Deus, que se expressa em
termos humanos para que possamos conhecer sua obra e sua presença sem reduzir
sua essência espiritual.
Síntese homilética
Na pregação reformada, os antropomorfismos são usados como pontes
pedagógicas:
- Eles tornam a revelação acessível.
- Preservam a transcendência divina.
- Conduzem a igreja à confiança, reverência
e adoração.
Alguns Exemplos Práticos desta Pregação
1. João Calvino (1509–1564)
Texto: Salmo 34.15 — "Os olhos do Senhor repousam
sobre os justos..."
"Quando a Escritura fala dos olhos de Deus, ela acomoda sua
linguagem à nossa fraqueza. Deus não possui olhos como os homens; contudo, por
essa figura, somos ensinados de que nada escapa ao seu conhecimento e de que
sua providência está continuamente voltada para o cuidado dos seus
filhos."
Comentário: Calvino utiliza o antropomorfismo para explicar a onisciência
e a providência de Deus, ressaltando o princípio da
acomodação divina.
2. Charles Haddon Spurgeon (1834–1892)
Texto: Isaías 59.1 — "Eis que a mão do Senhor não está
encolhida para que não possa salvar..."
"A mão do Senhor jamais perdeu seu poder. O mesmo braço que
abriu o mar continua estendido para libertar pecadores. Não pense que a força
de Deus diminuiu; é a incredulidade do homem que limita sua própria experiência
das bênçãos divinas."
Comentário: Spurgeon emprega a expressão "a mão do
Senhor" como representação vívida do poder salvador de Deus,
conduzindo a aplicação pastoral.
3. R. C. Sproul (1939–2017)
Texto: 2 Crônicas 16.9 — "Os olhos do Senhor passam
por toda a terra..."
"Quando a Bíblia fala dos olhos de Deus percorrendo toda a
terra, não devemos imaginar um Deus físico olhando de um lado para outro.
Trata-se de uma maneira pela qual Deus comunica sua perfeita percepção e seu
conhecimento absoluto de todas as coisas."
Comentário: Sproul frequentemente utilizava esse texto em
suas aulas sobre os atributos divinos para explicar o significado dos
antropomorfismos bíblicos.
4. Sinclair Ferguson (1948– )
Texto: Deuteronômio 33.27 — "...por baixo de ti
estende os braços eternos."
"Os braços eternos de Deus não descrevem sua constituição
física, mas sua fidelidade infalível. A linguagem é profundamente pastoral:
aquilo que um pai faz ao sustentar um filho, Deus faz infinitamente por seu
povo."
Comentário: Ferguson explora o antropomorfismo para destacar
a segurança
da aliança e o cuidado paternal de Deus.
Observação Teológica
É relevante destacar que, em todas essas gerações de pregadores
reformados, os antropomorfismos não são evitados, mas explicados.
Eles preservam duas verdades simultaneamente:
- A linguagem bíblica deve ser pregada como foi
inspirada, mantendo sua força poética e
pastoral.
- Essa linguagem é figurada, não implicando que Deus possua corpo ou
limitações humanas, mas revelando seus atributos de forma acessível ao
entendimento humano.
Como didaticamente Calvino dizia, Deus "balbucia"
conosco como um pai que se adapta à capacidade de seus filhos, sem deixar de
comunicar a verdade sobre si mesmo. Esse princípio explica por que sermões
reformados continuam falando do braço, da mão,
dos olhos, dos ouvidos
e da face do Senhor exatamente como a Escritura o
faz, ao mesmo tempo em que afirmam a espiritualidade e a infinitude de Deus.
Utilização livre desde que citando a fonte
Guedes, Ivan Pereira
Mestre em Ciências da Religião.
me.ivanguedes@gmail.com
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Notas
- João Calvino, Institutas da Religião
Cristã, Livro I, cap. XIII.
- Herman Bavinck, Dogmática Reformada,
vol. II, cap. 2.
- Louis Berkhof, Teologia Sistemática,
seção sobre os atributos de Deus.
- Martinho Lutero, Comentário aos Salmos,
introdução.
Referências Bibliográficas de Autores Citados
CALVINO, João. Institutas da Religião Cristã. São Paulo:
Editora Cultura Cristã, 2006.
CALVINO, João O Livro dos Salmos v 1-5 São José dos Campos:
Fiel, 2009
BAVINCK, Herman. Dogmática Reformada. São Paulo: Editora
Vida Nova, 2012.
BERKHOF, Louis. Teologia Sistemática. São Paulo: Editora
Cultura Cristã, 1993.
FERGUSON, Sinclair B The Whole Christ: Legalism, Antinomianism,
and Gospel Assurance—Why the Marrow Controversy Still Matters Wheaton:
Crossway, 2016
LUTERO, Martinho. Comentário aos Salmos. São Leopoldo:
Sinodal, 1995.
SPROUL, R C A Santidade de Deus São José dos Campos: Fiel,
2018
SPROUL, R C Todos Somos Teólogos: Uma Introdução à Teologia
Sistemática São José dos Campos: Fiel, 2020
SPURGEON, Charles H The Metropolitan Tabernacle Pulpit 63 v
London: Passmore and Alabaster, 1861–1917
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