Uma Breve Introdução do Livro
A primeira edição de O Peregrino [The Pilgrim’s Progress
from This World, to That Which Is to Come], de John Bunyan, foi publicada
em 1678 e, ao longo dos séculos, tornou-se a mais conhecida alegoria da vida
cristã já escrita. Por meio da jornada do personagem central – Cristão, o autor
retrata o caminho da salvação desde o despertar espiritual (conversão) até a
entrada na Cidade Celestial (glorificação).
Engana-se quem pensa ou trata a obra apenas como literatura;
trata-se de uma narrativa imersa em uma teologia vivencial. Cada personagem,
lugar e evento é representativo de realidades espirituais vivenciadas por cada
crente em seu próprio contexto, de maneira que a obra se torna universal em sua
aplicação. O tema central é a perseverança da fé em meio às lutas, tendo
Cristo
como único fundamento da salvação.
Bunyan escolhe desenvolver sua história utilizando a linguagem
alegórica, ou seja, uma narrativa simbólica em que:
- Personagens representam verdades
espirituais
- Lugares representam estados da alma
- Eventos representam experiências da vida
cristã
A título de exemplo:
- O fardo = culpa do pecado
- A Cidade da Destruição = o mundo caído
- A Cidade Celestial = o céu
- O personagem Cristão = todo verdadeiro convertido
Dessa forma, no desenvolver da história, nada é meramente literal;
tudo tem como objetivo ensinar teologia na prática e não em dogmas
doutrinários.
O livro foi escrito com o propósito devocional, a fim de conduzir o
leitor à conversão, ao fortalecimento da fé e ao estímulo à perseverança.
Durante séculos, tem sido utilizado em cultos domésticos, em classes de novos
convertidos e no discipulado, tornando-se uma obra de referência para a vida
devocional cristã. Infelizmente, os ávidos por novidades o descartaram e o
substituíram por literaturas pueris e supérfluas, sem profundidade espiritual e
sem confrontação com o pecado em suas múltiplas formas.
A proposta desta série é abordarmos algumas frases relevantes de
cada capítulo, visto que o espaço utilizado tem suas limitações. É evidente que
muitas outras declarações importantes contidas na narrativa ficaram de fora;
por isso, peço antecipadamente desculpas e incentivo você, leitor, a
procurá-las e desenvolvê-las como exercício devocional, que muito o
enriquecerá.
A
Cristo toda glória!
Capítulo 1 – O Início da Jornada
No primeiro capítulo o autor apresenta o momento da conversão (despertar
espiritual) de Cristão. Este momento único, pois a conversão não se repete, é demarcado
pelo peso insuportável do fardo (pecado) em suas costas e pela consciência da
ira vindoura (juízo de Deus).
A narrativa passa a mostrar sua profunda angústia diante da
condenação e sua decisão de abandonar a Cidade da Destruição em busca da
salvação. É o início da jornada, onde a urgência da fé e o desejo de
libertação do pecado o impulsionam a seguir por um caminho desconhecido, mas
necessário.
“Fé é certeza
do que esperamos e convicção do que não vemos.”
Hebreus 11:1
O autor inicia sua história no momento decisivo em que Cristão,
lendo o Livro [bíblia], toma consciência de sua real condição diante de Deus.
Até então, vivia como todos os habitantes da Cidade da Destruição:
distraído, ocupado, aparentemente seguro. Mas enquanto lê as Escrituras seus
olhos se abrem para duas verdades que não podem mais ser ignoradas: ele está
perdido e o juízo de Deus é uma realidade.
Deste modo, a frase “Fugi da ira vindoura” é a expressão do clamor
existencial de uma alma que finalmente enxerga a gravidade do pecado e a
realidade da condenação eterna. Ele não teme apenas os problemas desta vida,
mas o juízo que virá sobre todos os que permanecem indiferentes, recusando-se
afrontosamente a arrepender-se de seus pecados e a crer no Evangelho.
Assim, a expressão constitui-se no ponto de ruptura entre a indiferença
e a conversão. Então, ele sente como que um pesado fardo em suas costas,
simbolizando a culpa (o pecado) que não pode mais ser ignorada. Ao tomar a
decisão de partir, mesmo sem ter todas as respostas, revela a determinação de
quem, uma vez tocado pela graça, não consegue mais permanecer na mesma
condição, vivendo no mesmo estilo de vida pecaminoso em que estava. O hino,
abaixo, transcrito em parte realça esse momento de cada Cristão:
Algemado
por um peso
Oh, quão
triste eu andei
Até sentir a
mão de Cristo
Não sou mais
como era, eu sei
Tocou-me,
Jesus tocou-me
De paz Ele
encheu meu coração
Quando o
Senhor Jesus me tocou
Livrou-me da
escuridão
Tocou-me
(Composição
original: William Gaither
e Interpretado
por Luiz de Carvalho)
A expressão “Fugi da ira vindoura” revela que a verdadeira conversão
não começa com promessas de glória ou visões celestiais, ou como é moda hoje,
com promessas de prosperidade e/ou cura, mas com a consciência do eminente
juízo de Deus. Enquanto isso não ocorre, a pessoa pode ser religiosa (até mesmo
evangélica), moralmente ilibada (nunca matou, nunca roubou...), mas ainda está
espiritualmente morto. É exatamente isso que aconteceu com Cristão - o que o despertou
não foi a esperança imediata da Cidade Celestial, mas a realidade do juízo que
se aproximava.
