terça-feira, 24 de fevereiro de 2026

Peregrino – Capítulo 1 - O Início da Jornada [Frases Relevantes-série]

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Uma Breve Introdução do Livro

A primeira edição de O Peregrino [The Pilgrim’s Progress from This World, to That Which Is to Come], de John Bunyan, foi publicada em 1678 e, ao longo dos séculos, tornou-se a mais conhecida alegoria da vida cristã já escrita. Por meio da jornada do personagem central – Cristão, o autor retrata o caminho da salvação desde o despertar espiritual (conversão) até a entrada na Cidade Celestial (glorificação).

Engana-se quem pensa ou trata a obra apenas como literatura; trata-se de uma narrativa imersa em uma teologia vivencial. Cada personagem, lugar e evento é representativo de realidades espirituais vivenciadas por cada crente em seu próprio contexto, de maneira que a obra se torna universal em sua aplicação. O tema central é a perseverança da fé em meio às lutas, tendo Cristo como único fundamento da salvação.

Bunyan escolhe desenvolver sua história utilizando a linguagem alegórica, ou seja, uma narrativa simbólica em que:

  • Personagens representam verdades espirituais
  • Lugares representam estados da alma
  • Eventos representam experiências da vida cristã

A título de exemplo:

  • O fardo = culpa do pecado
  • A Cidade da Destruição = o mundo caído
  • A Cidade Celestial = o céu
  • O personagem Cristão = todo verdadeiro convertido

Dessa forma, no desenvolver da história, nada é meramente literal; tudo tem como objetivo ensinar teologia na prática e não em dogmas doutrinários.

O livro foi escrito com o propósito devocional, a fim de conduzir o leitor à conversão, ao fortalecimento da fé e ao estímulo à perseverança. Durante séculos, tem sido utilizado em cultos domésticos, em classes de novos convertidos e no discipulado, tornando-se uma obra de referência para a vida devocional cristã. Infelizmente, os ávidos por novidades o descartaram e o substituíram por literaturas pueris e supérfluas, sem profundidade espiritual e sem confrontação com o pecado em suas múltiplas formas.

A proposta desta série é abordarmos algumas frases relevantes de cada capítulo, visto que o espaço utilizado tem suas limitações. É evidente que muitas outras declarações importantes contidas na narrativa ficaram de fora; por isso, peço antecipadamente desculpas e incentivo você, leitor, a procurá-las e desenvolvê-las como exercício devocional, que muito o enriquecerá.

A Cristo toda glória!

Capítulo 1 – O Início da Jornada

No primeiro capítulo o autor apresenta o momento da conversão (despertar espiritual) de Cristão. Este momento único, pois a conversão não se repete, é demarcado pelo peso insuportável do fardo (pecado) em suas costas e pela consciência da ira vindoura (juízo de Deus).

A narrativa passa a mostrar sua profunda angústia diante da condenação e sua decisão de abandonar a Cidade da Destruição em busca da salvação. É o início da jornada, onde a urgência da fé e o desejo de libertação do pecado o impulsionam a seguir por um caminho desconhecido, mas necessário.

“Fé é certeza do que esperamos e convicção do que não vemos.”

Hebreus 11:1

 

O autor inicia sua história no momento decisivo em que Cristão, lendo o Livro [bíblia], toma consciência de sua real condição diante de Deus. Até então, vivia como todos os habitantes da Cidade da Destruição: distraído, ocupado, aparentemente seguro. Mas enquanto lê as Escrituras seus olhos se abrem para duas verdades que não podem mais ser ignoradas: ele está perdido e o juízo de Deus é uma realidade.

Deste modo, a frase “Fugi da ira vindoura” é a expressão do clamor existencial de uma alma que finalmente enxerga a gravidade do pecado e a realidade da condenação eterna. Ele não teme apenas os problemas desta vida, mas o juízo que virá sobre todos os que permanecem indiferentes, recusando-se afrontosamente a arrepender-se de seus pecados e a crer no Evangelho.

Assim, a expressão constitui-se no ponto de ruptura entre a indiferença e a conversão. Então, ele sente como que um pesado fardo em suas costas, simbolizando a culpa (o pecado) que não pode mais ser ignorada. Ao tomar a decisão de partir, mesmo sem ter todas as respostas, revela a determinação de quem, uma vez tocado pela graça, não consegue mais permanecer na mesma condição, vivendo no mesmo estilo de vida pecaminoso em que estava. O hino, abaixo, transcrito em parte realça esse momento de cada Cristão:

Algemado por um peso

Oh, quão triste eu andei

Até sentir a mão de Cristo

Não sou mais como era, eu sei

Tocou-me, Jesus tocou-me

De paz Ele encheu meu coração

Quando o Senhor Jesus me tocou

Livrou-me da escuridão

Tocou-me

(Composição original: William Gaither

e Interpretado por Luiz de Carvalho)

