|
Hebraico |
בְּרֵאשִׁית |
בָּרָא |
אֱלֹהִים |
אֵת |
הַשָּׁמַיִם |
|
וְאֵת |
הָאָרֶץ |
|
Português |
no
princípio |
criou |
Deus |
(obj.)
* |
os
céus |
|
e
(obj.) * |
a
terra |
*Está partícula
não tem tradução apenas indica o objeto do verbo.
Os verbos no hebraico bíblico são fundamentais porque
carregam não apenas ação, mas também nuances de tempo, aspecto e relação com
Deus. Diferente do português, onde pensamos em passado, presente e futuro, o
hebraico bíblico trabalha com uma lógica mais ligada ao aspecto da ação
(se ela está completa ou em andamento) do que à cronologia linear.
Neste primeiro artigo veremos alguns verbos importantes no
desenvolvimento do primeiro capítulo de Gênesis e algumas de suas implicações
teológicas.
Gênesis 1:1–5
(texto hebraico)
1. בְּרֵאשִׁית בָּרָא
אֱלֹהִים אֵת הַשָּׁמַיִם וְאֵת הָאָרֶץ׃
2. וְהָאָרֶץ
הָיְתָה תֹהוּ וָבֹהוּ וְחֹשֶׁךְ עַל־פְּנֵי תְהוֹם וְרוּחַ אֱלֹהִים מְרַחֶפֶת
עַל־פְּנֵי הַמָּיִם׃
3. וַיֹּאמֶר
אֱלֹהִים יְהִי אוֹר וַיְהִי־אוֹר׃
4. וַיַּרְא
אֱלֹהִים אֶת־הָאוֹר כִּי־טוֹב וַיַּבְדֵּל אֱלֹהִים בֵּין הָאוֹר וּבֵין
הַחֹשֶׁךְ׃
5. וַיִּקְרָא
אֱלֹהִים לָאוֹר יוֹם וְלַחֹשֶׁךְ קָרָא לָיְלָה וַיְהִי־עֶרֶב וַיְהִי־בֹקֶר יוֹם
אֶחָד׃
Verbo בָּרָא - Transliteração: bara
Traduções: criou, trouxe à existência, originou
Comentário
Textual
Em Gênesis 1:1, o verbo בָּרָא (bara’) ocupa a posição
central da perícope inicial (1:1–5), afirmando de modo categórico que Deus é o
Criador absoluto. A expressão “céus e terra” abrange toda a realidade
criada, deixando claro que nada existe fora da ação divina. O texto não abre
espaço para dúvidas: aquilo que não havia passou a existir porque Deus trouxe
tudo à existência pela sua palavra e vontade soberana. O apóstolo Paulo não
apenas crê nessa declaração inicial de Gênesis, como também conecta Cristo como
aquele por meio de quem todas as coisas foram criadas e em quem tudo subsiste,
mostrando que a criação não apenas teve um início, mas continua sustentada e
conduzida pelo poder divino (Colossenses 1:16–17).
Na continuidade do capítulo, esse verbo não reaparece em cada dia
da criação; o escritor optou por utilizar outros verbos para descrever o
processo de ordenar, separar e preencher, como: āmar (“disse”), asah (“fez”) e
natan (“colocou/deu”). Dessa forma, a análise exegética mostra que bara’ não é
o centro de todo o capítulo 1, mas sim da abertura, funcionando como a
afirmação inicial de que Deus é o Criador. O desenvolvimento posterior expande
esse ato inaugural por meio de verbos que revelam como Deus organiza e dá forma
ao cosmos, transformando o caos inicial em um mundo ordenado e habitável.
Na Bíblia Hebraica, o verbo בָּרָא têm Deus como seu único sujeito explícito, ocorre cerca de cinquenta
vezes e descreve atos criadores únicos e soberanos, próprios
da iniciativa divina. Seu uso ressalta que a criação não é resultado de
processos naturais nem da ação de outros agentes criadores intermediários, mas
procede exclusivamente da vontade e do poder de Deus, que chama à existência novas
realidades segundo seu propósito.
Esse ensino bíblico contrasta com as concepções filosóficas
antigas. Platão, por exemplo, falava de um demiurgo,
um artesão divino
que moldava a matéria preexistente. Para ele, o mundo não surgia do nada, mas
era organizado a partir de algo eterno. Mais tarde, os gnósticos reinterpretaram
esse conceito, descrevendo o demiurgo como um ser inferior, responsável por um
mundo imperfeito, distinto do Deus supremo espiritual. Marcião, no
século II, quando ainda a teologia cristã estava sendo formulada, distorceu esse
conceito e levou ainda mais longe, afirmando que o Deus criador (demiurgo)
do Antigo Testamento seria um demiurgo mau, em contraste com o Deus bom
revelado em Cristo.
Mas estamos vendo que, não apenas neste primeiro verso de Gênesis,
mas também nas demais Escrituras subsequentes, há uma firme contraposição
contra essas distorções: não há dois deuses, nem uma matéria eterna ao lado de
Deus. Há apenas um Criador, que pela sua palavra trouxe tudo à existência e
que, em Cristo, revela o seu amor e sustento contínuo. O contraste entre a
filosofia antiga e a revelação bíblica nos lembra que nossa fé não repousa em
especulações humanas, mas na certeza de que “no princípio, Deus criou” e que
“em Cristo tudo subsiste”.
Enquanto o demiurgo da filosofia é um artesão limitado — e, no caso
de Marcião e dos gnósticos, considerado “mau” — que apenas organiza o que já
existe, o Criador bíblico é o Senhor que chama à existência o que não havia.
Essa diferença nos oferece total segurança: não vivemos em um mundo fruto do
acaso ou de um ser limitado (mau), mas em uma criação que nasceu da palavra e
da vontade de um Deus bom, que em Cristo revela seu amor e cuidado.
É importante realçar que em Gênesis 1:1 (e no desenvolvimento desta
perícope inicial – 1 a 5) não se deve traduzir ou interpretar diretamente o
verbo bara’ como se fosse uma afirmação explícita
da “criação continuada” (creatio continua). Exegeticamente, isso seria
ir além do que o texto bíblico apresenta, pois o foco aqui está no ato
inaugural de Deus como Criador absoluto.
Mas essa leitura não é contraditória à teologia bíblica mais ampla,
já que em outras passagens das Escrituras há abundância de argumentos
favoráveis à doutrina da creatio continua, especialmente quando se conecta o ato
criador inicial com a providência divina que sustenta e renova
continuamente todas as coisas.
A observação se faz necessária porque alguns intérpretes afirmam
que o próprio bara’ em Gênesis 1:1 já traria de forma clara esse
conceito teológico, quando na verdade o texto aponta para o início absoluto
da criação, e somente em diálogo com o restante da revelação bíblica
podemos fundamentar a ideia de criação continuada.
Para Reflexão
O que significa para você que Deus criou tudo com propósito e
ordem?
______________________________________________________________________________________________________________________________
Escreva o que você sente ao pensar que sua vida também foi criada com
propósito. _________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________
Utilização
livre desde que citando a fonteGuedes,
Ivan PereiraMestre
em Ciências da Religião.me.ivanguedes@gmail.comOutro
BlogHistoriologia
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