Ele não correu em direção a algo, mas fugiu
de algo. Fugiu da ira. Esse movimento revela uma verdade bíblica profunda:
ninguém busca verdadeiramente a salvação
até compreender
verdadeiramente sua perdição.
Enquanto o pecado é visto algo pequeno, um mal menor, um desvio de
personalidade, e cousas semelhantes, Cristo torna-se desnecessário.
Mas quando o pecado é reconhecido com suas consequências eternas, Cristo se
torna absolutamente indispensável.
Assim sendo, esta fuga de Cristão é, na verdade, seu primeiro ato
de fé. Não é ainda descanso, mas é um desespero cheio de esperança. É o
momento em que a alma, tocada pela graça, percebe que não pode mais permanecer
na mesma condição e se lança em busca de refúgio.
Podemos encontrar essas mesmas sensações no testemunho de
Agostinho, em suas Confissões - onde ele
descreve a experiência de estar aprisionado pelo pecado, inquieto e incapaz de
encontrar paz em si mesmo. Sua célebre frase — “Nos fizeste para Ti, e
inquieto está o nosso coração enquanto não repousa em Ti” — revela que o
despertar espiritual nasce da percepção da própria miséria e da necessidade de
Deus. Ambos tomam consciência de que não podem permanecer como estão. E
a fuga não é apenas afastar-se do perigo [medo do juízo eterno], mas muito mais
do que isso, é correr em direção ao único refúgio seguro: Cristo.
Uma das cenas mais lindas de “Peregrino” é quando cristão finalmente contempla
a cruz e o seu pesado e insuportável peso, cai de suas costas. Vamos chegar lá,
aqui estamos apenas no início da jornada.
Portanto, o
desespero de Cristão e a inquietação de Agostinho são faces da mesma realidade
espiritual: o evangelho da graça desperta, expõe a perdição e
conduz ao primeiro passo de fé. Não é ainda o descanso pleno, mas é o início da
jornada gloriosa que culminara na paz verdadeira.
Neste paralelo
precioso somos lembrados de que todo coração que desperta para a gravidade do
pecado e para a certeza do juízo encontra em Cristo não apenas uma possibilidade
e/ou probabilidade, mas a única esperança real e verdadeira. É no
reconhecimento da própria perdição que nasce a fé genuína, e é nesse movimento
de fuga e busca que se experimenta a verdadeira conversão.
Aqui podemos
ouvir o eco das palavras de Jesus: “Quem crê no Filho tem a vida eterna; o
que, porém, não crê no Filho não verá a vida, mas sobre ele
permanece a ira de Deus” (João 3:36). A fuga não é apenas um gesto
de medo, mas o reconhecimento de que fora de Cristo não há esperança.
Em perfeita
harmonia com as palavras de Cristo, temos as afirmações de Paulo em sua
epístola aos Romanos. O despertar de Cristão em O Peregrino encontra
paralelo direto na Epístola aos Romanos: “A ira de Deus se revela do céu
contra toda impiedade e injustiça dos homens” (Rm 1:18) e “Todos pecaram
e carecem da glória de Deus” (Rm 3:23). É essa percepção que rompe a
indiferença; o fardo que Cristão sente em suas costas é a tradução existencial
dessa verdade. Ele ainda não compreende plenamente o Evangelho, mas já
reconhece a gravidade de sua condição.
Assim, Bunyan está fundamentado no ensino bíblico, pois, o início da jornada espiritual não é marcado pelo descanso, mas pela consciência da perdição. É o momento em que a alma, tocada pela graça, percebe que não pode mais permanecer como está.
Assim também deve ser conosco: o caminho da fé começa quando
entendemos que não há segurança fora de Cristo. O peso da condenação do
pecado deve nos impulsionar – “Fugi da ira vindoura”. Que possamos ouvir a
mensagem do Evangelho e respondermos com passos firmes rumo à Cristo e à vida
eterna.
Utilização livre desde que citando a fonte
Guedes, Ivan Pereira
Mestre em Ciências da Religião.
Universidade Presbiteriana Mackenzie
me.ivanguedes@gmail.com
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