A expressão “Fugi da ira vindoura” revela que a verdadeira conversão não começa com promessas de glória ou visões celestiais, ou como é moda hoje, com promessas de prosperidade e/ou cura, mas com a consciência do eminente juízo de Deus. Enquanto isso não ocorre, a pessoa pode ser religiosa (até mesmo evangélica), moralmente ilibada (nunca matou, nunca roubou...), mas ainda está espiritualmente morto. É exatamente isso que aconteceu com Cristão - o que o despertou não foi a esperança imediata da Cidade Celestial, mas a realidade do juízo que se aproximava.

Ele não correu em direção a algo, mas fugiu de algo. Fugiu da ira. Esse movimento revela uma verdade bíblica profunda:

ninguém busca verdadeiramente a salvação

até compreender verdadeiramente sua perdição.

Enquanto o pecado é visto algo pequeno, um mal menor, um desvio de personalidade, e cousas semelhantes, Cristo torna-se desnecessário. Mas quando o pecado é reconhecido com suas consequências eternas, Cristo se torna absolutamente indispensável.

Assim sendo, esta fuga de Cristão é, na verdade, seu primeiro ato de fé. Não é ainda descanso, mas é um desespero cheio de esperança. É o momento em que a alma, tocada pela graça, percebe que não pode mais permanecer na mesma condição e se lança em busca de refúgio.

Podemos encontrar essas mesmas sensações no testemunho de Agostinho, em suas Confissões -  onde ele descreve a experiência de estar aprisionado pelo pecado, inquieto e incapaz de encontrar paz em si mesmo. Sua célebre frase — “Nos fizeste para Ti, e inquieto está o nosso coração enquanto não repousa em Ti” — revela que o despertar espiritual nasce da percepção da própria miséria e da necessidade de Deus. Ambos tomam consciência de que não podem permanecer como estão. E a fuga não é apenas afastar-se do perigo [medo do juízo eterno], mas muito mais do que isso, é correr em direção ao único refúgio seguro: Cristo. Uma das cenas mais lindas de “Peregrino” é quando cristão finalmente contempla a cruz e o seu pesado e insuportável peso, cai de suas costas. Vamos chegar lá, aqui estamos apenas no início da jornada.

Portanto, o desespero de Cristão e a inquietação de Agostinho são faces da mesma realidade espiritual: o evangelho da graça desperta, expõe a perdição e conduz ao primeiro passo de fé. Não é ainda o descanso pleno, mas é o início da jornada gloriosa que culminara na paz verdadeira.

Neste paralelo precioso somos lembrados de que todo coração que desperta para a gravidade do pecado e para a certeza do juízo encontra em Cristo não apenas uma possibilidade e/ou probabilidade, mas a única esperança real e verdadeira. É no reconhecimento da própria perdição que nasce a fé genuína, e é nesse movimento de fuga e busca que se experimenta a verdadeira conversão.

Aqui podemos ouvir o eco das palavras de Jesus: “Quem crê no Filho tem a vida eterna; o que, porém, não crê no Filho não verá a vida, mas sobre ele permanece a ira de Deus (João 3:36). A fuga não é apenas um gesto de medo, mas o reconhecimento de que fora de Cristo não há esperança.

Em perfeita harmonia com as palavras de Cristo, temos as afirmações de Paulo em sua epístola aos Romanos. O despertar de Cristão em O Peregrino encontra paralelo direto na Epístola aos Romanos: “A ira de Deus se revela do céu contra toda impiedade e injustiça dos homens” (Rm 1:18) e “Todos pecaram e carecem da glória de Deus” (Rm 3:23). É essa percepção que rompe a indiferença; o fardo que Cristão sente em suas costas é a tradução existencial dessa verdade. Ele ainda não compreende plenamente o Evangelho, mas já reconhece a gravidade de sua condição.

Assim, Bunyan está fundamentado no ensino bíblico, pois, o início da jornada espiritual não é marcado pelo descanso, mas pela consciência da perdição. É o momento em que a alma, tocada pela graça, percebe que não pode mais permanecer como está.

Assim também deve ser conosco: o caminho da fé começa quando entendemos que não há segurança fora de Cristo. O peso da condenação do pecado deve nos impulsionar – “Fugi da ira vindoura”. Que possamos ouvir a mensagem do Evangelho e respondermos com passos firmes rumo à Cristo e à vida eterna.

 

Utilização livre desde que citando a fonte

Guedes, Ivan Pereira

Mestre em Ciências da Religião.

Universidade Presbiteriana Mackenzie

me.ivanguedes@gmail.com

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